A Corrente Invisível

Capítulo 19 — O Deserto de Cinzas e o Fio da Conexão

por Thiago Barbosa

Capítulo 19 — O Deserto de Cinzas e o Fio da Conexão

O sol implacável do deserto castigava a paisagem, transformando a terra em um mar de areia e rocha ressequida. O ar vibrava com o calor, distorcendo as formas no horizonte e criando miragens enganosas. O jipe de Gabriel, resistente e barulhento, rasgava a monotonia daquele cenário desolador, levantando nuvens de poeira que se dissipavam lentamente no ar imóvel. Lia, com um lenço cobrindo o nariz e a boca, olhava pela janela, sentindo a aridez daquele lugar penetrar em seus ossos.

“Este é o primeiro local”, Gabriel disse, apontando para um aglomerado de formações rochosas escuras que se destacavam contra o céu azul intenso. “Um antigo posto de observação militar, abandonado há décadas. Seu pai sabia que seria um lugar seguro para esconder informações valiosas.”

Pararam o jipe a uma distância considerável das ruínas, para não levantar suspeitas. A caminhada até as rochas foi árdua, o calor escaldante e a falta de sombra tornavam cada passo um desafio. Lia sentiu a garganta seca e a pele queimando, mas a adrenalina da missão a impulsionava.

Ao se aproximarem, as ruínas revelaram-se mais imponentes. Muros de concreto rachados, janelas quebradas e a silhueta fantasmagórica de torres de observação. Um lugar que um dia foi um centro de atividade, agora era um cemitério de concreto e metal enferrujado.

“Ele mencionou algo sobre uma entrada secreta na biblioteca”, disse Gabriel, consultando o caderno de seu pai. “Uma biblioteca que ficava em uma das alas mais isoladas do posto.”

Exploraram as ruínas com cautela, os passos ecoando no silêncio opressivo. Encontraram a antiga biblioteca, um espaço cavernoso com estantes vazias e o cheiro de mofo impregnando o ar. Lia sentiu um arrepio, como se o próprio lugar guardasse os ecos de segredos perdidos.

Ela começou a inspecionar as estantes, procurando por alguma anomalia, alguma marca que pudesse indicar a entrada secreta. Gabriel a observava, seus olhos perscrutando cada canto, atento a qualquer sinal de perigo.

“Aqui!”, Lia exclamou de repente, apontando para uma estante de livros particularmente antiga e empoeirada. Atrás de alguns volumes esquecidos, havia uma pequena marca gravada na madeira, um símbolo que ela reconheceu do medalhão: a estrela dentro do labirinto.

Gabriel se aproximou. Ele empurrou a estante, que cedeu com um rangido, revelando uma passagem escura e estreita. O ar que emanava do interior era frio e estagnado.

“A entrada secreta”, Gabriel sussurrou, pegando uma lanterna potente. “Vamos lá.”

Desceram pela passagem, a luz da lanterna dançando pelas paredes úmidas e rochosas. A passagem se abriu em uma pequena câmara subterrânea. No centro, um cofre de metal robusto.

“Ele não brincava em serviço”, Gabriel comentou, admirado com a engenhosidade de seu amigo.

O cofre estava trancado. Lia pegou o caderno novamente, procurando por alguma pista sobre o código. Encontrou uma página com uma sequência de números e letras, cercada por desenhos de constelações.

“É um código astronômico”, Lia percebeu. “Ele sempre amou astronomia.”

Juntos, trabalharam para decifrar o código. Com a ajuda das coordenadas e da referência às estrelas, Gabriel conseguiu inserir a combinação correta. O cofre se abriu com um clique satisfatório.

Dentro, encontraram pilhas de documentos, mais pesquisas sobre o Projeto Aurora, e um pequeno dispositivo de armazenamento de dados com um selo da Ordem. Mas o que mais chamou a atenção de Lia foi uma pequena caixa de madeira polida. Ao abri-la, encontrou um álbum de fotos e uma carta.

As fotos eram de seu pai, mais jovem, sorrindo ao lado de outros cientistas, todos com um brilho de entusiasmo nos olhos. Havia fotos dele com a mãe de Lia, em momentos felizes, antes que a tragédia os separasse. E havia fotos dele com Gabriel, em pescarias, em viagens, momentos de cumplicidade que Lia nunca soube que existiam.

A carta era para ela. A letra de seu pai, agora familiar, preenchia as páginas. Ele falava de seu amor por ela, de seu arrependimento por ter se envolvido em algo tão perigoso, e de seu desejo de protegê-la. Ele explicava a importância do Projeto Aurora e o perigo que a Ordem representava. E ele expressava sua confiança em Gabriel, em sua lealdade e em sua capacidade de cuidar dela.

Lágrimas corriam pelo rosto de Lia enquanto ela lia, uma mistura de tristeza e de um orgulho profundo. Ela sentiu a conexão com seu pai mais forte do que nunca, uma corrente invisível que a ligava a ele através do tempo e da dor.

“Ele sabia que você o encontraria”, Gabriel disse suavemente, colocando a mão em seu ombro. “Ele sabia que você era forte o suficiente.”

Lia fechou a caixa de madeira, guardando as memórias preciosas. Ela olhou para o dispositivo de armazenamento com o selo da Ordem. “Eles também estiveram aqui. Ou pelo menos, sabiam que este lugar existia.”

Gabriel pegou o dispositivo. “Isso pode ser crucial. Se conseguirmos extrair as informações, podemos ter provas concretas contra eles.”

De repente, um som distante quebrou o silêncio. O rugido de motores se aproximando.

“Droga!”, Gabriel exclamou, olhando para a entrada da passagem. “Eles nos encontraram.”

O deserto de cinzas, que antes parecia um refúgio, agora se tornava uma armadilha. A corrente de conexão com o passado acabara de se tornar um fio tênue, e a ameaça da Ordem estava mais próxima do que nunca. A batalha pela verdade estava prestes a se tornar uma luta pela sobrevivência.

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