A Corrente Invisível

Capítulo 13 — A Fortaleza Enferrujada e o Guardião dos Segredos

por Thiago Barbosa

Capítulo 13 — A Fortaleza Enferrujada e o Guardião dos Segredos

A Zona Leste de São Paulo, um emaranhado de galpões abandonados e ruas esquecidas, acolheu o carro de Helena e Arthur como um fantasma em seu cemitério industrial. O céu, antes de um azul promissor, agora se tornava cinzento, carregado de uma chuva fina que parecia lavar a esperança da cidade. O endereço que Arthur havia conseguido do Dr. Elias Vasconcelos levava a um complexo de fábricas desativadas, um labirinto de concreto e ferro enferrujado que parecia ter sido esquecido pelo tempo.

O carro parou em frente a um portão imponente, coberto de pichações e com uma corrente grossa que o mantinha fechado. A placa de metal, quase ilegível, ainda ostentava o nome de uma antiga indústria têxtil, um eco distante de uma era de prosperidade agora desvanecida. O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas pelo gotejar da chuva e pelo som distante de um trem de carga.

"Parece o lugar certo", Arthur sussurrou, olhando ao redor com cautela. "Um lugar perfeito para um recluso que não quer ser encontrado."

Helena assentiu, o coração batendo forte no peito. A busca por Dr. Vasconcelos era a sua única esperança de desvendar a verdade sobre o Projeto Ômega e o desaparecimento de Ricardo. A informação obtida dos arquivos de seu pai era perturbadora: desvio de fundos, protocolos de segurança ignorados, e a demissão controversa de um cientista que, aparentemente, havia levantado a voz contra os perigos do projeto.

"Vamos dar uma volta. Talvez haja outra entrada, ou uma forma de entrar sem chamar muita atenção", Helena sugeriu, saindo do carro e sentindo a umidade fria invadir suas roupas.

Eles caminharam ao redor do perímetro do complexo, a chuva engrossando, grudando em seus cabelos e rostos. Os muros eram altos, cobertos de hera e musgo, e os poucos janelões que restavam eram buracos negros em sua fachada desgastada. Era um lugar que parecia respirar decadência e solidão.

Após uns vinte minutos de exploração, Arthur avistou uma pequena porta lateral, quase escondida por uma pilha de entulho. A fechadura parecia velha e danificada. Com a ajuda de uma chave de fenda improvisada, Arthur conseguiu forçá-la. A porta se abriu com um rangido agonizante, revelando uma escuridão úmida e empoeirada.

"Aqui é. Vamos?", Arthur perguntou, com um leve tremor na voz.

Helena respirou fundo. "Vamos. Lembre-se, cautela. Não sabemos o que ou quem vamos encontrar aqui."

Adentraram o galpão principal. A vastidão do espaço era impressionante, mesmo em seu estado de abandono. Máquinas gigantescas, cobertas por lonas esfarrapadas, pareciam esqueletos de um passado industrial. O chão estava coberto de poeira e detritos. O ar era pesado, carregado de um odor metálico e mofado.

Guiados por uma lanterna fraca, eles avançaram pelo local. Era um labirinto de corredores escuros e salas vazias. O silêncio era perturbador, apenas quebrado pelo eco de seus próprios passos. A cada passo, Helena sentia a presença de algo antigo, de segredos enterrados que pareciam sussurrar das sombras.

De repente, um som. Um ruído baixo, quase imperceptível. Arthur parou, levantando a mão em sinal de silêncio. Helena prendeu a respiração. O som se repetiu, mais próximo agora. Parecia o zumbido de um aparelho eletrônico.

Seguiram o som, adentrando uma sala menor, que parecia ter sido usada como escritório. No centro, sob uma luz fraca que emanava de um gerador portátil, estava um homem. Encurvado sobre uma bancada repleta de equipamentos eletrônicos, com cabelos grisalhos desgrenhados e uma barba rala, ele trabalhava com uma concentração intensa. Era o Dr. Elias Vasconcelos.

Ele parecia ter notado a presença deles, mas não se virou imediatamente. Apenas continuou ajustando um fio fino com precisão cirúrgica.

"Dr. Vasconcelos?", Helena chamou, a voz um pouco trêmula.

O homem parou, o corpo rígido. Lentamente, virou-se. Seus olhos, por trás de óculos grossos, eram penetrantes, mas carregados de uma profunda melancolia. Havia uma cicatriz fina que cruzava sua sobrancelha esquerda.

"Quem são vocês? Como souberam deste lugar?", ele perguntou, a voz rouca, raramente usada.

"Meu nome é Helena Alencar. Este é Arthur. Sou filha de Eduardo Alencar", Helena disse, observando a reação do cientista.

A menção do nome de seu pai causou uma tensão imediata no ar. Dr. Vasconcelos fechou os olhos por um instante, como se revivesse uma dor antiga. Quando os abriu novamente, um lampejo de raiva e ressentimento cruzou seu olhar.

