O Assassino de Copacabana
Capítulo 4 — A Rede de Elias Thorne
por Felipe Nascimento
Capítulo 4 — A Rede de Elias Thorne
A noite caiu sobre o Rio de Janeiro, mas para Isabella de Almeida, a escuridão parecia ter se instalado dentro de si. Sentada em sua luxuosa sala de estar, o amuleto antigo pesando em sua mão, ela sentia o peso de uma história que ia muito além de negócios e ambições modernas. O guardião da história, como ele se autodenominava, havia revelado um lado do "Projeto Aurora" que desafiava a lógica e a razão. Um cemitério indígena, um portal, e Elias Thorne, um homem obcecado por segredos antigos e disposto a matar para obtê-los.
Seu celular vibrou na mesa de centro. Era o Delegado Leonardo Costa. A ligação, feita em um momento de profunda reflexão, trouxe-a de volta à realidade brutal do presente.
"Senhora de Almeida, aqui é o Detetive Costa. Precisamos conversar. Temos novidades sobre Elias Thorne."
Isabella sentiu um calafrio. "O que descobriram?"
"Conseguimos rastrear alguns de seus negócios. Thorne opera através de uma rede de empresas de fachada, principalmente no mercado de arte e antiguidades. Ele é muito bom em se manter nas sombras. Mas encontramos um padrão. Ele tem feito aquisições significativas de terras em áreas remotas, com histórico de sítios arqueológicos."
"Ele está buscando mais do que apenas artefatos", disse Isabella, lembrando-se das palavras do guardião sobre o portal e o poder.
"Exatamente. E o mais preocupante: descobrimos que Thorne tem um histórico de violência. Ele já esteve envolvido em disputas com colecionadores rivais, e em um caso, um de seus concorrentes desapareceu misteriosamente após uma negociação tensa."
"Ele é o assassino de Ricardo", afirmou Isabella, com uma certeza que lhe gelou o sangue. "Ele não queria que Ricardo descobrisse a verdade sobre aquele terreno. Ele não queria que o 'Projeto Aurora' fosse adiante."
"Precisamos de provas, senhora de Almeida. A sua informação sobre o diário de Ricardo e o amuleto são importantes, mas ainda não são suficientes para incriminar Thorne. Precisamos ligá-lo diretamente ao assassinato."
"E como faremos isso?", perguntou Isabella, a voz carregada de frustração.
"Estamos trabalhando nisso. Thorne é cauteloso. Ele não deixa rastros óbvios. Mas ele tem homens. Homens que agem em seu nome. Precisamos identificar quem esteve com ele na noite do crime. E, se possível, recuperar a arma do crime. A adaga de Ricardo."
Isabella hesitou. A adaga. Ela sabia que Ricardo a levara consigo. Mas onde ela estaria agora? Provavelmente em posse de Thorne, ou de seus capangas.
"Eu preciso de algo mais, Detetive. Algo que possa acelerar essa investigação. Thorne não é apenas um colecionador. Ele está interessado em algo muito mais poderoso. O guardião da história me disse que há um portal naquela terra. Algo antigo e sombrio."
Leonardo fez uma pausa. "Um portal? Senhora de Almeida, o que exatamente o 'guardião da história' lhe contou?"
Isabella descreveu o que o homem havia lhe dito, sobre o poder da terra, sobre os rituais antigos, e sobre o desejo de Thorne em possuir algo que poderia 'mudar o mundo'. Leonardo ouviu atentamente, seu instinto de detetive captando a gravidade da situação.
"Isso é... incomum", disse ele, após Isabella terminar. "Mas se Thorne acredita nisso, e se há algo de real em sua crenças, isso explicaria a sua obsessão e a sua disposição em matar. Precisamos investigar mais a fundo essa história. Talvez existam registros, lendas, algo que possamos usar para entender o que Thorne realmente procura."
"E sobre a identidade dos homens que trabalharam para Thorne? O senhor Oliveira mencionou que Ricardo ia se encontrar com um 'informante'. Será que Thorne o silenciou também?"
"Marcos Oliveira está cooperando, mas ele não viu o rosto dos homens que estavam com Thorne. Ele apenas ouviu a conversa à distância e se escondeu quando percebeu o perigo."
"Eu preciso fazer alguma coisa", disse Isabella, a determinação crescendo. "Não posso ficar sentada esperando enquanto Thorne, seja lá quem ele for, escapa impune. Eu preciso encontrar algo que o ligue diretamente ao assassinato."
"Senhora de Almeida, entendo seu desejo de justiça, mas peço que seja cautelosa. Elias Thorne é perigoso. Não o confronte sozinha."
"Eu não vou fazer nada imprudente, Detetive. Mas eu preciso entender o que está acontecendo. Ricardo foi meu sócio, meu amigo. Eu preciso fazer isso por ele."
Naquela noite, Isabella mergulhou nos arquivos da Almeida & Vargas. Ela sabia que Ricardo, em sua meticulosidade, poderia ter deixado pistas escondidas em algum lugar. Ela vasculhou os registros do "Projeto Aurora", os contatos de Ricardo, as correspondências. Foi então que ela encontrou. Em uma pasta antiga, esquecida em um canto, havia um pequeno caderno de anotações de Ricardo, diferente do diário que o guardião lhe entregara. Este caderno continha informações sobre Elias Thorne.
