O Assassino de Copacabana

Capítulo 2 — Os Fantasmas do Passado Corporativo

por Felipe Nascimento

Capítulo 2 — Os Fantasmas do Passado Corporativo

O sol da tarde banhava a cidade do Rio de Janeiro em um brilho dourado e preguiçoso, mas nos escritórios da Almeida & Vargas Incorporações, o clima era de pura tempestade. O burburinho silencioso que se instalara após a notícia da morte de Ricardo Vargas agora se transformara em um alvoroço contido. Funcionários cochichavam pelos corredores, olhares apreensivos se cruzavam, e a figura imponente de Isabella de Almeida, normalmente um farol de confiança e comando, parecia agora envolta em uma aura de fragilidade e fúria.

Isabella estava em sua sala, o vidro que dava para a orla de Copacabana emoldurando a vista que, horas antes, havia sido palco de uma tragédia pessoal e profissional. Ela observava a agitação lá fora, o trânsito intenso, as pessoas apressadas, e se sentia desconectada de tudo. A morte de Ricardo era um golpe devastador, mas a necessidade de agir, de manter o controle, era mais forte do que o luto. Ela precisava entender quem o havia matado, e por quê. E, acima de tudo, precisava proteger o império que ambos haviam construído.

Seu celular vibrou sobre a mesa de mogno maciço. Era o Delegado Leonardo Costa. Ela atendeu, a voz controlada, mas com um fio de urgência.

"Senhora de Almeida, aqui é o Detetive Costa. Espero não estar incomodando."

"Detetive Costa, em momento algum. Na verdade, estou esperando sua ligação. Há alguma novidade?" Isabella sentia uma pontada de impaciência. Cada minuto que passava sem respostas era um minuto a mais para o assassino se perder, ou, pior, para agir novamente.

"Temos alguns contatos iniciais. O senhor Vargas tinha uma vida movimentada. Muitas reuniões, muitos negócios. Estamos tentando traçar os passos dele nas últimas 48 horas. Mas isso leva tempo."

"Tempo é algo que não temos, Detetive. Ricardo foi assassinado. Alguém o matou. E eu quero que essa pessoa seja encontrada."

"Entendemos perfeitamente, senhora. Mas para isso, precisamos da sua ajuda. A senhora mencionou que o senhor Vargas estava diferente ultimamente. Reservado. Preocupado. Poderia nos dar mais detalhes? Algum nome em particular? Algum negócio que estivesse o incomodando?"

Isabella suspirou, recostando-se na cadeira. Aquela era a parte difícil. Admitir suas desconfianças, seus receios, que até então ela havia guardado como um segredo pessoal.

"Ricardo estava obcecado com um projeto em particular. Um empreendimento que chamávamos internamente de 'Projeto Aurora'. Era um desenvolvimento imobiliário em uma área pouco explorada da Zona Oeste, que prometia ser o nosso maior sucesso até agora. Mas algo estava errado. Ricardo estava recebendo ameaças anônimas. E ele se recusava a me contar quem estava por trás disso."

"Ameaças anônimas? Que tipo de ameaças?" A voz de Leonardo ganhou um tom mais sério.

"Ameaças veladas. Que ele deveria desistir do projeto, que ele estava mexendo com quem não devia. Ele as descartava como sendo apenas concorrência desleal, mas eu sentia que era algo mais. A forma como ele agia, a preocupação constante em seus olhos... era diferente de tudo o que eu já tinha visto."

"Ele chegou a mencionar algum nome, alguma empresa específica?"

"Não. Ele era muito protetor em relação a mim, Detetive. Sempre quis me blindar de qualquer problema. Ele dizia que cuidaria de tudo, que eu não precisava me preocupar. Mas eu me preocupava. Eu me preocupava muito." Isabella sentiu a amargura retornar à sua voz. Se ela tivesse pressionado mais, se tivesse agido antes...

"E qual era o status desse 'Projeto Aurora'? Estava em fase de negociação? Já haviam adquirido o terreno?"

"Estávamos nas últimas negociações para a aquisição de um terreno enorme. Um lugar com potencial enorme, mas que também era objeto de desejo de outros investidores. Havia muita especulação em torno daquela área. Ricardo estava gerenciando tudo pessoalmente. Talvez ele tenha descoberto algo que não deveria. Talvez ele tenha se deparado com algo que o colocou em perigo."

"Senhora de Almeida, quem mais sabia sobre esse projeto? Outros sócios? Investidores externos? Algum funcionário de confiança?"

