Cap. 7 / 25

O Beijo do Diabo

Capítulo 7 — O Labirinto de Espelhos e a Sombra da Dúvida

por Felipe Nascimento

Capítulo 7 — O Labirinto de Espelhos e a Sombra da Dúvida

Os dias que se seguiram ao encontro com Dr. Armando foram um borrão de ansiedade e desconfiança para Helena. Cada sombra na mansão parecia esconder um segredo, cada ruído distante a fazia sobressaltar. A biblioteca, antes seu refúgio, tornara-se um palco de encenação, onde ela temia ser observada a cada passo.

Ela passava horas imersa no diário de Dona Aurora, tentando decifrar as entrelinhas, os lapsos de memória, as passagens codificadas. As palavras de sua mãe eram como cacos de um espelho quebrado, refletindo fragmentos de uma verdade perturbadora. Havia menções a encontros secretos em locais remotos, a entregas de pacotes misteriosos, a discussões acaloradas com um homem que ela chamava apenas de "o Guardião".

"Ele me prometeu proteção", lia Helena em uma das passagens, a caligrafia trêmula. "Mas o preço é alto. Muito alto. Se eles descobrirem sobre Miguel, se souberem que ele vive... tudo estará perdido."

Miguel? Helena sentiu o coração disparar. Sua mãe sabia que Miguel estava vivo? Ou se tratava de outro segredo, outra criança, outro fardo que Dona Aurora carregava em silêncio? A menção de "eles" era igualmente alarmante. Quem eram "eles"? E por que a vida de Miguel estaria em perigo?

Ela tentou confrontar Dr. Armando, mas o médico se tornara evasivo, respondendo a suas perguntas com respostas vagas e sorrisos forçados. Parecia que ele a via como uma jovem assustada, talvez frágil demais para lidar com a dura realidade. Essa condescendência a irritava profundamente.

"Doutor", ela disse em uma tarde, enquanto ele a visitava para verificar seu estado de saúde, "a senhora Vasconcelos mencionou em seu diário um 'Guardião'. O senhor sabe quem ele é?"

Dr. Armando hesitou por um instante, um leve franzir de testa cruzando seu semblante. "Sua mãe tinha muitas confidências, Helena. O diário dela é um labirinto de emoções e medos. Algumas coisas são melhor deixadas no passado."

"Mas Miguel pode estar em perigo!", Helena insistiu, a voz embargada de desespero. "E se minha mãe estava tentando protegê-lo? E se ele estiver vivo e escondido?"

O olhar de Dr. Armando suavizou-se, mas não o suficiente para inspirar confiança. "Helena, a morte de Miguel foi um golpe devastador para todos. Sua mãe nunca se recuperou completamente. Acredito que essas anotações sejam apenas reflexos de sua dor e angústia." Ele pegou a mão dela, um gesto que, em outra circunstância, seria reconfortante. Agora, parecia manipulador. "Você precisa se cuidar. Buscar a paz, não alimentar fantasmas."

A frieza daquele toque, a recusa em admitir a possibilidade de Miguel estar vivo, confirmou as suspeitas de Helena. Dr. Armando sabia de algo, e estava escondendo. Talvez ele fosse um dos "eles" que sua mãe temia.

Em meio à sua investigação pessoal, Helena descobriu outro detalhe intrigante no diário: uma série de datas e horários que pareciam indicar encontros secretos. Um deles, em particular, chamou sua atenção: uma data próxima à data do "acidente" de Miguel, com um local específico: uma antiga capela abandonada nos arredores de Vila Velha.

Movida por uma mistura de esperança e apreensão, Helena decidiu ir até lá. Ela sabia que era arriscado, mas a possibilidade de encontrar uma pista, qualquer pista, a impulsionava.

Naquela noite, sob um céu nublado que prometia chuva, Helena dirigiu seu carro pela estrada sinuosa que levava à capela. O lugar era desolado, cercado por uma vegetação densa e selvagem. A estrutura de pedra antiga parecia um esqueleto abandonado, suas janelas quebradas como olhos vazios.

Ao se aproximar, Helena sentiu uma energia estranha emanando do local, uma mistura de melancolia e mistério. Ela estacionou o carro a uma distância segura e se dirigiu a pé até a entrada da capela. A porta de madeira maciça estava entreaberta, rangendo com o vento que uivava lá fora.

