Segredos da Rua Augusta

Segredos da Rua Augusta

por Bruno Martins

Segredos da Rua Augusta

Autor: Bruno Martins

---

Capítulo 16 — O Eco do Passado na Aurora Cinzenta

O sol, preguiçoso e ainda envolto em névoa, tentava romper a cortina de poluição que abraçava São Paulo. Era uma aurora cinzenta, quase melancólica, que pintava os prédios altos em tons de chumbo e ferrugem. No pequeno apartamento no Bixiga, o cheiro forte de café recém-passado lutava contra o aroma persistente de incenso, um resquício da noite anterior, quando a angústia de Alice se manifestara em rituais antigos.

Alice observava a cidade se despertar pela janela embaçada. Seus olhos, outrora vibrantes como as cores de um pavão, agora carregavam o peso de segredos desenterrados. A noite fora longa, um torvelinho de pesadelos e fragmentos de memórias que se recusavam a ser silenciados. Thorne, o homem que a vida teimosamente insistia em colocar em seu caminho, ainda dormia no sofá, um emaranhado de braços e pernas que, apesar da desconfiança que o envolvia, lhe trazia uma estranha sensação de segurança.

Ela se aproximou dele, o coração apertado. Thorne era um enigma, um labirinto de informações desencontradas e atitudes contraditórias. Lembrava-se do seu olhar quando ela o confrontou com a carta de sua mãe, o choque genuíno, mas também a calculada evasiva. Havia algo nele que a puxava, uma força magnética que ignorava a lógica e apelava para um instinto ancestral. E agora, após semanas de fuga e investigação, a verdade parecia tão próxima quanto o toque da brisa fria da manhã em sua pele.

"Thorne", ela sussurrou, a voz rouca de sono e emoção. Ele se mexeu, um grunhido baixo escapando de seus lábios. O sono o deixava vulnerável, desprovido da armadura de sarcasmo e dissimulação que ele geralmente usava.

Ele abriu os olhos lentamente, piscando contra a pouca luz. "Que horas são? A gente virou morador permanente desse fiapo de cobertura?"

Alice sorriu, um sorriso amargo que não alcançou seus olhos. "O sol está nascendo, Thorne. E não, nós não vamos morar aqui para sempre. Precisamos ir."

Thorne se sentou, espreguiçando-se com uma flexibilidade que sempre a impressionava. A camiseta branca que usava parecia ter sido feita sob medida para seu corpo atlético, realçando os músculos que se tensionavam sob o tecido. Ele olhou para ela, a familiar intensidade em seu olhar, que parecia penetrar suas defesas.

"Ir aonde, Alice? Para o próximo esconderijo empoeirado? Você está esquecendo que estamos sendo caçados? Seus amigos da "Sociedade" não vão simplesmente esquecer de você."

"Não estou esquecendo de nada", Alice respondeu, sua voz ganhando firmeza. "Mas ficar parada aqui, esperando que eles nos encontrem, não é uma opção. A carta da minha mãe... ela me deu pistas. Pistas sobre o que aconteceu, sobre quem ela era. E sobre o motivo pelo qual eles querem o que ela sabia."

Thorne se levantou e caminhou até a janela. Seus ombros largos transmitiam uma aura de poder contido. "Você acha que uma carta de uma mulher que você mal conhecia é a chave para tudo isso? Alice, a "Sociedade" é uma organização antiga e poderosa. Eles não brincam em serviço."

"Ela era minha mãe!", Alice exclamou, a voz embargada pela emoção reprimida. "E ela me deixou essa carta porque confiava em mim. Ela sabia que eu seria capaz de desvendar isso. E eu vou. Por ela." Seus olhos encontraram os dele, um desafio silencioso.

Thorne se virou, um vinco de preocupação surgindo entre suas sobrancelhas. "E você acha que eu tenho alguma coisa a ver com isso, não é? Por que você insiste em me manter por perto, Alice? Se eu sou tão suspeito..."

"Porque", ela disse, dando um passo em direção a ele, "você é o único que tem me ajudado. O único que parece entender a gravidade da situação. E porque... porque a verdade sobre você é tão confusa quanto a verdade sobre mim. Há algo em você que não se encaixa na imagem que eles pintaram. E eu preciso saber."

Ele a observou por um longo momento, o silêncio pesado entre eles, quebrado apenas pelo barulho distante do trânsito. Parecia que ele estava pesando cada palavra, cada nuance de sua expressão. Finalmente, ele suspirou.

"Tudo bem, Alice. Aonde essa carta te leva?"

Alice pegou a carta de sua mãe, agora desbotada e marcada pelo tempo, de cima da mesa. "Ela fala de um lugar. Um refúgio. Um lugar onde as memórias são guardadas. Ela menciona uma flor. Uma flor que só desabrocha na escuridão."

Thorne franziu a testa. "Flores na escuridão? Isso é poesia ou um código?"

"Não sei. Mas ela também menciona um nome. 'Jardim de Sombras'. E um local... um local que ela descreve como 'o coração que pulsa sob o asfalto'."

Thorne ergueu uma sobrancelha. "O coração que pulsa sob o asfalto... Isso me soa como o metrô. O sistema de metrô de São Paulo é um dos maiores do mundo. Um labirinto subterrâneo."

Alice sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "Um jardim secreto... no metrô? Isso parece impossível."

"Nada é impossível para a "Sociedade", Alice. E talvez sua mãe soubesse disso. Talvez ela tenha criado um esconderijo lá. Um lugar seguro para o que quer que ela tenha descoberto." Thorne se aproximou dela, sua voz mais suave agora. "Mas se for no metrô, é um lugar com acesso controlado. E perigoso. Se a "Sociedade" estiver envolvida, eles terão olhos por toda parte."

"Precisamos tentar", Alice insistiu, a determinação brilhando em seus olhos. "Não podemos mais fugir. Precisamos enfrentar isso. Se minha mãe guardou algo importante, eu preciso encontrar. Por ela. E por nós."

Thorne a encarou, o brilho em seus olhos agora era diferente, uma mistura de preocupação e algo que ela não conseguia decifrar. Talvez admiração, talvez algo mais perigoso. "Você é teimosa como uma mula, Alice. Já percebeu isso?"

"E você é um enigma, Thorne. Talvez nosso destino esteja entrelaçado de uma forma que ainda não entendemos."

Ele soltou uma risada curta, seca. "Talvez. De qualquer forma, eu não vou te deixar ir sozinha. Seja lá o que for esse 'Jardim de Sombras', vamos encontrar juntos. Mas você precisa ser honesta comigo. Completamente honesta. Cada peça do quebra-cabeça."

Alice assentiu, sentindo o peso da promessa. A aurora cinzenta lá fora começava a ganhar tons de ouro, mas dentro dela, a tempestade de segredos e incertezas ainda rugia. A Rua Augusta, palco de tantos acontecimentos, parecia agora um eco distante de um passado que se recusava a ficar enterrado. O metrô, um monstro de concreto e aço, esperava por eles, um labirinto de sombras e, quem sabe, a chave para a verdade.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%