O Beijo do Diabo
Capítulo 13 — O Canto da Sereia e a Emboscada Fatal
por Felipe Nascimento
Capítulo 13 — O Canto da Sereia e a Emboscada Fatal
O amanhecer em Copacabana pintava o céu com tons de laranja e rosa, um espetáculo de beleza que contrastava violentamente com a tempestade que se formava no interior de Mariana. A noite de revelações havia deixado marcas profundas, cicatrizes que, embora dolorosas, a libertavam de um passado construído sobre a mais cruel das mentiras. Osvaldo. O nome ecoava em sua mente como um veneno lento, a cada lembrança o dilacerando com uma nova pontada de horror. Mas, ao lado dele, Lucas ressurgia, um farol de esperança em meio à escuridão que a envolvia.
“Precisamos ser cautelosos, Mariana”, Rodrigo alertou, a voz baixa, mas com uma urgência que Mariana já aprendera a reconhecer. Ele estava sentado à mesa da cozinha do apartamento, um mapa do Rio de Janeiro espalhado à sua frente, seus dedos traçando rotas, estratégias. Lucas estava ao lado dela, a mão dele pousada sobre a dela, um gesto de apoio silencioso, mas poderoso. “Osvaldo é astuto. Ele não vai se entregar facilmente. Ele tem recursos, contatos. Ele tentará de tudo para nos impedir, para silenciar Lucas e te desacreditar.”
Mariana assentiu, sentindo o peso da responsabilidade sobre seus ombros. A ideia de justiça era sedutora, mas o caminho até ela parecia repleto de armadilhas. “Eu sei. Mas não podemos fugir. Não podemos mais viver com medo. Ele precisa pagar.”
Lucas apertou a mão dela. “E nós vamos garantir que ele pague. Eu tenho as provas que o ligam diretamente à sabotagem do avião e ao meu sequestro. E você, Mariana… sua palavra é a mais importante. Você é a vítima dele, a prova viva de sua crueldade.”
A manhã avançava, e com ela, a ansiedade. Rodrigo recebera informações sobre um encontro secreto que Osvaldo teria naquela tarde, um encontro que poderia selar o destino de ambos. Um encontro em um local isolado, um velho casarão abandonado na Floresta da Tijuca, um lugar conhecido por sua beleza sombria e pela dificuldade de acesso.
“Ele vai tentar fugir, Mariana”, Rodrigo disse, o olhar fixo em um ponto distante. “Ele tem planos de sair do país. Se não agirmos agora, ele escapará, e tudo isso terá sido em vão.”
O plano era audacioso, quase suicida. Rodrigo organizara uma operação discreta com alguns aliados de confiança, agentes que ele sabia que poderiam agir sem levantar suspeitas. O objetivo: emboscar Osvaldo no casarão e garantir que ele não escapasse. Mariana e Lucas estariam em um local seguro, aguardando o desfecho.
“Eu não posso ficar parada aqui”, Mariana insistiu, a voz firme. A ideia de não participar ativamente da queda do homem que a destruiu era insuportável.
“Você precisa ficar segura, Mariana”, Lucas disse, a preocupação em seus olhos. “Nossa força agora é a sua vida. Ele não pode te machucar. Não mais.”
Mas Mariana estava determinada. Ela havia passado anos em cativeiro emocional, manipulada, controlada. Agora, ela era livre. E ela não seria um mero espectador de sua própria libertação. “Eu vou com vocês. Eu preciso estar lá. Eu preciso vê-lo enfrentar a verdade, olhar nos olhos dele e dizer que ele falhou.”
Rodrigo hesitou, mas a determinação nos olhos de Mariana era inabalável. Ele sabia que argumentar seria inútil. “Tudo bem. Mas você ficará em um local seguro, sob a proteção de nossos homens. Você será a nossa carta na manga, a testemunha que ele jamais esperou encontrar.”
O trajeto até a Floresta da Tijuca foi tenso. O verde exuberante da mata parecia esconder segredos sombrios, e o ar úmido e pesado prenunciava uma tempestade iminente. Os carros de Rodrigo e de seus homens se moviam com discrição pelas estradas sinuosas, cada curva um novo prenúncio de perigo.
Chegaram ao casarão abandonado, uma estrutura imponente e decadente, cercada por vegetação densa. O silêncio ali era quase palpável, quebrado apenas pelo canto distante de pássaros e pelo farfalhar das folhas ao vento. Rodrigo dividiu sua equipe em posições estratégicas, com o objetivo de cercar o local.
Mariana foi levada para um ponto de observação seguro, escondida em meio à mata, com a visão clara do casarão. Ela sentia o coração disparado, uma mistura de medo e excitação pulsando em suas veias. Lucas estava com ela, a presença dele um conforto, um lembrete de que ela não estava sozinha.
