A Última Confissão de Clara
Capítulo 13 — A Travessia Perigosa e a Confiança Quebrada
por Felipe Nascimento
Capítulo 13 — A Travessia Perigosa e a Confiança Quebrada
A noite na serra era implacável. O vento cortante uivava entre as rochas, e a escuridão parecia um véu espesso, disfarçando os perigos que se escondiam a cada passo. Clara e Elias caminhavam com cautela por uma trilha tortuosa, o corpo dolorido das agressões sofridas e do esforço da fuga. Os ferimentos de Elias eram mais visíveis, um corte profundo na testa que sangrava intermitentemente, e arranhões profundos nos braços, mas sua determinação era o que mantinha Clara em movimento.
“Precisamos seguir em frente, Clara”, disse Elias, a voz tensa, olhando para trás a cada poucos passos. “Eles sabem que escapamos daquele lado da montanha. Se o Delegado Silva for esperto, vai enviar homens para cercar as trilhas principais.”
Clara assentiu, a mente turbulenta. A imagem do Delegado Silva, a crueldade em seus olhos, a forma como ele parecia saborear o medo dela, não saía de sua cabeça. “Ele não vai desistir. Ele não pode deixar que eu chegue à capital com essas provas.”
“Eu sei. Por isso precisamos usar os caminhos que só eu conheço. Onde o sol da manhã não penetra, e onde poucos se arriscam a ir.” Elias a guiou por um caminho ainda mais estreito, uma fenda na rocha que parecia levar ao nada. A descida era íngreme, e eles precisavam se segurar nas rochas úmidas para não cair.
Enquanto desciam, Elias tirou de dentro de sua jaqueta um pequeno embrulho. Clara reconheceu os papéis que haviam recuperado do cofre. “Você os trouxe. Pensei que eles poderiam ter ficado para trás na correria.”
“Nunca os deixaria, Clara. São a sua vida. E a minha chance de consertar algumas coisas.” Ele olhou para ela, a luz fraca das estrelas refletindo em seus olhos. “Amanhã, quando o sol nascer, estaremos perto de um pequeno vilarejo de pescadores. Conheço alguém lá. Um velho amigo. Ele terá um barco e nos levará para o porto mais próximo, de onde você poderá pegar um ônibus para a capital.”
“E você?”, perguntou Clara, a angústia começando a tomar conta. A ideia de se separar dele era dolorosa.
“Eu preciso voltar. Tenho algumas pontas soltas para resolver. E… preciso ter certeza de que o Delegado Silva e o juiz não terão como se safar. Mas não se preocupe comigo. Eu sou mais difícil de pegar do que eles pensam.” Ele sorriu, um sorriso cansado, mas genuíno, que aqueceu o coração de Clara.
A descida foi longa e exaustiva. As mãos de Clara estavam em carne viva, seus músculos protestavam a cada movimento. Mas a perspectiva de segurança, a possibilidade de finalmente expor a verdade, a impulsionava. Elias estava sempre ao seu lado, oferecendo palavras de encorajamento, ajudando-a a superar os obstáculos mais difíceis.
Ao amanhecer, a paisagem mudou. A serra abrupta deu lugar a uma vegetação mais densa, e, ao longe, Clara avistou o brilho do mar. O cheiro salgado invadiu o ar, trazendo consigo uma sensação de esperança. Logo, eles avistaram as primeiras casas de um pequeno vilarejo de pescadores, barcos coloridos balançando suavemente nas águas calmas.
Encontraram o amigo de Elias, um homem chamado Joaquim, com o rosto marcado pelo sol e pelos ventos do mar. Joaquim recebeu Elias com um abraço caloroso e olhou para Clara com uma mistura de curiosidade e preocupação.
“Elias, meu amigo! O que aconteceu? Você parece ter lutado com um urso!” Joaquim, um homem de fala mansa e olhar sagaz, examinou os ferimentos de Elias.
“Foi uma luta, Joaquim. Mas não foi um urso. Foram homens de lei.” Elias explicou a situação de forma concisa, sem entrar em todos os detalhes. Joaquim, confiável e discreto, concordou em ajudar.
Joaquim preparou um pequeno barco de pesca, carregando suprimentos básicos para a viagem. Clara sentiu um nó na garganta ao se despedir de Elias. Seus olhares se encontraram, e, naquele momento, palavras não eram necessárias. Era um adeus carregado de sentimentos não ditos, de promessas silenciosas.
“Tome cuidado, Clara”, disse Elias, segurando suas mãos. “E não confie em ninguém. Chegando à capital, procure o jornalista investigativo. Ele saberá o que fazer.”
“E você, Elias?”, perguntou Clara, a voz embargada.
“Eu vou resolver minhas coisas. E estarei pensando em você.” Ele a beijou suavemente nos lábios, um beijo que prometia reencontro. “Vá agora. O sol está alto e o mar está calmo.”
