O Assassino de Copacabana

O Assassino de Copacabana

por Felipe Nascimento

O Assassino de Copacabana

Autor: Felipe Nascimento

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Capítulo 1 — A Sombra na Areia Dourada

O sol da manhã, ainda tímido, pintava de tons rosados e dourados a orla de Copacabana. A maresia, com seu perfume inconfundível de sal e algas, acariciava os rostos dos primeiros acordados, dos corredores matinais, dos cariocas que, mesmo antes do burburinho da cidade despertar completamente, já buscavam a energia revigorante do mar. E entre eles, uma figura se destacava, não pela beleza ou pela pressa, mas pela sua quietude, uma quietude que parecia deslocada em meio à efervescência habitual da praia mais famosa do mundo.

Isabella de Almeida, conhecida por sua ousadia no mundo dos negócios e por uma beleza que transbordava confiança, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era o frescor da brisa, mas uma sensação gélida de presságio, algo que a incomodava desde o amanhecer. Ela parou seu trote ritmado, os olhos azuis, habitualmente cheios de determinação, agora fixos num ponto distante, onde a linha do horizonte se misturava com o céu. Uma pequena multidão já se formava ali, um aglomerado de curiosos e, em breve, a presença ostensiva das viaturas policiais.

"O que está acontecendo?", perguntou ela a um vendedor de mate que, com o semblante preocupado, observava a cena.

"Ih, Dona Isabella... parece que acharam alguma coisa", respondeu ele, a voz baixa, como se temesse ser ouvido por quem quer que estivesse no centro do alvoroço. "Coisa feia, pelo que dizem."

Isabella sentiu o estômago revirar. Uma inquietação profunda a dominava. Ela sempre se sentiu dona daquela praia, de alguma forma. De manhã cedo, quando o mundo ainda se recolhia aos seus aposentos, Copacabana era seu refúgio, seu santuário de pensamentos e decisões. Ver aquele cenário manchado por algo sombrio era perturbador.

Ela se aproximou com cautela, o coração batendo descompassado contra as costelas. A multidão se abria, revelando um corpo estendido na areia, uma figura imóvel, o corpo envolto em uma poça escura que se espalhava lentamente. A pele, antes vibrante com a cor do bronzeado, agora era pálida, quase translúcida sob a luz do sol que ganhava força. O rosto, virado para o céu, exibia uma expressão de surpresa congelada, os olhos abertos, mas sem vida, fixos num ponto que apenas os mortos podiam enxergar.

Um grito escapou dos lábios de Isabella, um som rouco e desesperado que se perdeu no murmúrio da multidão. Não era um grito de choque apenas, mas de reconhecimento. O cheiro metálico do sangue, que antes ela não havia notado, agora lhe atingiu as narinas com violência, misturando-se à brisa marinha, criando uma combinação nauseante. Ela sabia quem era. Sabia, com uma certeza terrível, quem jazia ali, desfeito, na areia que tantas vezes foi palco de seus momentos de glória e de sua vida vibrante.

Era Ricardo. Ricardo Vargas. Seu sócio, seu confidente, o homem com quem compartilhara não apenas o sucesso estrondoso da "Almeida & Vargas Incorporações", mas também segredos profundos, paixões ardentes e, nos últimos tempos, uma tensão silenciosa que pairava no ar entre eles.

O Delegado Silva, um homem corpulento com um olhar cansado e um bigode grisalho que lhe conferia um ar paternal, tentou afastá-la. "Senhora, por favor, precisamos de espaço."

Mas Isabella parecia alheia às suas palavras. Seus olhos estavam fixos no corpo, uma torrente de memórias a inundando. Os risos compartilhados em jantares de negócios, as noites em claro planejando o próximo grande empreendimento, a cumplicidade nos olhares trocados durante reuniões tensas. E, mais recentemente, a frieza que se instalara entre eles, as discussões veladas, as suspeitas que ela tentava, em vão, afastar.

"Não pode ser...", murmurou ela, a voz trêmula. "Ricardo... por quê?"

O corpo de Ricardo Vargas, tão cheio de vida e de ambições apenas algumas horas antes, agora era um espetáculo macabro. A camisa social, outrora impecável, estava rasgada e manchada. Um objeto pontiagudo, ainda ensanguentado, repousava perto de sua mão estendida, como se tivesse sido arrancado dele em um último e desesperado gesto. Era uma adaga, de um design incomum, com um cabo entalhado em marfim. Isabella a reconheceu de imediato. Pertencia a Ricardo. Era uma peça antiga, uma herança de família que ele guardava com um carinho quase reverente.

A ficha caiu sobre ela com a brutalidade de uma explosão. Alguém o havia matado. E não fora um assalto qualquer, um roubo que deu errado. Aquela adaga, aquela arma improvisada, falava de algo pessoal, de ódio, de uma fúria contida que finalmente explodiu.

O Delegado Silva, percebendo o estado de choque de Isabella, mudou o tom de voz. "Senhora de Almeida, a senhora o conhecia bem?"

