O Colecionador de Ossos
Capítulo 4 — A Cicatriz no Tempo
por Thiago Barbosa
Capítulo 4 — A Cicatriz no Tempo
A investigação sobre o corpo exumado na propriedade dos Almeida se transformou em uma imersão profunda na história da família e da região. Helena sentia que estava desvendando um nó cego, onde cada fio puxado revelava uma nova complexidade, um novo fantasma do passado. A identificação da vítima como Lurdes parecia cada vez mais provável, mas a confirmação definitiva dependia de exames mais aprofundados e da busca por registros médicos ou familiares que pudessem ser comparados com o DNA.
A marca peculiar no antebraço de Lurdes, que o Dr. Carvalho chamava de “perfuração de agulha”, tornou-se um ponto focal. Helena solicitou que a perícia examinasse a peça óssea com um microscópio de alta resolução. A hipótese inicial de que poderia ser algo ligado a um tratamento médico antigo foi descartada quando a análise revelou que a borda da perfuração era irregular, com vestígios de algo orgânico, quase como se uma espinha ou um osso fino tivesse sido forçado com violência através da pele e do osso.
“É como se a pessoa estivesse sendo ‘marcada’”, o Dr. Carvalho ponderou, seu olhar fixo na tela do microscópio. “Uma marca permanente. Mas por quê?”
Helena lembrou-se da história de Dona Aurora, a matriarca reclusa que falava com a terra e pressentia os segredos. E a lembrança da interação entre Aurora e Lurdes, com a frase enigmática: “Os segredos da terra, um dia, virão à luz.” Seria Lurdes um desses segredos? E Dona Aurora teria sido uma confidente, uma cúmplice, ou uma testemunha silenciada?
Ricardo Almeida, por sua vez, parecia cada vez mais atormentado. Ele concordou em fornecer amostras de DNA para comparação, mas sua principal preocupação parecia ser com a própria memória, com a possibilidade de ter esquecido algo crucial em sua infância. Ele passou dias vasculhando álbuns de fotos antigos, procurando por qualquer imagem de Lurdes, de Josué, ou de qualquer evento incomum que pudesse ter ocorrido na propriedade nas décadas passadas.
Foi em um desses álbuns empoeirados, com fotos em sépia e bordas amareladas, que Helena encontrou um vislumbre. Uma foto, datada aproximadamente de 1974, mostrava um grupo de empregados da fazenda. No canto, ligeiramente fora de foco, estava uma moça de cabelos escuros e um sorriso tímido, que se assemelhava às descrições de Lurdes. Ao lado dela, um homem mais velho, de semblante sério, que Helena suspeitou ser o Sr. Sebastião Almeida, o patriarca daquela época.
“Esse é o meu avô, Sebastião”, Ricardo confirmou, a voz trêmula ao ver a foto. “E sim, essa deve ser Lurdes. Sempre fiquei com a impressão de que minha avó, Dona Aurora, tinha uma relação especial com ela. Como se fossem próximas.”
“Próximas em quê sentido, Sr. Almeida?” Helena perguntou, a voz calma, mas a mente em chamas.
“Não sei dizer. Minha avó era uma mulher de poucas palavras com os empregados. Mas com Lurdes… ela parecia ter uma espécie de compaixão. Ou talvez… medo?” Ricardo hesitou. “Lembro-me que minha avó sempre a chamava de ‘minha menina’. Era um carinho incomum para alguém tão reservada.”
Uma mistura de compaixão e medo. Isso adicionava mais uma camada de complexidade. Helena sentiu que estava caminhando em um campo minado, onde cada passo era crucial. Ela precisava entender a dinâmica entre Dona Aurora e Lurdes, e o papel do Sr. Sebastião Almeida.
