Segredos da Rua Augusta

Capítulo 2 — O Peso do Mistério em Mãos

por Bruno Martins

Capítulo 2 — O Peso do Mistério em Mãos

A sensação de estar encharcada não vinha apenas da chuva que ainda caía torrencialmente, mas de um frio que se instalara em sua alma. Marina apertou o pequeno embrulho contra o peito, como se pudesse protegê-lo de um perigo invisível que agora pairava sobre ela. O homem havia sumido, engolido pela escuridão úmida da Rua Augusta, deixando para trás um rastro de desespero e incertezas. A voz rouca, o rosto oculto, a fuga apressada – tudo aquilo gritava perigo.

"Segredos que matam", ele disse. A frase ecoou na mente de Marina, cada palavra um martelo batendo contra a sua sanidade. Felipe. O homem que ela amara com uma intensidade que a assustava, o artista com alma de poeta e olhos de quem viu demais. Ele sempre teve um lado sombrio, uma inquietação que o impulsionava para os limites, mas ela nunca imaginou que esse lado a traria para um lugar tão perigoso.

Com as mãos ainda trêmulas, Marina voltou para o carro. A segurança aparente do seu veículo parecia agora uma ilusão frágil diante da ameaça que ela sentia se aproximando. O couro do volante estava frio sob seus dedos. Ela ligou o motor, o som grave parecendo um alívio momentâneo. Para onde ir? Para casa, naquele apartamento moderno e impessoal que ela chamava de lar, onde os muros pareciam guardar silêncios ensurdecedores? Ou para o apartamento de Felipe, um caos organizado de telas, tintas e livros, um reflexo da sua alma imprevisível?

Decidiu ir para casa. O instinto de autopreservação, adormecido durante o tempo em que se entregou à paixão por Felipe, agora despertava com ferocidade. Ela precisava de um lugar seguro para pensar, para desvendar o que aquele homem misterioso lhe entregara. Dirigiu lentamente, o olhar fixo na estrada, mas a mente vagando pelo turbilhão de perguntas. Quem era aquele homem? Por que Felipe o enviou? E, o mais importante, o que era aquele "pacote"?

Chegando em seu condomínio seguro, onde a vigilância eletrônica e os porteiros uniformizados criavam uma barreira de falsa tranquilidade, Marina sentiu um leve alívio. Subiu para seu apartamento, o silêncio pesado do ambiente amplificando a batida acelerada do seu coração. Deixou a bolsa sobre a mesa de centro e, com cuidado, retirou o embrulho do bolso do casaco.

Era um pequeno objeto de couro envelhecido, um tipo de estojo, talvez. Não era pesado. Marina o abriu com hesitação. Dentro, sobre um forro de veludo desbotado, repousava um objeto que ela não reconheceu de imediato. Parecia um pendrive, mas com um design antigo, feito de metal escuro e com um símbolo gravado, algo que parecia uma serpente enrolada em um raio. Ao lado, havia um pequeno pedaço de papel dobrado.

Com os dedos ainda úmidos da chuva, Marina desdobrou o papel. A caligrafia era a de Felipe, inconfundível, mesmo que apressada e um pouco borrada pela umidade.

"Marina, meu amor.

Se você está lendo isso, significa que o pior aconteceu. Eu não tive escolha. Eles sabiam. Têm tudo. Preciso que você confie em mim, mesmo quando parecer impossível.

O que está no estojo não é um pendrive comum. Contém o que eles mais querem. Informações. Mas não é só isso. É a prova. A prova do que eles fizeram.

Não use, não abra, não mostre a ninguém. Leve para o Doutor Elias. Ele saberá o que fazer. Ele é o único que pode ajudar. Diga a ele que a coruja voou.

Sei que estou pedindo demais. Sei que você se machucou comigo. Mas, por favor, faça isso por mim. Por nós. Se houver um futuro, precisamos dele vivo.

Felipe."

As lágrimas começaram a escorrer, quentes e salgadas, misturando-se à umidade do seu rosto. "Elias. A coruja voou." As palavras eram um código, um passe para um mundo que ela desconhecia. Doutor Elias? Quem era ele? Um amigo? Um cúmplice? Marina sentiu a cabeça girar. A vida de Felipe estava entrelaçada com segredos que ela nunca imaginou. E agora, ela era a guardiã desses segredos.

