O Colecionador de Ossos

Capítulo 7 — O Fantasma do Passado

por Thiago Barbosa

Capítulo 7 — O Fantasma do Passado

O apartamento de Davi Lemos era uma réplica em miniatura de um museu esquecido. O ar era denso, impregnado com o cheiro de poeira e de um leve aroma de formol, um cheiro que Ricardo reconheceu instantaneamente de seus anos de formação na academia de polícia. As paredes eram forradas de prateleiras repletas de crânios de animais, ossos longos e fragmentos ósseos de origem indeterminada. Em um canto, um esqueleto humano completo, delicadamente montado, parecia observar a cena com suas órbitas vazias.

Ricardo e Clara entraram com cautela, as pistolas em punho. O local era um santuário profano, um testemunho de uma obsessão que beirava a loucura. Davi Lemos não estava lá, mas a sua presença era palpável, pairando no ar como um fantasma.

"Meu Deus", sussurrou Clara, seus olhos percorrendo a coleção macabra. "Ele realmente fez isso."

Ricardo aproximou-se de uma mesa de trabalho improvisada, onde diversos instrumentos cirúrgicos estavam dispostos com uma precisão assustadora: bisturis, pinças finas, serrotes. Ao lado, um crânio humano em diferentes estágios de limpeza repousava sobre um pano.

"Ele é um artista, Clara. Um artista da morte", disse Ricardo, a voz rouca. "Olhe isso." Ele apontou para um pequeno caderno aberto sobre a mesa. As páginas estavam repletas de desenhos detalhados de ossos, anotações sobre técnicas de preservação e, mais perturbador, esboços das vítimas, com as partes ósseas marcadas com um 'X' vermelho.

"As vítimas", murmurou Clara, a palidez tomando conta de seu rosto. "Ele as estudava antes de atacá-las."

Ricardo virou algumas páginas. "E aqui... ele descreve seus métodos. A remoção cuidadosa, a limpeza com soluções químicas específicas, a exposição. Ele se considera um preservador, um restaurador." Ele leu em voz alta, com um tom de incredulidade: " 'Cada osso carrega uma história. Eu apenas a libero de seu invólucro de carne e decadência. Eu dou a eles uma nova vida, uma eternidade de observação.' "

"Isso é doentio", disse Clara, o estômago revirando. "Ele se vê como um deus, decidindo quem merece a eternidade e como."

Ricardo pegou um pequeno frasco de vidro, que continha um osso da falange, cuidadosamente limpo e etiquetado: "Sofia Mendes - Falange distal, D2".

"Ele coleciona não apenas os ossos, mas a própria memória da pessoa. Ele a reduz a um fragmento, a um troféu", disse Ricardo. Ele sentiu uma onda de raiva percorrer seu corpo. A brutalidade desses crimes, a frieza calculista, tudo isso o consumia.

"Precisamos encontrar o Davi", disse Clara, recuperando a compostura. "Ele pode ter pistas sobre as próximas vítimas, ou sobre o motivo dele realmente ter feito tudo isso."

Ricardo assentiu. "Os arquivos da universidade mencionavam que Davi tinha um amor especial por artefatos antigos, por objetos que contavam histórias do passado. Talvez ele esteja replicando um ritual, ou buscando algo em particular." Ele olhou ao redor do apartamento, os olhos fixos em um grande baú de madeira escura, entalhado com símbolos antigos.

"O que você acha que está lá dentro?", perguntou Clara.

"Só há uma maneira de descobrir", respondeu Ricardo.

Com um esforço conjunto, eles abriram o baú. Dentro, aninhados em veludo escuro, repousavam objetos que pareciam ter saído de um sonho febril: um punhal antigo com uma lâmina de obsidiana, um amuleto de osso com inscrições indecifráveis, e um pequeno livro encadernado em couro envelhecido.

Ricardo pegou o livro. As páginas estavam cheias de uma escrita esotérica, misturada com desenhos de esqueletos e símbolos que Ricardo não reconhecia. Ele passou os dedos sobre as páginas, sentindo a textura do papel antigo. De repente, um pequeno pedaço de papel dobrado caiu de dentro do livro. Era uma fotografia desbotada, mostrando um jovem Davi Lemos, sorrindo ao lado do Professor Drummond, ambos em frente a uma escavação arqueológica.

"Davi e Drummond", disse Ricardo, o tom de voz carregado de surpresa. "Eles se conheciam há muito tempo. E pareciam... amigos."

"O que aconteceu para que essa relação se deteriorasse a ponto de Davi querer se vingar dele?", questionou Clara. "O artigo que Drummond publicou sobre a pesquisa de Davi. Talvez tenha sido mais do que apenas roubo intelectual."

Ricardo voltou ao caderno de Davi. Ele folheou as páginas, procurando por menções ao Professor Drummond. Finalmente, ele encontrou. A letra de Davi, antes elegante e precisa, agora era frenética, rabiscada com raiva.

" 'Ele me traiu. Ele roubou minha alma, minha vida. Ele me tirou a única coisa que eu tinha de valor: meu trabalho. E ele o fez rindo, debochando da minha paixão. Mas eu vou recuperar o que é meu. Eu vou expor a verdade que ele escondeu. E os ossos serão minhas testemunhas.' "

"Os ossos", repetiu Clara, a compreensão começando a clarear em seus olhos. "Ele não está apenas matando, ele está buscando algo. Talvez ele acredite que Drummond roubou dele não apenas a pesquisa, mas a própria essência de um achado importante. E ele está coletando os ossos das pessoas que, de alguma forma, representam essa perda."

Ricardo continuou lendo, a cada palavra um passo mais fundo no abismo da mente de Davi. Ele descrevia como Drummond havia suprimido a descoberta de Davi, uma evidência crucial que poderia reescrever parte da história daquela civilização antiga. Drummond, obcecado por sua própria fama, havia silenciado Davi, desacreditado sua pesquisa e publicado os resultados como se fossem seus.

"Ele se sentiu destruído", disse Ricardo, o tom de voz carregado de compaixão misturada com a repulsa. "Drummond destruiu a carreira e a reputação de Davi. E Davi, em sua dor e desespero, encontrou uma maneira macabra de 'recuperar' o que ele sentia que lhe foi tirado. Ele se tornou o colecionador."

O celular de Clara tocou, interrompendo o silêncio sombrio. Era um alerta de segurança de um museu arqueológico na periferia da cidade. Houve uma invasão, e os seguranças não conseguiram identificar o intruso.

"O museu", disse Clara, os olhos arregalados. "Ele está indo para o museu. É lá que está a pesquisa original de Drummond, a que ele roubou de Davi. É lá que ele acha que vai encontrar o que busca."

Ricardo pegou o punhal antigo do baú. A lâmina de obsidiana reluziu sob a luz fraca. "Ele não vai parar, Clara. Ele está obcecado. E se ele acha que pode reescrever a história com os ossos, ele vai tentar."

Eles saíram do apartamento de Davi, deixando para trás o santuário de ossos e os ecos de uma vingança sombria. A noite ainda era longa, e a caçada pelo Colecionador de Ossos estava apenas começando. O fantasma do passado de Davi havia se materializado em uma forma terrivelmente real, e Ricardo e Clara sabiam que teriam que enfrentar o pior de sua loucura para detê-lo.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%