A Vingança da Lua Negra

Capítulo 2 — O Labirinto de Tinta e Sonhos na Lapa

por Thiago Barbosa

Capítulo 2 — O Labirinto de Tinta e Sonhos na Lapa

A Lapa, com sua arquitetura boêmia e seus arcos imponentes, era um contraste gritante com o luxo silencioso do apartamento em Leme. As ruas pulsavam com uma vida noturna que parecia ter vida própria, mesmo sob a luz pálida do meio-dia. O cheiro de cachaça, fumaça de cigarro e a melodia distante de um samba antigo pairavam no ar. Era um lugar de contrastes, de beleza decadente e de histórias sussurradas em cada esquina.

O endereço que Ricardo, o advogado, lhe passara a levou a uma rua estreita, ladeada por prédios antigos com fachadas descascadas e varandas de ferro forjado. O ateliê ficava no segundo andar de um deles, com uma porta de madeira pesada e uma pequena placa de latão, quase ilegível com o tempo: "Mateus Silva – Arte e Restauração".

O nome. Mateus Silva. O homem do retrato. Uma onda de adrenalina percorreu Isabella. Ela tocou a placa com a ponta dos dedos, sentindo a textura fria do metal. Aquele homem, a quem ela só conhecia por um desenho, estava ligado a Dona Clara e a um mistério que a envolvia como um véu.

Hesitou antes de bater. O que ela encontraria ali? Um artista excêntrico? Um fantasma do passado de sua família? A carta lacrada, o retrato... tudo parecia convergir para aquele local. Respirou fundo, tentando acalmar os batimentos descompassados de seu coração, e bateu.

Ninguém respondeu. Batendo novamente, com mais força. O som ecoou pelo corredor silencioso do prédio. Por um momento, pensou em desistir, em acreditar que o lugar estava abandonado. Mas então, um barulho de correntes e um trinco sendo destrancado vieram de dentro. A porta se abriu lentamente, revelando uma fresta de luz e um cheiro diferente: tinta a óleo, aguarrás e algo mais sutil, como madeira envelhecida.

Um homem apareceu na abertura. Era alto, com os ombros largos e uma postura que sugeria força e tranquilidade. Seu rosto... era o homem do retrato. Os cabelos escuros, as feições fortes, os olhos profundos e penetrantes. Ele a encarou com uma intensidade que a fez prender a respiração. Não havia surpresa em seu olhar, apenas uma espécie de reconhecimento silencioso, como se a esperasse.

"Você deve ser Isabella", disse ele, a voz rouca, mas melodiosa, exatamente como a do homem que a havia ligado. Era ele. Mateus.

"Sim. Sou eu", respondeu Isabella, lutando para manter a compostura. "Você é Mateus Silva?"

Ele sorriu, um sorriso discreto que iluminou seu rosto. "Eu sou. Dona Clara falava muito de você."

A menção de Dona Clara trouxe um misto de alívio e apreensão. "Ela... ela faleceu. Eu vim organizar as coisas dela."

Mateus baixou o olhar por um instante, uma sombra de tristeza cruzando seus olhos. "Eu sei. Fiquei sabendo. Lamento sua perda." Sua voz carregava uma sinceridade que desarma.

"O advogado, Ricardo, disse que você tinha... algo a ver com ela. E com este lugar."

"Eu tenho", ele confirmou, abrindo mais a porta. "Entre, por favor. Temos muito a conversar."

Isabella adentrou o ateliê. O espaço era amplo, iluminado por grandes janelas que davam para a rua. Telas de todos os tamanhos estavam espalhadas pelo ambiente, algumas em cavaletes, outras encostadas nas paredes. O cheiro de tinta era forte, mas não opressivo, misturado com o aroma de madeira e papel antigo. Havia uma sensação de ordem caótica, um lugar onde a criatividade florescia em meio a um mar de materiais artísticos.

Em um canto, havia uma bancada de trabalho cheia de ferramentas delicadas, pincéis de todos os tipos e tubos de tinta. Havia também um cavalete com uma tela em branco, esperando. Em outro, pilhas de livros antigos sobre arte, história e restauração.

Mateus fechou a porta, o som ecoando no espaço. Ele a observou atentamente enquanto ela absorvia o ambiente. Seus olhos, os mesmos do retrato, pareciam sondá-la, buscando algo em sua expressão.

