Cap. 17 / 25

O Beijo do Diabo

Capítulo 17 — O Eco do Silêncio e a Pista Oculta

por Felipe Nascimento

Capítulo 17 — O Eco do Silêncio e a Pista Oculta

O dia seguinte amanheceu em Vitória com um sol tímido, como se a própria natureza hesitasse em trazer à tona a verdade completa do que havia acontecido. A atmosfera na cidade ainda era carregada de um misto de alívio e apreensão. A notícia da morte de Eduardo se espalhara como fogo em palha seca, mas as nuances sombrias de sua atuação continuavam a gerar especulações e temor.

No pequeno e discreto escritório que Rafael havia alugado para trabalhar em sigilo, o silêncio era quase palpável, quebrado apenas pelo tilintar ocasional do teclado e pelo virar das páginas. Ao lado de Helena, Rafael folheava minuciosamente o caderno de Eduardo, um objeto que agora representava a derradeira esperança de desenterrar as verdadeiras intenções por trás da fachada do homem. Cada anotação, por mais críptica que fosse, era analisada com a precisão de um arqueólogo desenterrando um tesouro, ou um veneno.

Helena, sentada em frente a ele, com os olhos fixos nas palavras rabiscadas com a letra elegante e fria de Eduardo, sentia um misto de repulsa e uma estranha fascinação. Era como se estivesse mergulhando em um labirinto mental, tentando decifrar os pensamentos de um predador. As anotações eram uma colagem de datas, nomes, cifragem e fragmentos de conversas aparentemente inconsequentes. Havia referências a transações financeiras, encontros secretos e, o que mais a perturbava, planos de negócios que pareciam ter um duplo sentido.

"Aqui", disse Rafael, apontando para uma sequência de números e letras sob uma data específica. "Isso não me parece um código bancário comum. É mais... pessoal."

Helena se aproximou, o coração acelerando. "Eduardo era obcecado por códigos. Ele dizia que era para proteger seus negócios, mas sempre achei que era uma forma de se sentir no controle, de manter tudo em segredo." Ela franziu a testa. "Lembra-se daquela vez que ele me falou sobre 'o projeto Fênix'? Ele nunca explicou o que era, apenas que era algo que mudaria tudo."

Rafael anotou a observação. "Projeto Fênix. Talvez essa seja a chave. E essas outras datas... parecem estar ligadas a eventos importantes em sua vida, ou na vida de outras pessoas." Ele releu uma entrada específica: "23.07 - Encontro com 'A Dama'. Sucesso garantido. A obra está pronta."

"Quem é 'A Dama'?", Helena questionou, a voz tingida de apreensão. "Será que tem algo a ver com aquela mulher que eu vi com ele algumas vezes no restaurante? Aquela com o vestido vermelho."

"Não sei", admitiu Rafael. "Mas a forma como ele escreve, com essa frieza, essa confiança... ele não estava apenas lidando com negócios. Ele estava se divertindo com isso. Como um jogo." Ele virou mais algumas páginas. "Aqui, outra entrada: 'O fio da aranha se estica. A presa se aproxima da teia. Vitória em breve'."

Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "O fio da aranha... foi o nome do capítulo que você escreveu sobre ele, não foi? Aquele sobre a forma como ele manipulava as pessoas."

"Sim", confirmou Rafael, um lampejo de reconhecimento em seus olhos. "Ele estava se gabando. Ele sabia que estávamos investigando. Ele sabia que estávamos nos aproximando." Ele bateu com os dedos na mesa, pensativo. "Mas o que ele chama de 'a obra'? E o que é 'Vitória em breve'?"

De repente, Helena se lembrou de algo. Um detalhe que ela havia descartado como insignificante na época. "Eduardo tinha um cofre. Um cofre muito antigo, na casa da sua infância, em Campos. Ele dizia que era lá que guardava as coisas mais importantes. Mas quando eu perguntei sobre ele, ele desconversou, disse que estava desativado."

Rafael ergueu os olhos, a curiosidade aguçada. "Um cofre? Antigo? Onde exatamente em Campos?"

"Ele tem uma mansão antiga lá. Uma casa com um jardim imenso, cheio de estátuas e roseiras. Ele nunca gostou muito de ir para lá, mas sempre fez questão de manter tudo impecável. Eu estive lá uma vez, anos atrás, e me lembro de ter visto um cômodo que parecia uma biblioteca antiga. O cofre pode estar lá."

Um sorriso lento se formou nos lábios de Rafael. "Essa pode ser a nossa pista oculta, Helena. Se o cofre ainda existe e se ele o manteve funcional, pode ser que lá estejam as provas que precisamos. Documentos, talvez gravações, algo que revele a extensão do esquema dele."

"Mas como vamos chegar até lá?", Helena perguntou, a voz cheia de receio. "Se Eduardo tinha tantas conexões, a família dele também pode estar envolvida. Ou talvez ele tenha deixado alguém encarregado de vigiar aquele lugar."

"Precisamos ser discretos", Rafael respondeu, a determinação em sua voz crescendo. "Vamos investigar a procedência da mansão. Talvez haja um inventário, ou um advogado responsável pelos bens da família. Precisamos de uma forma legal de acessá-la, ou encontraremos uma maneira de entrar sem levantar suspeitas."

Ele olhou para o caderno novamente, agora com um novo propósito. "Essas datas, esses nomes codificados... eles podem ser a chave para entender o que está guardado naquele cofre. Talvez 'A Dama' seja alguém que ele usou para acessar informações, ou talvez seja alguém que está em perigo e que podemos ajudar."

Helena sentiu um misto de esperança e medo. A ideia de revisitar a cidade onde Eduardo cresceu trazia à tona memórias dolorosas, mas a possibilidade de encontrar respostas, de trazer à tona a verdade completa, era um motor poderoso.

"Eu me lembro de um nome que aparecia com frequência nos papéis dele", Helena disse, pensativa. "Um homem chamado Dr. Almeida. Ele parecia ser um conselheiro de confiança de Eduardo, mas eu nunca o conheci pessoalmente. Talvez ele saiba algo sobre o cofre."

Rafael anotou o nome. "Dr. Almeida. Vamos pesquisar sobre ele. E sobre a mansão. Se Eduardo estava tão preocupado em manter algo escondido lá, deve ser algo de grande valor. E isso pode ser a nossa salvação."

O eco do silêncio no escritório se tornou um eco de determinação. A pista oculta estava ali, escondida nas entrelinhas de um caderno perturbador. A jornada para Campos seria arriscada, mas a esperança de desvendar o último mistério de Eduardo, e de trazer à luz a verdade para todos aqueles que ele prejudicou, impulsionava Helena e Rafael a seguir em frente, determinados a não deixar que o silêncio do passado continuasse a ecoar impune.

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