"Eduardo Alencar… Aquele homem destruiu minha carreira. Destruiu minha vida", ele disse, a voz embargada pela emoção contida.

"Nós sabemos, Dr. Vasconcelos. E é por isso que viemos. Precisamos da sua ajuda. Precisamos entender o que aconteceu com o Projeto Ômega. E sobre o meu irmão, Ricardo."

As palavras "Projeto Ômega" e "Ricardo" pareciam atingir o cientista em cheio. Ele suspirou, um som pesado que ecoou na sala. Caminhou lentamente até uma cadeira improvisada e sentou-se, os ombros curvados.

"Ricardo… O menino… Ele ainda está vivo?", o Dr. Vasconcelos perguntou, a voz cheia de uma esperança contida, quase dolorosa.

Helena e Arthur se entreolharam. A mãe de Helena dissera que ele desapareceu. Mas o fato de o Dr. Vasconcelos perguntar se ele estava vivo…

"Minha mãe disse que ele desapareceu há anos. Mas há algo que não me contaram", Helena explicou, a voz embargada. "Descobri nos arquivos do meu pai sobre o Projeto Ômega. Sobre os riscos, o desvio de fundos… E sua demissão. Por que você foi demitido, Dr. Vasconcelos?"

O cientista sorriu amargamente. "Demissão? Ele me expulsou como um cachorro. Eu vi o que aquele projeto se tornou. Vi a ambição de Eduardo Alencar cegando-o para os perigos. O Protocolo Ômega não era sobre avanço científico. Era sobre controle. Sobre criar algo que pudesse ser usado para manipular mentes, para controlar massas. Eu não podia concordar com isso. Eu tentei alertá-lo, mostrei os resultados dos testes, os riscos. Ele não quis ouvir. Me acusou de traição, de roubar informações. Mas a verdade é que ele queria silenciar a única pessoa que via o monstro que estava criando."

Ele se levantou e caminhou até uma estante improvisada, onde guardava pilhas de papéis e discos antigos. "E o seu irmão, Helena… Ricardo não desapareceu. Ele foi… envolvido no projeto. Por acidente. Ou talvez não. Seu pai o via como uma cobaia perfeita. Alguém que não levantaria suspeitas."

O mundo de Helena desmoronou. A imagem de Ricardo, o menino da foto, transformou-se em uma vítima. A dor era insuportável.

"Cobai… qual o quê?", Helena gaguejou, as lágrimas começando a se formar em seus olhos.

"Ricardo era um garoto curioso, não era? Sempre querendo saber o que os adultos faziam. Ele se intrometeu onde não devia. Entrou no laboratório, viu algo que não devia ter visto. E Eduardo… ele viu uma oportunidade. Ele me demitiu e, pouco tempo depois, houve um… incidente. Um experimento que deu terrivelmente errado. E Ricardo foi a vítima. Mas ao invés de admitir o erro, Eduardo encobriu tudo. Disse que ele havia desaparecido. Para proteger a si mesmo e à sua reputação. E para continuar com o Projeto Ômega, agora sem o escrúpulo de um cientista como eu."

O relato do Dr. Vasconcelos era devastador. A corrente invisível que Helena sentia a puxava para um abismo de dor e horror. Seu pai, o homem que ela admirava, era um monstro.

Arthur, visivelmente abalado, colocou uma mão no ombro de Helena. "Helena… eu sinto muito."

Helena, com os olhos marejados, mas uma determinação renovada, olhou para o Dr. Vasconcelos. "E o que aconteceu com o Projeto Ômega? Ele foi concluído?"

O cientista balançou a cabeça. "Não completamente. Eu consegui sabotar alguns dados cruciais antes de ser expulso. E o desvio de fundos que você encontrou nos arquivos… era para tentar recuperar o controle, para tentar destruir o projeto por dentro. Mas Eduardo era astuto. Ele continuou, provavelmente com outros investidores obscuros. A Aurora Tech, depois da morte de Eduardo, continuou o legado. Ou talvez alguém tenha herdado o controle. Eu me isolei aqui, monitorando qualquer atividade relacionada a esse projeto, tentando apagar qualquer rastro que pudesse ser usado novamente."

Ele pegou um dos discos rígidos antigos que estavam na bancada. "Este disco… ele contém tudo. Os planos originais do Projeto Ômega, os resultados dos testes, as provas do encobrimento de Eduardo Alencar, e talvez, apenas talvez, alguma pista sobre o que aconteceu com Ricardo após o incidente. Eu nunca tive coragem de olhar até o fim. Tinha medo do que poderia encontrar. Mas agora… agora que você está aqui, Helena… talvez juntos possamos encontrar a verdade."

O peso daquela revelação era avassalador. A corrente invisível que a ligava a Ricardo e a seu pai havia se tornado um laço de aço, apertando sua alma. Mas em meio à escuridão, uma pequena fagulha de esperança surgiu. A verdade, por mais dolorosa que fosse, estava ao alcance. E ela estava determinada a encontrá-la, mesmo que isso significasse confrontar os fantasmas mais sombrios de seu passado.

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