Clara entrou no barco de Joaquim, os papéis importantes guardados em uma bolsa impermeável. Ela observou Elias observá-la, sua figura forte e solitária se tornando menor à medida que o barco se afastava da costa. A sensação de incerteza era avassaladora, mas a determinação de Clara era inabalável.
A viagem de barco foi tranquila. O mar, inicialmente calmo, começou a apresentar algumas ondas mais fortes conforme se afastavam da costa. Joaquim era um marinheiro experiente, e manobrava o barco com habilidade. Clara sentia o balanço do mar, e, de vez em quando, o estômago embrulhava.
Enquanto o barco navegava, Clara abriu a bolsa e pegou o diário de seu avô. A leitura das confissões o deixava cada vez mais perturbada. As palavras dele revelavam uma crueldade calculada, um egoísmo que a fazia questionar tudo o que ela pensava saber sobre sua família.
“Ele era um homem perigoso”, disse Joaquim, percebendo a expressão de Clara. “Às vezes, as pessoas mais próximas são as que mais escondem segredos sombrios.”
Clara assentiu, sem conseguir desviar o olhar das palavras escritas.
Conforme se aproximavam do porto, o céu começou a escurecer, e uma névoa densa surgiu, reduzindo a visibilidade. O mar, antes convidativo, agora parecia ameaçador. Joaquim franziu a testa, a preocupação em seu olhar.
“Essa névoa não estava prevista. Pode atrapalhar a nossa chegada”, disse ele.
De repente, um barco maior, com luzes fortes, surgiu da névoa, vindo em direção a eles em alta velocidade. Era um barco que não parecia ser de pesca. Parecia um barco de patrulha.
“O que é isso?”, perguntou Clara, o coração disparado.
Joaquim apertou os olhos. “Não sei. Não parece um barco da guarda costeira.”
O barco desconhecido se aproximou rapidamente, bloqueando o caminho deles. As luzes eram ofuscantes, e Clara não conseguia distinguir quem estava a bordo.
“Pare o motor!”, gritou uma voz através de um megafone, a voz distorcida e ameaçadora.
Joaquim obedeceu, o motor silenciando. Um silêncio tenso se instalou, quebrado apenas pelo barulho das ondas batendo no casco.
Então, Clara viu. No convés do barco desconhecido, em meio à névoa e às luzes, estava ele. O Delegado Silva. E ao seu lado, sorrindo friamente, estava o juiz.
O estômago de Clara revirou. Eles a haviam encontrado. Eles sabiam. Como? Como eles sabiam para onde ela estava indo?
Joaquim olhou para Clara, o rosto pálido. “Elias… ele não te contou tudo, não é?”
Clara o olhou, confusa e apavorada. “Contou o quê?”
“Ele… ele é um bom homem, mas também é um homem com um passado. E às vezes, o passado… ele volta para assombrar.” Joaquim hesitou, olhando para o barco do Delegado. “Ele me disse para te trazer até aqui. Mas ele também disse que… que vocês teriam que se separar mais uma vez. Que ele não podia vir com você até o porto. Que ele tinha ‘pendências’ para resolver.”
Um medo gelado percorreu Clara. Uma suspeita terrível começou a se formar em sua mente. Elias. Ele a amava. Ele a protegia. Mas… e se ele tivesse sido pressionado? E se eles tivessem algo sobre ele?
“O que você quer dizer?”, perguntou Clara, a voz trêmula.
“Elias… ele tem um passado complicado. E o Delegado Silva sabe disso. E o juiz também. Eles… eles têm algo contra ele. Algo que o força a… cooperar.” Joaquim baixou a voz, quase um sussurro. “Ele deve ter pensado que, te entregando aqui, você estaria mais segura. Que ele teria mais tempo para lidar com suas ‘pendências’ antes de vocês se encontrarem novamente.”
As palavras de Joaquim atingiram Clara como um golpe físico. Uma confiança que ela havia depositado cegamente, um amor que parecia inabalável, agora parecia… questionável. Elias havia dito que a amava. Elias havia lutado por ela. Mas por que ele a deixaria ali, entregue à mercê de seus inimigos?
“Não… não pode ser”, murmurou Clara, as lágrimas começando a rolar pelo seu rosto.
“Eu sinto muito, Clara”, disse Joaquim, a voz cheia de compaixão. “Mas Elias… ele não é apenas um fugitivo. Ele é alguém que está sendo caçado. E às vezes, as pessoas fazem coisas desesperadas para proteger quem amam.”
O barco do Delegado Silva se aproximou, os homens armados desembarcando. Clara sentiu o desespero tomar conta de si. Elias a havia traído? Ou apenas a protegeu da maneira mais cruel que pôde? A verdade sobre o amor de Elias, sobre suas reais intenções, permanecia envolta em névoa, tão obscura quanto o mar que a cercava.