O Silêncio dos Inocentes Perdidos
Capítulo 19 — O Limiar do Desconhecido e o Sacrifício Inesperado
por Thiago Barbosa
Capítulo 19 — O Limiar do Desconhecido e o Sacrifício Inesperado
O apartamento em Lisboa parecia ter sido engolido por uma aura de outro mundo. A luz azulada que emanava da caixa registradora pulsava em um ritmo hipnótico, transformando o ambiente familiar em um palco para o sobrenatural. O zumbido profundo e ressonante preenchia o ar, não era um som que se ouvia com os ouvidos, mas algo que se sentia nas entranhas, uma vibração ancestral que ecoava do próprio âmago do universo. Helena e Gabriel estavam imóveis, hipnotizados pela dança das luzes, a compreensão lenta e aterradora tomando conta deles.
“É… é real, Gabriel”, Helena sussurrou, a voz embargada pela admiração e pelo terror. A frase de sua avó, “A verdade reside onde o silêncio clama”, agora parecia uma profecia se cumprindo diante de seus olhos. O silêncio do espaço, o silêncio das estrelas alinhadas, havia aberto um portal.
Gabriel apertou a mão de Helena com força, sua presença um ancoradouro em meio à vertigem que se instalava. “Ela não estava louca. Sua avó. Ela sabia o que estava fazendo.”
A caixa registradora parecia vibrar com uma energia contida. As engrenagens internas, antes inertes, agora se moviam em um balé silencioso, impulsionadas por uma força invisível. O livro de metal, ainda posicionado sobre a caixa, brilhava com uma luz própria, um reflexo do portal que se abria.
De repente, o zumbido se intensificou, e a luz azulada começou a se condensar, formando um vórtice giratório no centro da caixa. Parecia um espelho distorcido, refletindo não o quarto, mas um turbilhão de cores e formas abstratas. Era um vislumbre do abismo, um vislumbre de um lugar além da compreensão humana.
“O portal…”, Helena murmurou, sentindo uma atração irresistível emanando dele. Era como um chamado, um sussurro que prometia desvendar todos os mistérios.
“Precisamos ter cuidado, Helena”, disse Gabriel, sua voz firme apesar da apreensão. Ele sentia a energia do portal, um poder bruto e indomável. “O que quer que esteja do outro lado… não sabemos o que é.”
As anotações em seus diários piscavam em sua mente. A Ordem Sombria. Eles queriam controlar isso. E agora que estava aberto, eles certamente sentiriam.
“Eles virão, Gabriel”, Helena disse, seu olhar fixo no vórtice cintilante. “Se sentirem essa energia… eles virão.”
Enquanto falava, um som diferente cortou o zumbido do portal. Um som de passos apressados no corredor do prédio. Sombras se projetaram sob a porta do apartamento. A Ordem Sombria havia chegado.
“Droga!”, Gabriel praguejou, puxando Helena para longe da caixa registradora. “Temos que fechar isso!”
Eles olharam para o livro de metal, tentando reverter o processo. Mas o livro parecia ter se fundido à caixa, a luz azulada agora emanando de ambos. Não havia como desligá-lo.
A porta do apartamento foi arrombada com violência. Vários homens encapuzados entraram, seus rostos ocultos na escuridão, mas seus olhos brilhando com uma determinação fria. Um deles, que parecia ser o líder, apontou para a caixa registradora.
“A chave. Entreguem-na”, disse o líder, sua voz grave e sem emoção.
Gabriel se colocou entre os homens e Helena. “Não vou deixar que vocês toquem nisso.”
“Tolos”, sibilou o líder. “Vocês não entendem o poder que estão brincando. Este portal deve ser controlado. E nós somos os únicos capazes de fazê-lo.”
A tensão no ar era insuportável. Helena sentiu o medo apertar seu peito, mas também uma nova força, uma resolução que vinha de dentro. Sua avó havia lutado para proteger isso. Ela não iria falhar.
“Minha avó nunca deixaria vocês terem isso”, disse Helena, sua voz surpreendentemente firme.
