A Vingança da Lua Negra

Capítulo 4 — As Ruas Antigas e o Enigma da Tela

por Thiago Barbosa

Capítulo 4 — As Ruas Antigas e o Enigma da Tela

O beco era estreito e escuro, exalando o cheiro úmido de lixo e esgoto. As paredes de tijolos descascados pareciam se fechar sobre Isabella, amplificando a sensação de claustrofobia e pânico. Os sons da Lapa, antes uma melodia vibrante, agora eram distorcidos, ecoando como um presságio de perigo. Ela podia ouvir os gritos de Mateus e o som de vidro quebrando vindo do ateliê. Ele estava a cobrindo, ganhando tempo para que ela escapasse.

Com o coração batendo como um tambor em seu peito, Isabella correu. Correu sem rumo, contornando os prédios antigos, se misturando às poucas pessoas que ainda circulavam pelas ruas em busca de um último gole de bebida ou de um encontro furtivo. O mapa de Dona Clara, em sua bolsa, parecia pesar uma tonelada. Cada marcação, cada anotação em letra desbotada, era um enigma que ela precisava decifrar.

Chegou ao Largo da Lapa, sob os arcos imponentes que pareciam observá-la com um silêncio ancestral. A iluminação pública criava sombras longas e dançantes, transformando a paisagem familiar em um cenário de suspense. Sentiu-se exposta, vulnerável. Os homens de terno, com seus olhares frios, podiam estar em qualquer lugar.

Abriu o mapa, as mãos trêmulas. Havia vários pontos marcados em vermelho, mas um em particular chamou sua atenção: uma cruz desenhada sobre um antigo casarão em Santa Teresa, o bairro vizinho, conhecido por suas ladeiras íngremes e suas vistas deslumbrantes da cidade.

"Santa Teresa", ela murmurou para si mesma. Dona Clara parecia ter tido um plano, um roteiro de fuga ou de descoberta. Mas o que estaria naquele casarão?

Decidiu que Santa Teresa era seu destino. Pegou um táxi ali perto, dando as instruções ao motorista com a voz embargada pela tensão. Enquanto o carro subia as ladeiras sinuosas, Isabella abriu o diário de Mariana Vasconcelos. As palavras apaixonadas da jovem, escritas há mais de cem anos, a envolviam em uma história de amor e desespero. Mariana falava de um quadro que seu amado lhe dera, um quadro que retratava um segredo de família, um segredo que poderia arruiná-los. Ela o chamava de "O Reflexo da Alma".

Seria "O Reflexo da Alma" a mesma "Tela da Verdade" que Dona Clara buscava? E o amado de Mariana, seria ele o ancestral de Mateus, ou o próprio pai dele? As perguntas se multiplicavam, formando um labirinto em sua mente.

Ao chegar ao casarão indicado no mapa, a atmosfera era diferente. O casarão, embora antigo, parecia bem conservado. Uma aura de mistério e de história pairava no ar. As janelas altas e em arco, as sacadas de ferro ornamentadas, tudo sugeria um passado de opulência e segredos.

Desceu do táxi e se aproximou do portão de ferro forjado. Estava entreaberto. Respirou fundo e adentrou o jardim exuberante, onde flores exóticas e árvores centenárias criavam um refúgio de paz. Caminhou até a porta principal, uma porta maciça de madeira escura, e bateu.

Novamente, o silêncio. A hesitação a consumia. Talvez fosse uma armadilha. Mas a insistência de Dona Clara, a necessidade de descobrir a verdade sobre seu passado e sobre a ligação com Mateus, a impulsionava. Bateu com mais força.

Desta vez, um som veio de dentro. Passos lentos, como os de alguém idoso. A porta se abriu, revelando uma senhora de cabelos brancos, vestida com um elegante traje de casa. Seus olhos, embora um pouco cansados, eram perspicazes e gentis.

"Pois não?", perguntou a senhora, com um sorriso acolhedor.

"Boa tarde. Eu sou Isabella. Soube que este lugar... tem uma história interessante. E que talvez pudesse me ajudar a encontrar algo."

A senhora a observou por um momento, um brilho de compreensão em seus olhos. "Seja bem-vinda, Isabella. Eu sou Dona Cecília, a guardiã deste lugar. E sei que você veio pela herança de Dona Clara. Ela me avisou que você viria."

Isabella ficou surpresa. "Dona Clara sabia que eu viria aqui?"

"Sim. Ela acreditava que este casarão guardava pistas importantes. Pistas sobre a Tela da Verdade. E sobre o seu passado. Venha, entre."