"Apenas nós dois, Detetive. Eu confiava em Ricardo para gerenciar os detalhes mais sensíveis. Ele tinha um olheiro discreto, um homem chamado Marcos, que fazia levantamentos e negociações em nome dele, sem revelar nossa identidade. Marcos também está incomunicável desde ontem."

A menção de Marcos chamou a atenção de Leonardo. Um homem que desaparece junto com um projeto secreto e a morte do sócio. Isso não era coincidência.

"Marcos. O nome completo dele, por favor."

"Marcos Oliveira. Ele trabalha para nós há alguns anos, sempre em funções discretas. Ricardo o contratou para esse projeto específico. Ele era o único que tinha contato direto com os proprietários do terreno e com os possíveis envolvidos na comunidade local."

"Entendido. E a senhora, teve algum contato com o senhor Oliveira recentemente?"

"Não. Ricardo fazia toda a ponte entre nós. Ele me atualizava, mas sem me expor diretamente. Ele temia que se a Almeida & Vargas fosse vista como a compradora principal, os preços disparassem ou a concorrência se tornasse agressiva demais."

Isabella franziu a testa, lembrando-se de uma conversa recente com Ricardo. Ele estava estranhamente evasivo sobre os detalhes do terreno, sobre os vendedores. Parecia que ele estava escondendo algo mais do que apenas o nome da empresa.

"Detetive, há algo mais que eu preciso mencionar. Ricardo tinha... uma vida pessoal complicada. Ele era casado, mas ultimamente, os rumores eram de que ele andava envolvido com outra mulher. Uma mulher que eu não conhecia. Talvez isso tenha alguma ligação."

Leonardo anotou, mas seu instinto lhe dizia que o "Projeto Aurora" e as ameaças eram mais relevantes para a morte violenta na praia do que um caso extraconjugal.

"Certo, senhora de Almeida. Continuaremos investigando o 'Projeto Aurora' e a pessoa de Marcos Oliveira. A senhora poderia nos fornecer uma lista de pessoas que trabalham diretamente com o senhor Vargas no projeto, ou que poderiam ter conhecimento dele?"

"Sim, claro. Eu vou providenciar isso imediatamente. E se vocês precisarem de algo mais, qualquer coisa... é só me ligar." Isabella desligou o telefone, o coração apertado. O "Projeto Aurora". Aquilo era a chave, ela sentia. Ricardo estava assustado com algo relacionado a esse projeto. E agora, com ele morto e Marcos desaparecido, ela estava sozinha para desvendar aquele mistério perigoso.

Enquanto isso, na delegacia, Leonardo e Carla analisavam as primeiras informações.

"Projeto Aurora", murmurou Leonardo, esfregando o queixo. "Parece um ninho de vespeiro."

"E um funcionário chamado Marcos Oliveira sumiu do mapa. Coincidência demais", acrescentou Carla, com um brilho nos olhos. "Vamos intensificar a busca por ele. Talvez ele saiba quem ameaçou Ricardo."

"E a concorrência. Quem eram os outros interessados naquele terreno na Zona Oeste? Precisamos investigar as empresas que também estavam de olho naquela área. Pode ser que Ricardo tenha descoberto um esquema ilegal, ou um plano de invasão de terras, algo assim."

"É uma área em franca expansão, Leo. O potencial é enorme. Se alguém viu uma oportunidade de ouro e Ricardo estava no caminho, não me surpreenderia se ele tivesse sido silenciado."

Leonardo olhou para a foto de Ricardo Vargas que estava na mesa. Um homem de aparência confiante, sorrindo para a câmera. Ele parecia ter tudo: dinheiro, poder, uma vida aparentemente glamorosa. Mas por trás da fachada, Leonardo sabia que a maioria das pessoas ricas e poderosas tinha seus demônios.

"Precisamos também investigar a vida pessoal dele, Carla. A esposa, os amantes. Às vezes, os motivos mais sombrios vêm de perto."

"Já estamos nisso. A esposa, Helena Vargas, está arrasada. Parece realmente chocada com a morte do marido. Ela alega que não sabia de nada sobre o 'Projeto Aurora' ou sobre ameaças."

"E o amante? Algum nome?"

"Ainda não. Aparentemente, era um relacionamento secreto. Mas as fofocas são fortes. Dizem que era alguém do meio artístico, talvez."

