Cap. 2 / 25

O Beijo do Diabo

Capítulo 2 — As Sombras do Passado e o Cheiro do Sangue

por Felipe Nascimento

Capítulo 2 — As Sombras do Passado e o Cheiro do Sangue

O salão da mansão Montenegro, antes palco de uma comemoração forçada, agora se tornara um campo de batalha silencioso. O escândalo da chegada de Isabella, a amante descarada de Ricardo, pairava no ar como um perfume fúnebre. Helena, com sua beleza fria e impassível, observava o furor silencioso dos convidados, as fofocas sussurradas em cantos escuros, os olhares de pena e, em alguns casos, de satisfação. Ela não se sentia humilhada, mas sim, estranhamente, revigorada. A raiva, antes um vulcão adormecido, agora expelira a primeira nuvem de fumaça.

Ricardo, exibindo sua conquista como um troféu, ria descompassadamente, alheio à tempestade que se formava nos olhos de sua esposa. Para ele, Helena era uma peça de museu, uma relíquia de tempos passados que ele já não valorizava. Isabella, por outro lado, era a novidade, o brilho efêmero que o fazia sentir-se vivo. Uma ilusão perigosa, Helena pensou, enquanto desviava o olhar da cena ridícula.

Sofia, a filha mais nova de Ricardo, a sua eterna rebelde, aproximou-se de Helena, um brilho perigoso em seus olhos. “Impressionante, madrasta. Nunca pensei que você fosse capaz de tanta… paciência.” Sua voz era um sussurro carregado de deboche.

Helena lançou um olhar frio para Sofia. “Paciência, querida, é uma virtude que se cultiva quando se tem algo a perder. Ou quando se tem um plano.”

Sofia riu, um som seco e sem humor. “Plano? O seu plano é aguentar esse velho decrepito e sua galinha de circo? Que patético.”

“O meu plano, Sofia”, Helena continuou, a voz ainda baixa, mas com uma intensidade que fez Sofia recuar um passo, “é garantir que todos que me ofenderam, inclusive você, se arrependam do dia em que cruzaram o meu caminho.”

O brilho nos olhos de Sofia vacilou por um instante, substituído por um medo genuíno. Ela nunca havia sentido essa frieza em Helena antes. Era algo novo, perigoso.

Enquanto isso, Daniel, o herdeiro aparente, observava a cena de longe. Seus olhos escuros e penetrantes, que sempre carregavam um ar de superioridade, agora estavam fixos em Helena. Ele sabia que algo estava diferente. A compostura de Helena não era a sua habitual resignação, mas sim a calma tensa de quem planeja um ataque. Ele sentiu um pressentimento, um receio que o fez se aproximar cautelosamente.

“Helena”, Daniel disse, a voz soando mais suave do que o normal, um tom calculista escondido sob a cordialidade forçada. “Uma noite desagradável, não é mesmo? Ricardo tem o dom de arruinar qualquer celebração.”

Helena virou-se para ele, um sorriso quase imperceptível nos lábios. “Daniel, querido. Sempre tão atento às necessidades da família. Mas você parece esquecer que o centro dessa família é o homem que nos deu tudo. Ou pelo menos, que nos deu a ilusão de ter tudo.”

Daniel sorriu, mas seus olhos não acompanhavam o movimento. “E você, Helena, sempre soube como se manter em sua posição. Uma esposa fiel, mesmo quando as aparências sugerem o contrário.” Ele deu uma piscadela sutil. “Sabe, eu sempre admirei sua… discrição.”

A palavra “discrição” soou como uma acusação velada. Daniel sabia do caso que Helena tivera, anos atrás, um lapso de paixão que poderia destruir sua reputação, seu casamento, tudo. Mas Helena, com sua astúcia, havia conseguido manter o segredo enterrado. Agora, Daniel insinuava que ele sabia.

“Eu sou discrição, Daniel”, Helena respondeu, seus olhos fixos nos dele. “E você, meu caro, parece ter muitos segredos a esconder. E eu, como você bem sabe, sou muito boa em desenterrá-los.”

A tensão entre eles era palpável. Um jogo de xadrez silencioso, onde cada movimento era calculado para a destruição do oponente.

De repente, um grito agudo rompeu o ar. Todos os olhares se voltaram para a piscina iluminada. Isabella, a nova amante de Ricardo, jazia inerte na água cristalina, o vestido branco manchado de vermelho. Um corpo pálido, uma imagem macabra contra o azul vibrante da água.

O pânico tomou conta do salão. Gritos, confusão, a atmosfera de sofisticação desmoronando em caos. Ricardo, em choque, correu para a piscina, sua arrogância evaporando em desespero.

Helena permaneceu parada, um calafrio percorrendo sua espinha. Não era um choque, mas uma constatação. O silêncio sinistro que ela sentira antes, agora se materializava em horror. Ela sabia que não fora um acidente. O ar estava denso com o cheiro do sangue e da vingança.

Dona Aurora, do seu canto, observava tudo com uma expressão indescritível. Seus olhos, antes opacos pela idade, agora brilhavam com uma inteligência sombria. Ela olhou para Helena, um leve aceno de cabeça quase imperceptível.

A polícia chegou em poucos minutos, a mansão transformando-se em um cenário de crime. As luzes brilhantes contrastavam com as sombras longas que se projetavam nas paredes. Detetives com expressões sérias interrogavam os convidados, mas Helena sabia que as perguntas eram fúteis. Ninguém ali falaria a verdade. Cada um guardava seus próprios segredos, seus próprios motivos.

Enquanto era interrogada, Helena observava Ricardo, o homem que ela amara e odiara, o homem que a havia traído tantas vezes, agora em prantos sobre o corpo de sua amante efêmera. Uma sensação estranha de alívio misturada com uma profunda melancolia a invadiu. A vingança, ela percebeu, não trazia a paz que ela imaginara. Trazer a morte para sua casa, mesmo que fosse a morte de uma rival, abria um abismo ainda maior em sua alma.

Mais tarde, quando a poeira baixou e os convidados foram liberados, Helena subiu para o seu quarto. A mansão estava silenciosa novamente, mas era um silêncio carregado de morte e suspeita. Ela parou diante do espelho, o reflexo de seu próprio rosto pálido e cansado a encarando de volta. A beleza fria ainda estava lá, mas agora havia algo mais, algo sombrio e perigoso nos seus olhos verdes.

Ela tocou a própria garganta, como se sentisse a marca do beijo do diabo. A morte de Isabella era um aviso. Ou, talvez, uma oportunidade. O passado, com seus segredos e suas mágoas, voltava a assombrá-la. E Helena sabia, com uma certeza gelada, que aquele era apenas o começo. A vingança estava apenas começando a se desenrolar. E o sangue, ela temia, ainda seria derramado.

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