A Vingança da Lua Negra

Capítulo 7 — O Pátio das Sombras e os Fantasmas do Passado

por Thiago Barbosa

Capítulo 7 — O Pátio das Sombras e os Fantasmas do Passado

A Lapa, ao entardecer, pulsava em um ritmo diferente. A luz dourada do sol poente banhava os arcos históricos, as escadarias coloridas e os bares que começavam a acender suas luzes neon, prometendo noites de samba e boemia. Mas para Sofia, aquele cenário vibrante era apenas uma fachada para a melancolia e os segredos que o tempo insistia em guardar. A entrada do ateliê de seu avô era discreta, escondida em uma viela estreita e pouco iluminada, um portal para um mundo de sombras e poeira.

Rafael, com sua perspicácia habitual, observou a fachada desgastada, as janelas embaçadas. "Este lugar tem história", comentou, a voz baixa.

"Tem mais do que a história que ele contava", respondeu Sofia, a voz embargada pela emoção ao tocar a porta de madeira maciça. "Meu avô era um homem que guardava tudo para si."

A chave, enferrujada e antiga, rangeu na fechadura, abrindo um portal para o passado. O ar dentro do ateliê era denso, impregnado pelo cheiro de tinta a óleo, terebintina e poeira acumulada. A luz fraca que entrava pelas janelas revelava um caos organizado: telas empilhadas, pincéis secos em potes de vidro, tubos de tinta espremidos e cadernos de esboços espalhados. Era o santuário de um artista, mas também um refúgio de memórias não contadas.

"É... é como eu me lembrava", sussurrou Sofia, caminhando lentamente pelo espaço, cada passo levantando nuvens de poeira que dançavam nos poucos raios de sol.

Rafael, em silêncio, observava tudo com a atenção de um predador. Seus olhos vasculhavam cada canto, cada objeto, procurando por algo fora do lugar, uma pista, um detalhe que pudesse passar despercebido. Ele sabia que o ambiente de um artista, especialmente um recluso, podia ser um espelho de sua alma e de seus segredos.

"Onde a senhora a encontrou?", ele perguntou, indicando com a cabeça as inúmeras telas.

"Naquele cômodo ali", disse Sofia, apontando para uma porta mais discreta, no fundo do ateliê. "Era um depósito, cheio de coisas antigas. Eu estava procurando por um álbum de família e a encontrei virada para a parede, escondida atrás de outros quadros menores."

Juntos, entraram no pequeno cômodo. Era ainda mais escuro e empoeirado que o restante do ateliê. O cheiro de mofo era mais forte ali. E então, lá estava ela. A tela de "Aurora".

Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao vê-la novamente. As cores escuras, os tons de azul profundo e preto, os detalhes sombrios que pareciam ganhar vida na penumbra. Era uma obra que emanava uma aura de mistério e melancolia, diferente de tudo que ela conhecia do trabalho de seu avô, que costumava pintar paisagens vibrantes e retratos cheios de vida.

Rafael aproximou-se com cautela, seus olhos analisando a pintura. Ele não era um especialista em arte, mas possuía um senso aguçado para detalhes e incongruências. "É uma pintura incomum para um artista como o seu avô descreveu", ele observou. "As cores, o tema... parece carregar uma carga emocional muito forte."

"É o que me intriga", concordou Sofia. "Ele nunca pintou nada assim. Era como se... como se essa tela fosse de outra pessoa." Ela tocou a moldura antiga, sentindo a textura áspera da madeira. "E o nome, Aurora. E a mensagem com a lua negra... tudo se encaixa de uma forma perturbadora."

Rafael retirou luvas de látex de seu bolso e as calçou. Ele se aproximou da pintura, examinando a superfície com cuidado. "Precisamos examinar isso de perto. Pode haver algo escondido na própria tela, na assinatura, na técnica." Ele se abaixou, iluminando com uma pequena lanterna os cantos da obra.