Com o coração acelerado, Helena entrou. O interior era escuro e úmido, o cheiro de mofo e poeira pairava no ar. A luz fraca que entrava pelas frestas das janelas revelava bancos em ruínas, um altar coberto de teias de aranha e um silêncio sepulcral.

Ela tateou pelas paredes em busca de algo, qualquer coisa que pudesse ter sido deixada para trás. Foi então que, atrás do altar, ela avistou um pequeno compartimento escondido na pedra. Com esforço, ela conseguiu abri-lo.

Dentro, havia uma pequena caixa de metal enferrujada. Helena a pegou, suas mãos tremendo de expectativa. Ela a abriu com dificuldade.

O conteúdo a deixou perplexa. Não eram cartas ou documentos, mas uma pequena figura de madeira, esculpida com detalhes impressionantes. Era um anjo, com as asas ligeiramente danificadas, mas com uma expressão serena no rosto. Ao lado do anjo, havia uma pequena foto, desbotada pelo tempo. Nela, uma mulher jovem, parecida com sua mãe, mas com um olhar mais vibrante e inocente, segurava o mesmo anjo. Ao lado dela, um homem com feições fortes e um sorriso enigmático.

Helena franziu a testa. Quem era aquele homem? Ele não se parecia com seu pai.

De repente, um barulho vindo do lado de fora a fez pular de susto. Passos se aproximavam da capela. Helena rapidamente fechou a caixa e a escondeu em sua bolsa. Ela se escondeu atrás de um dos bancos arruinados, a respiração suspensa.

A porta da capela se abriu com um rangido alto. Uma figura entrou, iluminada pela fraca luz exterior. Era um homem. Ele parecia familiar, mas o capuz que usava tornava seu rosto difícil de discernir.

"Você veio", disse uma voz grave, que Helena não reconheceu. A voz parecia carregar um tom de resignação, mas também de cautela.

"Eu vim", respondeu outra voz, feminina, mas que Helena não conseguiu identificar. Era uma voz que ela não ouvira antes, uma voz que emanava uma força incomum.

Helena se esforçou para ver quem era. A figura masculina se moveu, e Helena pôde vislumbrar um lampejo do rosto dele. Era... era Dr. Armando.

Helena sentiu um choque percorrer seu corpo. Dr. Armando estava ali, encontrando-se com uma mulher misteriosa em um lugar isolado. E o que ele disse? "Você veio"? Ele estava esperando por ela?

O diálogo entre os dois continuou em sussurros, inaudíveis para Helena. Ela ficou ali, paralisada, enquanto a dúvida a consumia. Dr. Armando estava envolvido em algo mais profundo do que ela imaginava. Ele não era apenas um médico preocupado, mas alguém com segredos sombrios, talvez até perigosos.

O que aquela mulher misteriosa representava? Por que eles se encontravam em segredo naquela capela abandonada? E a caixa que Helena encontrara, o anjo de madeira, a foto... o que tudo aquilo significava?

A conversa terminou. Dr. Armando e a mulher saíram da capela, desaparecendo na escuridão. Helena esperou alguns minutos, o corpo tenso, o medo apertando seu peito. Quando teve certeza de que eles haviam partido, ela saiu de seu esconderijo.

O ar na capela parecia agora mais pesado, mais denso. Helena sentiu-se perdida em um labirinto de espelhos, onde cada reflexo revelava uma nova camada de mentiras e desconfiança. Dr. Armando, que ela acreditava ser um aliado, agora se tornava uma figura ambígua, uma sombra que se movia nas bordas de sua percepção.

Ela saiu da capela, o vento frio chicoteando seu rosto. A chuva começou a cair, grossas gotas que pareciam lavar a terra, mas não as mágoas e os segredos que ela carregava. A figura do anjo e a foto desbotada eram as únicas pistas tangíveis que ela tinha. Mas o encontro de Dr. Armando a perturbava profundamente. Ele estava com ela ou contra ela? A dúvida era um veneno lento, corroendo sua confiança e a deixando cada vez mais isolada em sua busca pela verdade. O beijo do diabo parecia ter deixado sua marca em todos, tecendo uma teia de enganos que a cada dia se tornava mais intrincada.

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