O Colecionador de Ossos

Capítulo 5 — A Assinatura na Madeira

por Thiago Barbosa

Capítulo 5 — A Assinatura na Madeira

Os dias se transformaram em semanas, e a investigação sobre o corpo exumado na propriedade dos Almeida se aprofundou em um emaranhado de segredos familiares e tragédias esquecidas. A identificação de Lurdes como a vítima estava praticamente confirmada. O DNA de um parente distante bateu com a amostra óssea, e os registros paroquiais de uma cidade vizinha indicavam que Lurdes, uma jovem órfã, trabalhara na propriedade dos Almeida por volta de 1974-1975, e depois desapareceu misteriosamente.

A marca no antebraço esquerdo de Lurdes, aquela perfuração peculiar que parecia ter sido feita com algo pontiagudo e fino, continuava sendo um enigma. A descoberta de vestígios de madeira petrificada nela deixou Helena ainda mais perplexa. O que aquilo significava? Era um acidente de trabalho? Uma punição sádica?

“Madeira petrificada… é como se ela tivesse sido marcada com uma pedra de madeira”, o Dr. Carvalho disse, sua voz refletindo a frustração de todos. “Não é algo comum. Poderia ser um pedaço de uma árvore fossilizada, talvez de alguma formação geológica aqui da região. Mas a forma como está na perfuração… sugere que foi algo usado como instrumento.”

Helena começou a pesquisar sobre formações geológicas com madeira petrificada na Serra da Mantiqueira. Descobriu que existiam algumas áreas conhecidas, mas eram geralmente preservadas como pontos turísticos ou sítios de pesquisa. Nada que indicasse um uso direto como ferramenta.

Enquanto isso, a equipe de Carlos conseguia traçar um perfil mais detalhado do Sr. Sebastião Almeida. Ele era descrito como um homem austero, devoto à igreja e extremamente preocupado com a reputação da família. Havia rumores, sussurrados por antigos moradores, de que ele era um homem com um temperamento explosivo e uma forte necessidade de controle. Um dos antigos caseiros, já falecido, teria confidenciado a um vizinho que Sebastião era implacável com quem o desagradasse ou ameaçasse a honra da família.

“Honra da família…” Helena murmurou, sentada em sua sala, a luz fraca do abajur iluminando os documentos. “Lurdes estava grávida de um homem casado. Se esse homem fosse o próprio Sebastião, ou alguém muito próximo a ele, isso seria um escândalo devastador para um homem daquela época e com aquela mentalidade.”

A teoria ganhava força. Sebastião, para encobrir o escândalo e proteger a si mesmo ou a alguém de sua família, teria agido de forma drástica. Mas como ele teria feito isso? E por que a marca no antebraço com madeira petrificada?

Helena pediu a Ricardo que a levasse aos locais mais remotos da propriedade, lugares onde ele se lembrava de que seu avô costumava ir. Ricardo, ainda pálido e hesitante, concordou. A busca pelo passado era, de certa forma, uma terapia para ele, uma tentativa de dar sentido àquela descoberta macabra.

Eles caminharam por trilhas estreitas, entre a vegetação densa, o cheiro de terra úmida e mato pairando no ar. Ricardo apontava para clareiras isoladas, para formações rochosas antigas, para troncos de árvores caídas.

“Meu avô gostava de vir aqui para pensar”, ele disse, apontando para um local onde um pequeno riacho serpenteava entre pedras cobertas de musgo. “Dizia que era onde a terra falava mais alto.”

Helena sentiu um arrepio. A terra falava. A mesma frase que Dona Aurora usava. Ela se agachou perto do riacho, observando as pedras. E então, ela viu. Uma das pedras, parcialmente submersa na água, tinha uma textura peculiar, diferente das outras. Era mais clara, com veios que lembravam a textura da madeira.

“Sr. Almeida”, Helena chamou, a voz tensa. “Essa pedra… ela é diferente, não é?”

Ricardo se aproximou, a curiosidade substituindo o temor. Ele tocou a pedra. “Nunca reparei. Mas é verdade. Tem uma textura estranha.”

Helena pegou uma pequena vara e tentou desenterrar a pedra com cuidado. Era mais pesada do que parecia. Ao retirá-la da água, a luz do sol revelou sua natureza. Era um pedaço de madeira petrificada, com a forma irregular, mas com uma ponta que parecia ter sido trabalhada, afiada. Não era uma ferramenta perfeita, mas poderia, com força e precisão, ser usada para perfurar um osso.

“Isso… isso pode ser o que foi usado em Lurdes”, Helena disse, o coração batendo forte. A assinatura na madeira. A própria serra marcando sua vítima.

Ela imaginou a cena: Sebastião Almeida, confrontando Lurdes, descobrindo sua gravidez, e num acesso de fúria e desespero para encobrir o escândalo, usando aquele pedaço de madeira petrificada para marcá-la, para infligir uma punição, um aviso. E depois, enterrando-a ali, naquela propriedade isolada, para que o tempo e a terra encobrissem seu crime.

“Ele a matou, não foi, delegada?”, Ricardo perguntou, a voz embargada. A realização brutal do que poderia ter acontecido com Lurdes, e a cumplicidade tácita de sua família, desmoronava sobre ele.

“É muito provável, Sr. Almeida. E a marca… pode ter sido uma forma de punição, um sinal de que ela falhou em manter o segredo.”

Helena sentiu um misto de alívio por ter encontrado uma pista tão crucial e de repulsa pela crueldade do ato. O Colecionador de Ossos não era um serial killer com uma coleção macabra, mas um homem do passado, que deixara sua marca de sangue e segredo na terra.

“Precisamos levar essa pedra para perícia”, Helena disse, olhando para o pedaço de madeira petrificada em sua mão. “E precisamos confirmar a identidade de Lurdes com mais precisão. Mas acho que estamos perto de desvendar o mistério.”

Ao retornar para a delegacia, Helena sentiu um peso se dissipar, mas outro, mais profundo, se instalou. A história de Lurdes era a história de muitas mulheres marginalizadas, cujas vidas e mortes eram facilmente silenciadas. A marca no osso era um grito mudo, que agora, finalmente, começava a ser ouvido.

O caso do Colecionador de Ossos, um nome que ela ainda não usaria publicamente, mas que agora ressoava em sua mente com a frieza da madeira petrificada, estava se aproximando de sua resolução. E Helena sabia que, ao desenterrar o passado, ela não apenas encontrara um assassino, mas também honrara a memória de uma mulher esquecida, cujo corpo, por décadas, fora guardado pela serra em um silêncio ensurdecedor.

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