A Vingança da Lua Negra
Capítulo 19 — A Fuga sob a Lua Negra
por Thiago Barbosa
Capítulo 19 — A Fuga sob a Lua Negra
O ar frio da noite chicoteava seus rostos enquanto Ana Clara e Clara corriam pelas ruelas escuras da cidade. A adrenalina pulsava em suas veias, impulsionando-as para longe do perigo iminente que as esperava no apartamento. O som de gritos e a batida metálica na porta ainda ressoavam em seus ouvidos, um eco cruel da invasão iminente.
“Eles… eles devem ter sabido que estávamos com os documentos”, ofegou Ana Clara, o peito arfando. O livro antigo, agora escondido em uma mochila, parecia queimar em suas costas.
Clara, com a perspicácia de uma jornalista experiente, tentava traçar uma rota de fuga. “Não importa como, o que importa é que eles sabem. E agora, eles vão vir atrás de nós com tudo. O Falcão não vai descansar até que tenha isso de volta.”
Elas se embrenharam em um beco estreito, a escuridão as envolvendo como um manto. O cheiro de lixo e umidade pairava no ar. Ana Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha, a sensação de estar sendo caçada era avassaladora. Ela se lembrou das palavras de Dr. Elias: “O Falcão é astuto e perigoso.”
“Para onde vamos?”, perguntou Ana Clara, a voz trêmula.
“Precisamos encontrar um lugar seguro. E rápido. Pensei em um amigo meu, que tem um galpão abandonado perto do porto. Ele não faz parte do nosso mundo, mas é de confiança. E é discreto”, Clara respondeu, a voz firme, apesar do medo.
Continuaram correndo, o som de passos pesados ecoando atrás delas. Eram vultos que se moviam com uma velocidade surpreendente, sombras que pareciam se multiplicar na escuridão. Ana Clara arriscou um olhar para trás e viu os contornos de homens corpulentos, com feições que se perdiam na penumbra.
“Eles estão perto!”, gritou.
Clara a puxou com mais força. “Não olhe para trás, Ana! Corra!”
Elas emergiram do beco em uma avenida mais movimentada, a luz dos postes oferecendo um breve alívio. Mas a sensação de segurança era efêmera. Ana Clara viu um carro preto, sem placa, que parecia segui-las com uma atenção peculiar. O coração acelerou ainda mais.
“Aquele carro… ele está nos seguindo”, Ana Clara sussurrou.
Clara assentiu, o olhar focado. “É um dos carros que usamos para monitorar as atividades do Falcão. Eles devem ter sido informados.”
A perseguição se tornou mais intensa. O carro preto acelerou, tentando interceptá-las. Ana Clara e Clara se jogaram em um túnel de pedestres, o eco de seus passos ressoando nas paredes frias. Do outro lado, o carro preto surgiu novamente, bloqueando a saída.
“Estamos encurraladas!”, Clara exclamou, o desespero começando a tomar conta.
De repente, um farol iluminou a escuridão. Um táxi antigo, de cor amarela desbotada, parou abruptamente ao lado delas. A porta se abriu, e um homem de meia-idade, com um sorriso enigmático no rosto, as chamou.
“Entrem, moças! Parece que vocês precisam de uma carona urgente.”
Ana Clara hesitou, mas Clara a puxou. “Confie em mim, Ana. É o Zé. Ele me deve um favor.”
Entraram no táxi, o cheiro de cigarro e café impregnado no interior. O motorista, Zé, deu a partida com agilidade, desviando do carro preto em uma manobra ousada.
“Parece que vocês se meteram em uma enrascada, hein, Clara?”, Zé disse, o olhar no retrovisor fixo nos perseguidores.
“Você não faz ideia, Zé”, respondeu Clara, ofegante. “Precisamos chegar ao galpão abandonado perto do porto. Rápido.”
Zé assentiu, e o táxi acelerou pelas ruas, serpenteando em meio ao tráfego noturno. O carro preto os seguia de perto, a cada instante parecendo mais próximo. Ana Clara apertava o livro contra o peito, como se pudesse protegê-lo com o próprio corpo.
“Eles são bons”, Zé comentou, com uma pitada de admiração na voz. “Mas eu conheço os atalhos dessa cidade como ninguém.”
A perseguição se estendeu por vários minutos, um jogo tenso de gato e rato. Em um momento, o carro preto tentou fechar o táxi, forçando Zé a fazer uma curva brusca que quase os fez capotar. Ana Clara sentiu seu estômago revirar, mas manteve a calma. Ela pensou em seu pai, em sua coragem, e em Dr. Elias, em sua sabedoria. Ela precisava ser forte.
Finalmente, Zé fez uma última manobra audaciosa, entrando em uma rua estreita e mal iluminada que levava à área portuária. O carro preto, grande demais para a passagem, ficou para trás, impedido de segui-los.
“Pegamos eles!”, Zé comemorou, um sorriso triunfante no rosto.
O galpão abandonado era uma estrutura imponente e desolada, com janelas quebradas e a pintura descascada. Zé estacionou o táxi em um local discreto, e as levou até uma porta lateral escondida.
“Aqui vocês estarão seguras por um tempo. O lugar é isolado e ninguém vem aqui. Mas não fiquem muito tempo. O Falcão tem olhos e ouvidos em todos os lugares.”
Ana Clara e Clara agradeceram a Zé com sinceridade. Ele acenou com a cabeça e partiu, desaparecendo na noite.
Dentro do galpão, o ar era frio e úmido. A luz fraca de algumas lâmpadas antigas criava sombras dançantes nas paredes de concreto. O espaço era vasto, cheio de maquinário enferrujado e pilhas de caixas empoeiradas.
“É… rústico”, disse Clara, um sorriso fraco no rosto.
“É seguro. Por enquanto”, respondeu Ana Clara, olhando ao redor. Ela sentiu um peso no peito, a adrenalina da fuga começando a diminuir, substituída pela exaustão.
Elas se sentaram em caixas velhas, o silêncio do local apenas quebrado pelo som distante das ondas batendo contra os cais. Ana Clara abriu a mochila e retirou o livro.
“Precisamos analisar esses documentos. Precisamos encontrar a melhor forma de expor o Falcão”, disse Ana Clara, a determinação voltando.
Clara concordou, pegando o pen drive. “Sim. Mas precisamos ser inteligentes. O Falcão é um adversário formidável. Ele tem recursos ilimitados e é cruel. Precisamos ter um plano sólido antes de agirmos.”
Enquanto Clara se conectava ao seu laptop, tentando obter um sinal de internet fraco, Ana Clara olhou pela janela quebrada. A Lua Negra, pálida e distante, pairava no céu escuro. Parecia observar a cena, um testemunho silencioso da luta que se desenrolava. Ela sentiu um arrepio, mas não de medo. Era um arrepio de propósito. A vingança de seu pai, a justiça que ele tanto almejava, estava em suas mãos. E ela não desistiria, não importava quão perigosa fosse a jornada sob a Lua Negra.