Enquanto Rafael trabalhava, Sofia se aventurou pelo pequeno cômodo, movida por uma necessidade instintiva de encontrar algo que pudesse conectar os pontos. Ela abriu um baú antigo, encontrando cartas amareladas, algumas fotografias desbotadas e um diário com capa de couro. A curiosidade venceu a hesitação. Ela abriu o diário, as páginas frágeis e o cheiro de papel velho invadindo suas narinas.

"Detetive?", chamou ela, a voz um pouco trêmula.

Rafael levantou a cabeça, seus olhos focados na tela. "Sim?"

"Eu acho que encontrei o diário do meu avô. Ele fala sobre... sobre a Lapa, sobre pessoas que ele conhecia aqui. E ele menciona uma mulher chamada Aurora."

Rafael se virou lentamente, o interesse em seus olhos atiçado. "Aurora? Conte-me o que diz o diário."

Sofia começou a ler em voz alta, as palavras do avô ecoando no silêncio empoeirado do cômodo. As anotações eram fragmentadas, cheias de entrelinhas e referências cifradas, mas revelavam um relacionamento intenso e complicado com uma mulher misteriosa. Ele escrevia sobre noites de paixão, segredos compartilhados e um amor que parecia ter sido marcado por um evento trágico. Havia menções a um "pacto" e a uma "dívida que precisava ser paga".

"Ele escreveu aqui", disse Sofia, a voz falhando, "que Aurora era uma pintora talentosa, mas que sua arte era... sombria. Que ela criava mundos que ninguém mais via. E que ela desapareceu. Ele nunca disse como, ou por quê."

Rafael se aproximou de Sofia, olhando por cima de seu ombro as anotações do diário. "O nome Aurora, a pintura sombria, o desaparecimento... isso está se tornando uma teia muito complexa. E a lua negra na mensagem... é um símbolo que eu preciso investigar." Ele voltou seu olhar para a pintura. "Essa obra, Sofia, pode ser a chave. Não apenas uma pintura, mas um testemunho. Talvez Aurora a tenha pintado. Talvez seu avô a tenha guardado por um motivo."

De repente, um barulho do lado de fora do ateliê chamou a atenção de ambos. Um farfalhar de folhas, um passo furtivo. Rafael fez um gesto para Sofia se calar, seus sentidos em alerta máximo. Ele se moveu com agilidade silenciosa em direção à porta principal, a mão indo instintivamente para o coldre em sua cintura.

"Fique aqui e não faça barulho", sussurrou Rafael, seus olhos fixos na porta.

O som se aproximou, um arrastar sutil, como se alguém estivesse tentando forçar a fechadura. Sofia sentiu o coração disparar. O perigo que ela sentira na noite anterior parecia ter retornado, mais real e presente do que nunca.

Rafael estava posicionado atrás de uma pilastra, esperando. A porta rangeu e se abriu lentamente, revelando a silhueta de um homem encapuzado, que entrou com cautela no ateliê. A escuridão da rua se misturava às sombras do interior, dificultando a identificação.

"Quem está aí?", rosnou Rafael, sua voz firme e autoritária.

O intruso congelou, surpreso pela presença de Rafael. Por um instante, ele ficou imóvel, como um animal pego em uma armadilha. Então, com um movimento rápido, ele se virou e correu de volta para a rua. Rafael não hesitou. Saiu do ateliê em perseguição, mas o homem era ágil e desapareceu na escuridão da viela com uma velocidade surpreendente.

Sofia correu para a porta, o coração batendo descompassado. Ela viu Rafael parado na viela, olhando ao redor, a frustração estampada em seu rosto. Ele voltou para dentro do ateliê, a respiração um pouco acelerada.

"Ele escapou", disse Rafael, a voz tensa. "Mas ele viu você. Ele sabe que você está aqui, investigando."

Sofia sentiu um frio na espinha. A visita do intruso não era uma coincidência. Alguém não queria que ela descobrisse a verdade sobre Aurora, sobre a pintura, sobre os segredos de seu avô. O pátio das sombras, que antes parecia um lugar de reflexão, agora se transformara em um palco de perigo iminente. A vingança da lua negra estava apenas começando a mostrar suas garras.

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