O líder riu, um som áspero e cruel. “Sua avó era uma tola. E agora vocês dois serão apenas vítimas de sua própria ingenuidade.”
Um dos homens avançou em direção à caixa registradora. Gabriel reagiu instantaneamente, agarrando um vaso pesado da mesa e o arremessando contra ele. O homem cambaleou, e a luta começou.
Era uma batalha desigual. Gabriel lutava com uma ferocidade surpreendente, protegendo Helena e o portal. Mas os homens da Ordem Sombria eram implacáveis e numerosos. Helena, sentindo-se impotente, procurava desesperadamente por uma solução.
Ela olhou para o diário de sua avó, que estava aberto sobre a mesa. Uma última anotação, feita às pressas: “Se o portal for aberto por aqueles que buscam corromper seu poder, o sacrifício será a única forma de selá-lo. A luz de um inocente deve apagar a escuridão.”
Sacrifício. Inocente. A luz. O sangue. Helena sentiu um arrepio gelado. Sua avó sabia que isso poderia acontecer.
Ela olhou para Gabriel, que lutava bravamente, mas estava sendo dominado. A dor e o desespero a consumiram. Ela não podia perdê-lo. Não podia deixar que a Ordem Sombria usasse o poder da caixa para fins nefastos.
Em um ato de desespero, impulsionada por um amor avassalador e pela necessidade de proteger Gabriel, Helena correu em direção à caixa registradora.
“Helena, não!”, gritou Gabriel, percebendo suas intenções.
Ignorando seus gritos, Helena colocou as mãos sobre o livro de metal, sentindo a energia pulsante do portal. Ela fechou os olhos, concentrando toda a sua vontade, todo o seu amor por Gabriel, toda a sua determinação em proteger o que sua avó havia lutado para preservar.
“Pelo meu amor… pela minha inocência… eu selo este portal!”, ela gritou, sua voz ressoando com uma força que ela não sabia possuir.
Uma luz branca e ofuscante explodiu da caixa registradora, muito mais intensa que a luz azul anterior. Era uma luz pura, que queimava a escuridão e a maldade. Os homens da Ordem Sombria recuaram, gritando de dor e surpresa. O líder tentou avançar, mas a luz o repeliu com força.
Gabriel, protegido pela própria luz que emanava de Helena, observava horrorizado. Ele viu Helena se contorcer, seu corpo iluminado por uma energia divina, como se estivesse se desintegrando.
“Helena! Não!”, ele gritou, desesperado para alcançá-la, mas incapaz de atravessar a barreira de luz.
A luz branca atingiu seu ápice, envolvendo a caixa registradora, o livro de metal e Helena. Houve um silêncio ensurdecedor, e então, tudo se dissipou.
A luz se apagou. O zumbido cessou. A caixa registradora e o livro de metal estavam lá, inertes, como se nunca tivessem sido ativados. O portal havia sido fechado.
Mas Helena… Helena havia desaparecido.
O líder da Ordem Sombria, com o rosto distorcido pela fúria e pela dor, olhou para o local onde Helena estivera. “Vocês… vocês pagaram caro por isso.” Ele olhou para Gabriel, seu olhar cheio de ódio. “Isso não acabou.”
Com um último olhar de desprezo, os homens da Ordem Sombria recuaram, desaparecendo nas sombras da noite.
Gabriel ficou sozinho no apartamento silencioso, o eco dos gritos de Helena ainda ressoando em seus ouvidos. Ele se ajoelhou diante do local vazio, o coração partido em mil pedaços. Helena, seu amor, sua luz, havia se sacrificado para selar o portal e protegê-lo da escuridão.
O silêncio que se seguiu não era mais um mistério a ser desvendado, mas um vazio doloroso, o silêncio de uma perda irreparável. O abismo havia sido selado, mas o preço foi o inocente que ele amava. E Gabriel, agora sozinho com a memória de Helena e a promessa de vingança da Ordem Sombria, sabia que sua jornada estava longe de terminar.