"Dona Clara e eu... tínhamos uma relação antiga", começou Mateus, a voz calma e ponderada. "Uma relação de confiança. Ela me procurou anos atrás, quando eu ainda era um artista iniciante, com um projeto muito particular. Um projeto que envolvia arte, história e, digamos, um certo mistério."

"Que mistério?", Isabella perguntou, aproximando-se de uma tela que retratava uma paisagem noturna do Rio de Janeiro, cheia de cor e luz.

"Um mistério sobre a origem de algumas obras de arte. Obras que foram roubadas ou perdidas ao longo do tempo. Dona Clara tinha um interesse em recuperá-las, não pelo valor financeiro, mas pelo valor histórico e sentimental. Ela acreditava que algumas dessas obras continham segredos, informações que precisavam ser reveladas."

Isabella se lembrou das muitas caixas de documentos empoeirados no apartamento de Dona Clara. Poderiam essas obras estar escondidas ali? "E você? Você restaurava essas obras?"

"Eu as encontrava. E as restaurava. Dona Clara era uma colecionadora, mas também uma pesquisadora. Ela tinha uma rede de contatos, pessoas que a alertavam sobre possíveis achados. Eu era o braço direito dela nessa empreitada. E o motivo pelo qual ela me pediu para guardar aquele retrato e a carta... era porque ela sabia que um dia você precisaria saber."

"Por que eu?", Isabella questionou, sentindo uma pontada de confusão. "Eu não sabia nada sobre isso. Minha tia-avó era uma pessoa muito reservada."

Mateus se aproximou de uma estante repleta de livros antigos. "Dona Clara me contou sobre você. Sobre sua infância. Sobre o motivo pelo qual você se afastou tanto da família. Ela sentia um peso em seu coração por não ter podido protegê-la melhor."

As palavras dele atingiram Isabella como um soco no estômago. Ela se lembrou dos pesadelos, das sombras que a perseguiam, das vozes distorcidas que ecoavam em sua mente. A infância dela havia sido marcada por um evento traumático, um evento que a levou a buscar refúgio em outro continente, longe das memórias que a assombravam. Dona Clara, em sua reserva, parecia ter compreendido mais do que ela imaginava.

"Ela me disse que você era forte, Isabella. Mais forte do que pensava. E que você tinha uma conexão com o passado que eu precisava entender. Ela me deixou um pacote, para ser entregue a você quando chegasse a hora. Ele está aqui."

Mateus se dirigiu a uma pequena porta escondida atrás de uma cortina pesada. Abriu-a e retirou uma caixa de madeira escura, sem adornos. Entregou-a a Isabella. O peso da caixa em suas mãos era reconfortante e assustador ao mesmo tempo.

"Dona Clara acreditava que a chave para entender o seu passado, e talvez o meu, estava escondida em uma dessas obras. Ela a chamava de 'A Tela da Verdade'. E ela acreditava que apenas você poderia encontrá-la."

Isabella olhou para a caixa de madeira, sentindo o coração bater mais forte. "A Tela da Verdade? O que é isso?"

"É um quadro que desapareceu há muitos anos. Um quadro pintado por um artista desconhecido, mas que, segundo as lendas, continha um segredo capaz de mudar o curso da história. Dona Clara dedicou os últimos anos de sua vida a encontrá-lo. Ela acreditava que ele estava ligado ao seu passado de uma forma profunda."

Ela abriu a caixa. Dentro, havia uma pequena coleção de objetos: um broche antigo com um emblema que ela não reconheceu, algumas moedas estrangeiras antigas e um pequeno mapa desenhado à mão, com anotações em uma caligrafia elegante, mas desbotada. E, por baixo de tudo, um pequeno caderno de couro, semelhante ao que ela encontrara na escrivaninha de Dona Clara, mas com um cadeado minúsculo.

"Aquela é a chave do cofre do banco", disse Mateus, apontando para o broche. "E aquele mapa... é um mapa que Dona Clara usava para suas buscas. Ela acreditava que a Tela da Verdade estava escondida em algum lugar do Rio de Janeiro."

Isabella sentiu um frio percorrer sua espinha. O Rio de Janeiro, o Rio que ela voltou para deixar para trás, agora se revelava um palco para um drama que se estendia por décadas. A vingança da lua negra não era apenas uma metáfora; parecia estar se concretizando em cada sombra, em cada segredo desenterrado. E Mateus, com seus olhos que guardavam a sabedoria de eras, era a peça central naquele quebra-cabeça.

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