Isabella assentiu, incapaz de articular uma palavra coerente. Ela sentia a areia fria sob seus pés descalços, o sol que agora ardia na pele, e o peso esmagador daquele momento. Aquele corpo, espalhado na areia daquela praia, não era apenas a morte de um homem. Era o fim de uma era, o desmoronamento de um mundo que ela construíra com tanto esforço e paixão.

"Ele... ele era meu sócio", conseguiu dizer, a voz quase um sussurro. "Ricardo era meu sócio."

As palavras ecoaram no silêncio que se instalara entre eles, um silêncio carregado de dor e de um medo crescente. Quem mataria Ricardo Vargas? E por quê? As perguntas se emaranhavam em sua mente, criando um nó apertado que ela sentia que levaria tempo, e talvez um preço alto, para desatar. A sombra que pairava sobre a areia dourada de Copacabana não era apenas a do assassino, mas a da incerteza, da traição e de um mistério que começava a se desdobrar, sombrio e implacável.

O cheiro de café fresco e de pão na chapa invadiu o pequeno apartamento de Leonardo Costa, o detetive encarregado do caso. Ele esfregou os olhos cansados, tentando espantar o sono que insistia em voltar. A noite havia sido longa, debruçado sobre os relatórios preliminares do assassinato em Copacabana. Ricardo Vargas. Um nome que soava com peso no mundo dos negócios carioca. Um homem poderoso, com inimigos prováveis em cada esquina.

Leonardo era um homem de contrastes. Seus olhos escuros e penetrantes pareciam carregar a melancolia de quem viu demais, mas um sorriso fácil teimava em surgir em seus lábios quando menos se esperava. Tinha a aparência de alguém que poderia ter sido um músico de jazz ou um poeta boêmio, mas por trás daquele exterior tranquilo, escondia-se uma mente afiada e uma intuição quase sobrenatural para desvendar mistérios.

Ele tomou um gole de café, o líquido amargo despertando seus sentidos. O caso Vargas era um presente envenenado. Por um lado, a atenção da mídia seria intensa, a pressão política enorme. Por outro, a complexidade da vítima prometia um quebra-cabeça intrigante.

"Bom dia, Leo!", disse Carla, sua colega de trabalho, enquanto entrava na sala. Carla era a ponta de lança do departamento, uma mulher de ação, impaciente e extremamente competente. Seu cabelo curto e rebelde parecia refletir sua personalidade.

"Bom dia, Carla. Alguma novidade?", perguntou Leonardo, virando-se na cadeira.

"Só o que você já sabe. Vítima: Ricardo Vargas. Causa da morte: múltiplas perfurações por arma branca. Local: Praia de Copacabana. Hora estimada da morte: entre 2h e 4h da manhã. Encontrado por um casal de corredores às 5h30." Carla jogou um envelope sobre a mesa. "Testemunhas? Nenhuma. Movimentação suspeita? Ninguém viu nada. O usual para um assassinato em um local público, durante a madrugada. Ah, e acharam a arma."

Leonardo ergueu uma sobrancelha. "A arma? O que era?"

"Uma adaga antiga. Com um cabo de marfim. Aparentemente, pertencia à vítima. Ele gostava de colecionar antiguidades, segundo os primeiros contatos com a família." Carla fez uma pausa, o olhar sério. "E adivinha quem foi a primeira a ser notificada e a chegar ao local, em estado de choque?"

"Deixe-me adivinhar... Isabella de Almeida", disse Leonardo, com um leve sorriso irônico.

"Exatamente. A empresária de sucesso. Sócia da vítima. Parece que a relação entre eles não era tão profissional quanto se imaginava. Pelo menos é o que os boatos já começam a espalhar."

Leonardo pegou o envelope e começou a folhear os documentos. "Isabella de Almeida... Nome forte na cidade. Altamente respeitada, e dizem, tem um temperamento difícil."

"Difícil é pouco, Leo. Ela é conhecida por ser implacável. Dizem que ela construiu aquele império praticamente sozinha, mesmo depois de herdar uma parte da fortuna de seu pai. Ricardo era o braço direito dela, o homem que fazia a ponte entre o lado mais público e as negociações mais obscuras."

"Negociações obscuras, você diz?" Leonardo sentiu um fio de interesse se acender. Isso tornava tudo mais interessante.

"Vamos dizer que a 'Almeida & Vargas Incorporações' não é conhecida apenas por construir prédios bonitos e luxuosos. Há sussurros sobre negócios polêmicos, sobre pessoas que foram prejudicadas pelo sucesso deles. A maioria, é claro, são apenas boatos. Mas onde há fumaça..."

"..., há fogo. Entendido." Leonardo suspirou. "Precisamos falar com a Dona Isabella de Almeida o mais rápido possível. Ela pode ser a chave para entendermos quem era Ricardo Vargas, além do empresário bem-sucedido."

"Ela já está a caminho daqui. Pediu para ser entrevistada o quanto antes. Parece que ela quer resolver isso rápido."

"Ou talvez ela queira controlar a narrativa. Interessante." Leonardo se levantou, ajeitando a jaqueta de couro surrada. "Vamos lá. Vamos ver o que a viúva, digo, a sócia abalada, tem a nos dizer."