Ricardo havia iniciado sua própria investigação sobre Thorne, antes mesmo de receber as ameaças. Ele suspeitava que Thorne estava envolvido em atividades ilegais relacionadas a artefatos históricos, e que ele poderia ser um obstáculo para o "Projeto Aurora". As anotações de Ricardo eram detalhadas, descrevendo os contatos de Thorne, suas empresas de fachada, e até mesmo os nomes de alguns de seus capangas, obtidos através de informantes.
Um nome em particular chamou a atenção de Isabella: "Cobra". O informante de Ricardo descrevia Cobra como um homem violento, leal a Thorne, e conhecido por "resolver problemas de maneira definitiva". Ele também mencionou que Cobra costumava usar uma adaga específica em suas ações, uma adaga com um cabo de marfim, idêntica à de Ricardo.
O coração de Isabella disparou. Cobra. O homem que havia matado Ricardo, possivelmente usando a própria adaga dele. Ela sabia que precisava ir atrás de Cobra.
Enquanto isso, Leonardo e Carla estavam em um beco escuro na Lapa, um local conhecido por ser ponto de encontro de informantes e figuras do submundo. Eles estavam tentando obter informações sobre Cobra.
"Ele é um fantasma", disse o informante, um homem magro com olhos desconfiados. "Poucos sabem dele. Ele é o músculo de Thorne. Faz o trabalho sujo. Dizem que ele é frio como gelo, e que nunca falha."
"Onde podemos encontrá-lo?", perguntou Leonardo, impaciente.
"Ele tem um bar preferido, aqui perto. 'O Ninho da Serpente'. Mas se vocês forem lá, tomem cuidado. Ele não gosta de polícia."
Leonardo e Carla trocaram olhares. Era um risco, mas eles precisavam de Cobra.
Enquanto os detetives se dirigiam para a Lapa, Isabella decidiu que não podia esperar. Ela sabia que Cobra era o elo direto entre Thorne e a morte de Ricardo. Ela pegou a lista de contatos de Thorne que Ricardo havia compilado e pesquisou o endereço do "Ninho da Serpente".
O bar era escuro e barulhento, o cheiro de bebida barata e fumaça de cigarro impregnando o ar. Isabella entrou, sentindo os olhares curiosos sobre ela. Ela não se parecia com o tipo de pessoa que frequentava aquele lugar.
Ela localizou Cobra em um canto escuro. Ele era um homem corpulento, com uma cicatriz no rosto e um olhar que transmitia perigo. Ele estava conversando com outros homens, todos com a mesma expressão de violência contida. Isabella sabia que precisava ser rápida e discreta.
Ela se aproximou da mesa de Cobra, fingindo ter se enganado. "Com licença, senhor. O senhor é... Cobra?"
Cobra a encarou, a testa franzida. "Quem quer saber?"
"Alguém que quer saber quem matou Ricardo Vargas", disse Isabella, a voz firme, apesar do medo.
A expressão de Cobra mudou. Um brilho de reconhecimento, seguido de um sorriso cruel. Ele sabia. Ele sabia que era ele.
"Você não deveria estar aqui, mulherzinha", disse Cobra, levantando-se. "Isso não é lugar para gente como você."
"Ricardo era meu sócio. E você o matou. Usei a adaga dele, não foi? A adaga de marfim."
Cobra riu, um som gutural e desagradável. "Você fala demais. Thorne te mandou aqui para morrer?"
Nesse momento, Leonardo e Carla entraram no bar. Eles viram Isabella conversando com Cobra e se aproximaram rapidamente.
"Senhora de Almeida, o que está fazendo aqui?", perguntou Leonardo, com a voz firme.
"Detetive Costa! Que bom que chegou. Este homem matou Ricardo Vargas."
Cobra lançou um olhar furioso para Isabella, e então para os detetives. Ele sabia que estava cercado. Com um movimento rápido, ele tentou sacar uma arma escondida em sua cintura. Mas Leonardo foi mais rápido. Uma luta começou, e Cobra, em sua fúria, tentou escapar.
Durante a luta, Cobra deixou cair algo de seu bolso. Era a adaga de Ricardo, a adaga com o cabo de marfim, ensanguentada. Isabella a reconheceu instantaneamente. Era a prova que eles precisavam.
"A adaga!", exclamou Carla. "Ele estava com ela!"
Cobra foi subjugado e preso pelos detetives. Isabella sentiu uma mistura de alívio e tristeza avassaladora. A prova estava ali, nas mãos da polícia. Cobra, o executor de Thorne, havia sido pego.
Mas a batalha estava longe de terminar. Elias Thorne, o mandante, ainda estava foragido. E Isabella sabia que ele não desistiria tão facilmente de seus planos. A história antiga da terra, o portal, o poder que Thorne buscava... tudo isso ainda pairava como uma ameaça. A sombra que pairava sobre Copacabana agora se estendia para as profundezas de um passado sombrio, e Isabella sabia que precisava se aprofundar ainda mais para desvendar completamente os segredos que haviam custado a vida de Ricardo. O assassino havia sido encontrado, mas o arquiteto da tragédia ainda se escondia nas sombras, um perigo iminente, impulsionado por uma ambição que transcendia o mortal.
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