Carlos, o detetive, trouxe outra informação crucial. Ele conseguiu localizar um antigo morador da região, um senhor de oitenta anos que se lembrava vagamente de Lurdes e Josué. Ele contou que Lurdes era vista como uma moça muito bonita, mas também muito assustada. E que havia boatos de que ela tinha um relacionamento com um homem que não era Josué. Um homem casado, de posses.
“Um homem casado?”, Helena repetiu, o interesse aguçado. “Quem era ele?”
“Não se falava abertamente, delegada. Era um escândalo sussurrado. Mas todos sabiam que Lurdes estava grávida na época em que desapareceu. E que o pai não era Josué. Isso gerou muita intriga na época. Algumas pessoas diziam que ela tinha fugido para não ter o filho ilegítimo, outras que o homem a mandou embora.”
Gravidez. Isso explicaria o medo, a tristeza. E o desaparecimento. Helena sentiu um nó se apertar em seu estômago. Se Lurdes estava grávida, e se o pai era um homem poderoso, isso poderia ter levado a um desfecho trágico. E o Sr. Sebastião Almeida, o patriarca, o que ele sabia disso? Seria ele o homem casado? Ou ele apenas protegia a reputação da família, ou de alguém da família?
“Essa informação sobre a gravidez… é sólida?”, Helena perguntou.
“O senhor disse que eram boatos, mas todos na época concordavam com isso. E o desaparecimento repentino, sem levar nada, sem se despedir… isso reforça a ideia de um acontecimento drástico.”
Helena encarou a foto em sua mão. Lurdes, a moça de sorriso tímido, com um segredo em seu ventre e um medo no olhar. E Dona Aurora, a matriarca que parecia sentir a dor da moça.
Ela decidiu que era hora de investigar mais a fundo o Sr. Sebastião Almeida. O que ele era capaz de fazer para proteger a honra de sua família ou a sua própria? A frieza que emanava de sua imagem na foto era perturbadora.
“Sr. Almeida”, Helena disse a Ricardo, enquanto revisavam os documentos da propriedade. “Seu avô, o Sr. Sebastião, ele era o único proprietário naquela época?”
“Sim. Minha avó faleceu bem cedo. Ele administrava tudo. Era um homem muito rigoroso. Acredito que ele tentava manter uma imagem impecável para a sociedade. Não tolerava escândalos.”
Escândalos. O relacionamento de Lurdes com um homem casado. A gravidez. O desaparecimento. De repente, a imagem do Sr. Sebastião como um homem rigoroso se tornou mais sinistra. E a marca no antebraço de Lurdes? Poderia ter sido ele a causá-la? Por quê? Uma punição? Uma marca de posse?
Helena pediu a Carlos que investigasse qualquer informação sobre o Sr. Sebastião Almeida, especialmente sobre sua vida pessoal na década de 1970. Seria um trabalho hercúleo, mas era a única pista que restava para conectar o passado ao presente.
Enquanto isso, a equipe de laboratório enviou um relatório sobre a perfuração no antebraço. A análise revelou traços minúsculos de madeira petrificada. Madeira petrificada. Helena franziu a testa. O que aquilo significava?
“Madeira petrificada”, ela repetiu em voz alta. “Como é que isso aparece em um osso?”
Ela olhou pela janela da delegacia. A paisagem da serra, com suas árvores antigas, suas rochas imponentes. A terra, que Dona Aurora dizia falar. E agora, madeira petrificada na ossada de Lurdes. Era como se a própria serra estivesse deixando sua marca na vítima.
A investigação parecia estar se transformando em algo mais do que um simples crime. Era um eco de um passado sombrio, uma história de segredos enterrados, de paixões proibidas e de uma violência brutal que deixara uma cicatriz no tempo. O Colecionador de Ossos não era apenas um assassino, mas alguém que parecia ter uma conexão íntima com a terra, com a madeira, com a própria essência daquele lugar. E Helena sentia que a cada descoberta, ela se aproximava mais do centro de um labirinto onde a verdade era tão antiga e tão profunda quanto as montanhas que a cercavam.