Dona Cecília a conduziu para dentro. O interior do casarão era deslumbrante. Móveis antigos, obras de arte delicadas e um grande salão com um piano de cauda. A luz do sol entrava pelas janelas, iluminando os detalhes de um passado rico e preservado.

"Dona Clara era uma amiga de minha família", disse Dona Cecília, enquanto servia um chá em xícaras de porcelana fina. "Ela descobriu que este casarão pertenceu à família Vasconcelos, a mesma família que, segundo as histórias, possuía a Tela da Verdade."

Ela pegou um álbum de fotos antigo de uma estante. "Minha avó, Mariana Vasconcelos, era uma jovem apaixonada. Ela se apaixonou por um homem que sua família desaprovava. Um homem que, por acaso, era um artista talentoso."

Isabella sentiu um arrepio. A história se repetia. "E ela lhe deu um quadro?", Isabella perguntou, a voz trêmula.

"Sim. Um quadro que ela chamava de 'O Reflexo da Alma'. Ela acreditava que o quadro continha uma mensagem secreta, uma forma de se comunicar com o amado após a separação forçada. Mas sua família o confiscou, temendo que o segredo fosse revelado." Dona Cecília olhou para Isabella com ternura. "Dona Clara acreditava que este casarão era o último local onde a Tela da Verdade poderia estar escondida. E que você, Isabella, seria a única capaz de desvendá-la."

"Mas onde ela estaria?", Isabella questionou, olhando ao redor, sentindo que a resposta estava ali, em algum lugar, escondida nas paredes antigas.

Dona Cecília sorriu enigmaticamente. "Dona Clara deixou uma última pista. Uma pista que você precisa decifrar. Ela disse que a Tela da Verdade não é apenas um quadro, mas um reflexo de algo maior."

Isabella pegou o diário de Mariana Vasconcelos e o mapa de Dona Clara. Começou a reler as anotações, tentando encontrar um padrão, uma conexão entre as palavras de Mariana e os pontos marcados no mapa. De repente, uma frase no diário a fez parar: "O amor verdadeiro se reflete na luz da verdade, mesmo que a verdade esteja escondida na escuridão."

"A luz da verdade...", ela murmurou. Olhou para o mapa. Os pontos marcados no mapa não eram apenas locais aleatórios, mas pareciam formar um padrão geométrico. E o casarão onde estavam era o centro desse padrão.

"Dona Cecília", Isabella disse, com uma nova urgência. "Onde fica o ponto mais alto deste casarão? Onde se pode ter a melhor vista da cidade?"

Dona Cecília sorriu. "A torre do observatório. É um lugar que Dona Clara adorava visitar. Ela dizia que dali se podia ver o Rio em toda a sua glória. E talvez, em sua escuridão."

Juntas, subiram por uma escada em espiral, até chegar a uma pequena torre de observação no topo do casarão. A vista era espetacular. O Rio de Janeiro se estendia aos seus pés, um mar de luzes e sombras, com o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor como sentinelas.

Isabella pegou o mapa e o diário, e começou a comparar as marcações no mapa com a paisagem que se estendia à sua frente. De repente, uma ideia surgiu. E se a "luz da verdade" fosse a luz do sol, refletida em um determinado ponto? E se a "escuridão" fosse a sombra projetada?

Ela esperou. Esperou o sol atingir um certo ângulo. E então, um raio de luz atravessou uma das janelas da torre, projetando um feixe de luz sobre um ponto específico no mapa de Dona Clara. Um ponto que não era um local, mas uma constelação. As constelações.

"As estrelas!", ela exclamou. "Não são locais, são constelações! Dona Clara marcou as constelações que eram visíveis no céu na noite em que Mariana escreveu estas passagens!"

Ela pegou o diário e o comparou com as constelações no céu. Uma em particular chamou sua atenção: a Ursa Maior. E uma das anotações de Mariana falava de uma "luz que guia, mesmo na noite mais escura".

Dona Cecília observava Isabella com curiosidade e admiração. "Você tem a visão dela, Isabella. A visão para enxergar além do óbvio."

Enquanto Isabella se aprofundava nos segredos do céu noturno, um barulho repentino veio de baixo. Gritos. Carros parando bruscamente. A paz do casarão foi quebrada.

"Eles nos encontraram!", Dona Cecília disse, com a voz trêmula. "Eles sabem que você está aqui."

A vingança da lua negra, que começou com um sussurro do passado, agora rugia nas ruas do Rio, prestes a consumir tudo em seu caminho. Isabella estava no centro da tempestade, com a verdade a um passo de ser revelada, e o perigo mais perto do que nunca.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%