Ela pegou o objeto de metal escuro, girando-o nas mãos. A serpente gravada parecia ganhar vida sob a luz artificial do seu apartamento. "Eles sabem. Têm tudo." Quem eram "eles"? A polícia? Um cartel? Organizações criminosas que operavam nas sombras da Rua Augusta? A ideia de Felipe envolvido em algo tão perigoso era quase surreal. Ele, que via beleza na ferrugem dos prédios antigos, que pintava o pôr do sol com cores que ninguém mais via.

Marina sentou-se no sofá, o estojo em seu colo. A chuva lá fora diminuíra, mas o temporal dentro dela apenas começava. Ela precisava agir, mas como? Confiar em um Doutor Elias que ela nunca ouvira falar? As palavras de Felipe ecoavam em sua mente: "Confie em mim, mesmo quando parecer impossível." E, apesar de toda a dor e desconfiança que ele lhe causara, ela ainda amava Felipe. Um amor que se recusava a morrer, mesmo diante da traição e do perigo.

Ela pegou o celular, as mãos ainda tremendo. Discou o número de sua melhor amiga, Sofia. Sofia era sua âncora, sua confidente, uma jornalista investigativa que conhecia os meandros da cidade como ninguém. Talvez ela pudesse ajudar.

"Marina? Que horas são? Está tudo bem?", a voz sonolenta de Sofia atendeu no terceiro toque.

"Sofia, eu… eu preciso da sua ajuda. É sobre o Felipe."

Houve um silêncio do outro lado da linha. "Felipe? O que tem ele, Marina? Pensei que vocês…", Sofia hesitou.

"Não importa agora, Sofia. Ele… ele desapareceu de novo. Mas antes, ele me enviou uma mensagem. Algo perigoso. E me pediu para procurar um tal de Doutor Elias. Você conhece alguém assim?"

Sofia ficou em silêncio por alguns instantes, e Marina pôde ouvir o som de páginas sendo viradas em sua casa. "Doutor Elias… O nome me soa familiar. Espere um segundo. Elias Vance? O neurologista aposentado que era conhecido por tratar casos… excêntricos?"

"Não sei, Sofia. Ele me disse para dizer 'a coruja voou'."

Outro silêncio, mais longo desta vez. Então, a voz de Sofia, agora alerta, preencheu a linha. "Marina, quem é esse Felipe? O que ele te mandou?"

Marina explicou tudo, a mensagem, o objeto, o homem misterioso na Augusta. Sofia ouvia atentamente, fazendo perguntas pontuais que mostravam sua perspicácia jornalística.

"Um pendrive com informações que 'eles' querem. E você precisa levá-lo para um médico aposentado. Parece roteiro de filme, Marina. Mas conhecendo você, sei que não é brincadeira." Sofia suspirou. "Doutor Elias Vance. Ele era um médico brilhante, mas um tanto quanto recluso depois que se aposentou. Temia pela segurança de seus pacientes e por si mesmo. Há rumores de que ele se envolveu em investigações… delicadas. E o apelido dele, nos círculos que eu frequento, era 'A Coruja'. Ele gostava de observar, de analisar, de ver o que mais ninguém via."

O coração de Marina acelerou. "A coruja voou… Sofia, ele é a pessoa certa. Mas como eu o encontro? Ele se cuida em casa?"

"Sim, ele mora em um casarão antigo nos Jardins. Um pouco isolado. Mas é perigoso, Marina. Se Felipe está envolvido com quem quer que seja, e se eles estão atrás desse 'pacote', você também estará na mira."

"Eu sei. Mas eu não posso deixar o Felipe sozinho nessa. Ele me pediu. E eu… eu ainda o amo." A confissão saiu em um sussurro doloroso.

"Eu sei, meu bem. Eu sei." Sofia mudou o tom. "Ok, vamos planejar isso. Você não vai sozinha. Vou com você. Precisamos ter certeza de que Elias Vance é quem pensamos ser e que ele está seguro. E se ele não for o Doutor Elias Vance, teremos que descobrir quem é."

Marina sentiu um fio de esperança se acender em meio à escuridão. Ter Sofia ao seu lado tornava a tarefa assustadora um pouco mais suportável. A noite ainda era longa, e os segredos da Rua Augusta pareciam apenas começar a se desdobrar.

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