O Assassino de Copacabana
O Encontro na Lapa
por Felipe Nascimento
O cheiro de cerveja e fumaça pairava no ar denso do bar. A música alta, um samba vibrante, tentava em vão abafar a tensão que emanava de Clara. Ela sentou-se em um canto escuro, observando cada pessoa que entrava, cada rosto que cruzava o seu. Fazia três semanas desde o desaparecimento de Miguel, e a cada dia que passava, a esperança de encontrá-lo vivo diminuía, dando lugar a um medo cada vez mais palpável. A pista que o enigmático senhor da praia lhe dera, sobre "um encontro na Lapa", a levara a um labirinto de bares e vielas, cada um com sua atmosfera peculiar, mas nenhum com a resposta que ela buscava desesperadamente. Ela já havia interrogado garçons, frequentadores habituais, até mesmo alguns donos de estabelecimentos, mas suas perguntas sobre Miguel eram recebidas com olhares de desinteresse ou, pior, com olhares cheios de um conhecimento velado que eles se recusavam a compartilhar. Clara sentia-se cada vez mais isolada em sua busca, uma ilha em meio a um oceano de indiferença. O detetive particular que ela contratara, um sujeito cínico chamado Nestor, parecia mais interessado em seu pagamento do que em desvendar o mistério. Ele a informava vagamente sobre suas "investigações", mas suas palavras eram sempre evasivas, sem oferecer qualquer progresso concreto. Ela desconfiava dele, mas a alternativa era ficar sozinha contra quem quer que estivesse por trás do sumiço de Miguel. A Lapa, com sua vida noturna pulsante e suas sombras traiçoeiras, era o cenário perfeito para um desaparecimento. Clara já havia visitado vários bares e casas de show, cada um com sua clientela específica, seus segredos guardados a sete chaves. Havia o "Rio Antigo", frequentado por boêmios de carteirinha, o "Carioca da Gema", onde o samba era levado a sério, e o "Bar da Boa", um reduto mais popular. Em nenhum deles, ninguém parecia ter visto ou ouvido falar de Miguel, pelo menos não abertamente. Ela estava começando a perder a fé, o cansaço físico e emocional pesando sobre seus ombros. O copo de caipirinha em sua mão estava quase intocado. Ela revia as fotos de Miguel em seu celular: o sorriso dele, os olhos brilhantes, os planos que faziam juntos. A dor era um aperto constante em seu peito. Foi então que, em meio à agitação do bar, seus olhos pousaram em um homem sentado sozinho em uma mesa próxima. Ele era magro, usava um chapéu panamá e um paletó de linho branco, mesmo com o calor da noite. Seu rosto estava parcialmente obscurecido pela sombra do chapéu, mas havia algo em sua postura, uma elegância discreta, que chamou a atenção de Clara. Ele parecia observá-la também, um olhar calculista e frio que a fez sentir um arrepio. Ela tentou desviar o olhar, mas era como se estivessem presos em um duelo silencioso. De repente, o homem se levantou e caminhou em sua direção. Clara sentiu o coração disparar. Seria ele a pessoa que o senhor da praia mencionara? O homem parou diante de sua mesa, um sorriso sutil brincando em seus lábios. "Senhorita Clara, se não me engano?", ele disse, sua voz suave, mas com um timbre de autoridade. Clara assentiu, incapaz de falar. "Meu nome é Armando. Fui informado que você estava procurando por alguém. Alguém chamado Miguel." Clara finalmente encontrou sua voz. "Sim. Você o conhece? Sabe onde ele está?" Armando deu uma risadinha baixa. "Conheço. E sei muito bem onde ele está. Mas o conhecimento, como você sabe, tem um preço." Ele se sentou na cadeira à frente dela, sem ser convidado. O olhar dele era intenso, como se estivesse tentando ler seus pensamentos. "Miguel se envolveu em algo… perigoso, Clara. Algo que o colocou em uma situação delicada. E agora, ele precisa de ajuda. Ajuda que eu posso oferecer." Clara sentiu um misto de alívio e desconfiança. Alívio por finalmente ter uma pista concreta, desconfiança pela forma fria e calculista com que Armando falava. "Que tipo de ajuda?", ela perguntou, tentando manter a voz firme. Armando inclinou-se para frente, seu sorriso desaparecendo. "Uma ajuda que requer discrição. E, claro, uma recompensa." Ele olhou em volta, certificando-se de que ninguém os ouvia. "Miguel tem algo que pertence a pessoas… influentes. Pessoas que não gostam de perder o que é delas. Se você quiser vê-lo novamente, terá que me ajudar a recuperar o que ele pegou."