No carro, Isabella olhava a paisagem urbana de Copacabana se transformar, cada rua, cada prédio, parecia carregar a memória de Ricardo. As conversas no escritório, as risadas no restaurante, os planos sussurrados em noites estreladas. Agora, tudo isso parecia um eco distante, cruelmente interrompido. A delegacia de polícia era um monstro de concreto, um lugar que ela evitava a todo custo. Mas ali estava ela, entrando por aquelas portas como uma acusada, não como a vítima da perda.

O Delegado Silva a conduziu a uma sala pequena, com uma mesa de metal e duas cadeiras. Leonardo e Carla já a esperavam. A presença de Leonardo, com seus olhos profundos e um certo ar de melancolia, a desarmou um pouco. Ele não parecia um policial comum. Havia algo nele que a intrigava.

"Senhora de Almeida, obrigado por vir", disse Leonardo, com uma voz suave que contrastava com o ambiente hostil. "Eu sou o Detetive Leonardo Costa, e esta é a Detetive Carla Mendes."

"Detetive Costa. Detetive Mendes", respondeu Isabella, a voz ainda carregada de emoção, mas com um resquício de sua habitual compostura. "Eu quero que vocês encontrem quem fez isso com o Ricardo."

"Entendemos sua dor, senhora. E faremos tudo ao nosso alcance. Mas para isso, precisamos que a senhora nos ajude. Conte-nos tudo sobre o seu relacionamento com o senhor Vargas."

Isabella hesitou por um momento. Como explicar a complexidade da relação? Como falar sobre a paixão que nasceu entre eles, floresceu e, ultimamente, se transformara em desconfiança e amargura? Como admitir que Ricardo estava escondendo algo dela, algo que ela não conseguia decifrar?

"Ricardo e eu éramos sócios há dez anos", começou ela, escolhendo as palavras com cuidado. "Começamos com pouco, mas tínhamos uma visão em comum. Construímos a Almeida & Vargas juntos, tijolo por tijolo. Éramos... próximos. Muito próximos."

Carla anotava tudo com uma expressão neutra, mas seus olhos não perdiam nenhum detalhe.

"E nos últimos tempos?", perguntou Leonardo, o tom amigável, mas perspicaz. "A proximidade se manteve?"

Isabella sentiu um nó na garganta. "As coisas mudaram. Ricardo estava diferente. Mais reservado. Preocupado. Ele andava afastado, escondendo coisas. Eu sentia que ele estava guardando um segredo, algo que me preocupava profundamente."

"Que tipo de segredo?", insistiu Leonardo.

"Eu não sei. Ele era evasivo. Quando eu pressionava, ele desconversava. Chegamos a ter discussões sérias sobre isso. Eu temia que ele estivesse se envolvendo em algo perigoso, algo que pudesse nos prejudicar. A Almeida & Vargas é o meu legado, Detetive. Eu não permitiria que nada a destruísse."

"E o senhor Vargas sabia disso? Sabia que a senhora estava desconfiada?"

"Sim. Ele sabia. Mas ele não me dizia nada. Parecia dividido. Uma parte dele queria me contar, mas outra... outra parecia ter medo." Isabella abaixou a cabeça, as mãos entrelaçadas com força. "Eu sinto que essa morte está ligada a esses segredos dele. Ele estava envolvido em algo, algo que o levou a ser morto naquela praia."

"A adaga que o matou", disse Carla, de repente. "Ela pertencia a ele. Por que ele a levaria para a praia? Para se defender? Ou para uma reunião que deu errado?"

Isabella estremeceu. A imagem da adaga, ensanguentada, a assustava. "Eu não sei. Ricardo não era de carregar armas. Ele era... diferente. Ele gostava de colecionar antiguidades, mas nunca as usou para nada. A adaga era uma peça especial para ele. Uma herança de família."

"Ele tinha inimigos, senhora de Almeida?", perguntou Leonardo, o tom mais sério.

"Claro que tinha. No nosso ramo, é impossível não ter. Mas inimigos que chegaram a esse ponto? Eu não sei. Talvez alguém que ele tenha prejudicado em um negócio. Talvez algo relacionado a esses segredos que ele guardava. Eu só sei que eu preciso que vocês descubram. Por ele. E por mim."

Leonardo olhou para Isabella, vendo a dor genuína em seus olhos azuis, mas também a determinação implacável que a tornara uma força no mundo dos negócios. Ele sabia que aquela mulher era tão complexa quanto o caso que se apresentava.

"Nós vamos descobrir, senhora de Almeida", prometeu ele, com a voz firme. "Mas para isso, vamos precisar da sua total cooperação. E talvez, de algumas verdades que ainda não nos contou."

Isabella ergueu o olhar, encontrando o dele. Um desafio silencioso pairava no ar. Ela sabia que o caminho seria longo e doloroso. A sombra na areia dourada de Copacabana havia lançado uma escuridão ainda maior sobre sua vida. E o Assassino de Copacabana, quem quer que fosse, estava apenas começando a jogar seu jogo macabro.

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