“Ele está chegando”, Lucas sussurrou, apontando para um carro preto que avançava lentamente pela estrada de terra que levava ao casarão.
O carro parou, e dele desceu Osvaldo. Ele parecia mais velho, a pele marcada pela preocupação, mas a altivez de sempre ainda era evidente em sua postura. Ele estava acompanhado por dois homens musculosos, guarda-costas que pareciam prontos para qualquer eventualidade.
Rodrigo deu o sinal. Os homens de Rodrigo emergiram das sombras, cercando o casarão. Osvaldo, pego de surpresa, tentou reagir, mas foi rapidamente dominado. Os guarda-costas tentaram resistir, mas foram neutralizados com eficiência.
Mariana observava tudo, o peito apertado. Era real. O homem que a atormentara por tantos anos estava ali, encurralado.
“Agora, Mariana”, Rodrigo disse pelo comunicador, a voz tensa. “Quando eu der o sinal, você vem até aqui. Mas tenha cuidado.”
O sinal foi dado. Mariana, com Lucas ao seu lado, avançou em direção ao casarão. Ao entrarem, encontraram Osvaldo imobilizado, algemado a uma cadeira. Seus olhos, antes cheios de arrogância, agora transbordavam ódio e desespero.
“Você… você não pode fazer isso comigo!”, Osvaldo vociferou, a voz rouca. Ele olhou para Lucas com um misto de fúria e surpresa. “Você… você sobreviveu?”
Lucas deu um passo à frente, o olhar fixo no tio. “Eu sempre sobrevivo, tio. E a verdade sempre encontra um caminho.”
Mariana se aproximou de Osvaldo, a voz fria, firme. “Você destruiu minha vida, Osvaldo. Você roubou meus pais, roubou meu amor, roubou minha paz. Tudo por ganância. Por poder.”
Osvaldo riu, um som seco e sem humor. “Vocês dois são patéticos. Acreditam que podem me deter? Eu sou Osvaldo Soares. Ninguém mexe comigo impunemente.”
De repente, a porta principal do casarão se abriu com estrondo. Outro carro preto adentrou o pátio, e dele desceu um homem que Mariana não esperava ver ali. Um homem com quem ela tivera breves encontros no passado, um homem que parecia estar do lado de Osvaldo.
“O que é isso, Osvaldo?”, o homem perguntou, o olhar fixo em Mariana e Lucas. “Pensei que o plano era apenas silenciar o garoto.”
Osvaldo, ao ver o novo recém-chegado, um sorriso irônico se espalhou por seu rosto. “Parece que a festa ficou mais interessante, não é mesmo, Doutor Almeida?”
Mariana sentiu um arrepio na espinha. Doutor Almeida. O médico que cuidara dela após o acidente, que sempre a tratara com tanta gentileza. Ele também estava envolvido? A rede de mentiras parecia não ter fim.
Rodrigo, que estava do lado de fora, percebeu a movimentação e entrou rapidamente no casarão. Seus homens o seguiram. A emboscada planejada para capturar Osvaldo se transformou em algo muito maior, uma rede complexa de corrupção e traição.
“Almeida!”, Rodrigo exclamou, reconhecendo o médico. “Eu sabia que você estava envolvido com Osvaldo. Mas não imaginei que fosse tão longe.”
Almeida riu. “Você é muito ingênuo, detetive. O poder corrompe. E eu apenas… me deixei levar pela correnteza.”
A situação se tornou perigosa. Osvaldo e Almeida, mesmo desarmados, ainda representavam uma ameaça. E o fato de Almeida estar ali, junto com Osvaldo, indicava que a operação de Rodrigo havia sido descoberta, ou pior, que havia uma traição dentro de sua própria equipe.
“Eles têm um plano B”, Rodrigo sussurrou para Lucas. “Precisamos sair daqui agora. Mariana, você precisa ir com a gente.”
Mas Mariana estava paralisada. O choque de ver Almeida ali, cúmplice de Osvaldo, a deixou atordoada. Ela olhou para Osvaldo, para Almeida, e sentiu uma onda de fúria e determinação tomar conta de si.
“Não”, ela disse, a voz ecoando no silêncio tenso. “Eu não vou fugir. Eu vou enfrentar eles. Eu vou acabar com isso agora.”
Antes que Rodrigo pudesse impedi-la, Mariana deu um passo à frente, em direção a Osvaldo e Almeida. A beleza sombria da floresta parecia envolvê-los, um canto de sereia que a atraía para um abismo de perigo. O beijo do diabo, em sua forma mais insidiosa, estava prestes a cobrar seu preço, e a redenção amarga poderia se transformar em uma tragédia fatal. A armadilha perfeita, orquestrada por mentes perversas, se fechava sobre eles, e Mariana, em sua busca por justiça, estava prestes a caminhar direto para ela.