A Corrente Invisível
Capítulo 20 — A Emboscada no Crepúsculo e a Promessa de Retorno
por Thiago Barbosa
Capítulo 20 — A Emboscada no Crepúsculo e a Promessa de Retorno
O sol, prestes a se pôr, pintava o céu de tons alaranjados e avermelhados, lançando longas sombras sobre o deserto. A tranquilidade daquele cenário desolador foi brutalmente interrompida pelo som estrondoso de motores se aproximando, ecoando pelas formações rochosas como um prenúncio de tempestade. Gabriel e Lia saíram correndo da câmara subterrânea, a urgência estampada em seus rostos.
“São eles”, Gabriel disse, a voz tensa, enquanto olhava para a entrada da passagem. “Eles sabiam que estávamos aqui.”
Do lado de fora, dois jipes negros, com vidros escuros e um ar de ameaça, pararam a uma curta distância, bloqueando a saída. Homens armados, vestidos com uniformes escuros, desembarcaram com precisão militar, formando um cerco. A luz fraca do crepúsculo criava um ambiente sombrio, aumentando a sensação de perigo iminente.
Lia sentiu o coração bater descontroladamente em seu peito. O deserto, que parecia um lugar de segurança, havia se transformado em uma armadilha mortal. Ela agarrou a caixa de madeira com as memórias de seu pai, como se fosse um escudo contra a ameaça.
“Não temos para onde ir”, Lia disse, a voz embargada pelo medo.
Gabriel a puxou para perto, seu olhar firme e determinado. “Temos. O jipe está ali. Precisamos chegar até ele.”
Ele indicou o veículo de onde haviam descido, estacionado um pouco mais longe, mas ainda dentro do alcance dos homens da Ordem. A distância parecia um abismo intransponível.
“Vocês não vão a lugar nenhum”, uma voz fria e calculista ecoou pelo deserto. Um homem alto, com um semblante severo e olhos penetrantes, emergiu de um dos jipes. Ele usava um terno impecável, um contraste gritante com o ambiente hostil. Era o líder.
Gabriel deu um passo à frente, posicionando-se entre Lia e os homens. “Não sei quem você é, mas não vai nos impedir.”
O homem soltou uma risada seca e desprovida de humor. “Eu sou o agente Sombra. E você, meu caro Gabriel, deveria ter aprendido a lição. A Ordem não tolera curiosos. E você, garota, deveria ter ficado no seu canto. O legado do seu pai é perigoso demais para ser mexido.”
Agente Sombra. O nome parecia ecoar a escuridão que emanava dele. Lia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele homem era o rosto da Ordem, o arquiteto da escuridão que havia engolido seu pai.
“Meu pai era um homem de ciência, não de guerra”, Lia respondeu, a voz tremendo, mas com uma força crescente. “Ele queria um futuro melhor para todos.”
“Um futuro que a Ordem não pode permitir”, Sombra retrucou, um brilho de crueldade em seus olhos. “O Projeto Aurora é muito poderoso. E não pode cair nas mãos erradas.”
“As mãos erradas são as de vocês”, Gabriel disse, seus punhos cerrados. “Vocês querem controle, poder. Meu amigo queria progresso, esperança.”
Sombra deu um passo à frente, sua expressão endurecendo. “Temos as provas. O pendrive. Entreguem-no, e talvez vocês vivam para ver o amanhecer. Se não… o deserto se tornará seus túmulos.”
Gabriel olhou para Lia, um olhar de compreensão mútua. Eles não iriam ceder. A verdade que eles buscavam era mais valiosa do que suas próprias vidas.
“Nunca”, Lia disse, sua voz firme e clara, ecoando pelo deserto.
Foi o sinal. Os homens da Ordem abriram fogo. Gabriel empurrou Lia para trás, para a proteção das ruínas, enquanto ele revidava com sua arma. Tiros ecoavam pelo deserto, fragmentando o silêncio do crepúsculo.
Lia, com a caixa de memórias em mãos, correu em direção ao jipe. O caminho era arriscado, e ela sentia a adrenalina correr em suas veias. Cada passo era uma luta, cada som um prenúncio de perigo. Ela se abaixava atrás de rochas, esquivando-se dos tiros que zuniam ao seu redor.
Ela alcançou o jipe, abriu a porta do motorista e ligou o motor. O som do motor rugindo parecia uma declaração de guerra. Ela acelerou, o jipe sacudindo violentamente enquanto se afastava das ruínas.
Gabriel, vendo Lia em fuga, criou uma distração. Ele correu em direção a um dos jipes da Ordem, atirando com precisão, atraindo a atenção dos homens para si. Ele sabia que era uma aposta arriscada, mas era a única chance de Lia escapar.
Lia dirigiu o mais rápido que pôde, olhando para trás, para o caos que se desenrolava. Ela viu Gabriel cercado, mas lutando bravamente. Uma dor aguda apertou seu peito. Ela não podia deixá-lo.
Mas ela precisava honrar a promessa de seu pai. Precisava levar a verdade ao mundo. Com o coração partido, ela continuou dirigindo, o deserto se estendendo à sua frente, um mar infinito de areia e solidão.
Enquanto o último raio de sol desaparecia no horizonte, Lia dirigia em direção ao desconhecido, a caixa de memórias em seu colo, um fardo e uma esperança. Ela não sabia o que o futuro reservava, mas uma coisa era certa: a corrente invisível que a ligava ao seu pai e a Gabriel a impulsionava para frente. A promessa de vingança e de justiça ardia em seu coração. Ela voltaria. Ela encontraria uma maneira de expor a Ordem e de honrar o sacrifício de seu pai e de Gabriel. A luta pela verdade estava apenas começando.