Leonardo balançou a cabeça. "Por enquanto, vamos focar no 'Projeto Aurora' e em Marcos Oliveira. Essa é a pista mais concreta que temos. E vamos ficar de olho na senhora de Almeida. Ela é uma mulher forte, mas também pode ter seus próprios segredos. A morte do sócio pode ser uma oportunidade para ela, afinal."

Carla assentiu, mas havia uma hesitação em seu olhar. "Não sei, Leo. A impressão que tive dela foi de uma mulher genuinamente abalada. Mas você tem razão, nunca se sabe."

A noite caiu sobre o Rio de Janeiro, e com ela, uma nova onda de pressentimentos. Isabella, em sua cobertura luxuosa com vista para o mar, sentia o peso da responsabilidade mais do que nunca. Ricardo havia lhe confiado o futuro da empresa, e agora, com ele morto, ela sentia que era seu dever honrar essa confiança, mesmo que isso a levasse por caminhos perigosos.

Ela abriu o cofre embutido em uma das paredes de sua sala de estar. Lá dentro, entre documentos importantes e joias valiosas, havia uma pasta com o rótulo "Projeto Aurora". Ela a pegou, o coração batendo forte. Ricardo havia deixado algo para ela. Uma pista, talvez. Ou um aviso.

Dentro da pasta, havia plantas do terreno, relatórios sobre a fauna e a flora local, e, o mais perturbador, uma série de cartas anônimas, idênticas às que Ricardo havia mencionado. Eram ameaças frias e calculistas, escritas em letra cursiva, com um vocabulário que sugeria alguém com algum nível de educação.

"Vocês não sabem com quem estão mexendo. Esse terreno é amaldiçoado. Deixem-no em paz, ou se preparem para o pior."

"O poder de vocês não chega tão longe. A natureza reclama o que é seu. E aqueles que a desrespeitam pagam caro."

"O Aurora trará a noite eterna. Desistam agora, antes que seja tarde demais."

Isabella sentiu um arrepio. As cartas eram a prova de que Ricardo não estava sendo paranoico. Alguém estava seriamente incomodado com o projeto. E essa pessoa, ou grupo, não parecia ter medo de usar a violência.

Ela folheou mais alguns documentos, até que algo chamou sua atenção: um pequeno caderno, com a capa de couro surrada. Era um diário. O diário de Ricardo.

Com as mãos trêmulas, Isabella abriu o caderno. As primeiras páginas eram repletas de anotações sobre o andamento do projeto, sobre as negociações com Marcos Oliveira. Mas à medida que avançava, o tom mudava. Tornava-se mais apreensivo, mais perturbado.

"Marcos está agindo de forma estranha. Ele teme algo que não me conta. Diz que a área tem 'energias' ruins. Bobagem, mas a apreensão dele é palpável."

"Recebi a primeira carta hoje. Um aviso. Não levei a sério, mas agora... sinto um frio na espinha."

"As cartas continuam chegando. Mais ameaçadoras. Começo a acreditar que Marcos não está apenas sendo supersticioso. Há algo de errado com essa terra. Algo que alguém quer manter em segredo."

"Descobri algo. Algo que vai mudar tudo. O terreno não é apenas terra bruta. Há vestígios de um antigo cemitério indígena ali. E alguns documentos antigos sugerem que a área foi palco de rituais sombrios. Isso explica o medo de Marcos e as ameaças. Mas quem está por trás disso? Quem quer impedir nosso progresso a qualquer custo?"

A última anotação, datada da noite anterior, fez o sangue de Isabella gelar.

"Hoje à noite, vou me encontrar com um informante. Alguém que diz ter provas sobre o que realmente aconteceu naquela terra. Preciso saber a verdade. Por mim, por nós. Se algo acontecer comigo, Isabella precisa saber. O 'Projeto Aurora' é mais do que negócios. É algo perigoso. A adaga de família... talvez eu precise dela."

Isabella fechou o diário, as mãos tremendo. Ricardo havia saído para se encontrar com alguém. Alguém que lhe prometeu respostas. E ele foi assassinado. A adaga, a herança de família que ele tanto prezava, fora usada como arma. Ela sabia que o perigo era real, muito mais real do que ela imaginava. O "Projeto Aurora" não era apenas um empreendimento imobiliário. Era uma teia de segredos, história e, agora, morte. E ela estava no centro dela. A sombra na areia de Copacabana havia se espalhado, envolvendo-a em um manto de mistério e perigo.

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