A Corrente Invisível
Capítulo 4 — O Jantar Silencioso e a Sombra da Suspeita
por Thiago Barbosa
Capítulo 4 — O Jantar Silencioso e a Sombra da Suspeita
De volta ao apartamento em Ipanema, Helena sentia o ar rarefeito, carregado de uma tensão palpável. A chuva havia cessado, mas o céu permanecia nublado, prenunciando mais um final de tarde melancólico. Ricardo já estava em casa, sentado à mesa da sala de jantar, a postura tensa, o olhar fixo em um ponto vago da parede. O jantar estava servido: um salmão grelhado, acompanhado de aspargos e um risoto de limão siciliano, um prato que Helena costumava preparar com carinho, mas que hoje parecia insípido em sua boca.
"Boa noite", Helena disse, tentando soar o mais natural possível. Ela se sentou à mesa, evitando o olhar dele.
Ricardo a encarou por um instante, um leve franzir de testa em sua testa. "Boa noite. Onde você esteve?"
A pergunta, direta e sem rodeios, a pegou de surpresa. Ela havia planejado uma desculpa, mas a verdade, mesmo que parcial, parecia mais segura agora. "Fui dar uma volta. Precisava clarear a cabeça."
"Uma volta? Por quanto tempo?", ele insistiu, seus olhos azuis a perscrutando com uma intensidade que a fez sentir um arrepio. Ele sabia? Não, era impossível. O cofre estava trancado, a estante no lugar.
"Por algumas horas. Fui até a livraria. Comprei um livro novo." Helena pegou os talheres, seus dedos ligeiramente trêmulos. Ela se lembrou das palavras de Rafael: "Homens como Ricardo são desconfiados por natureza. Não demonstre nervosismo. Aja com naturalidade."
Ricardo voltou sua atenção para o prato, mas Helena sentiu que a vigilância dele não havia diminuído. "Alguma novidade?", ele perguntou, a voz casual, mas com uma ponta de algo mais. Curiosidade? Suspeita?
Helena se forçou a comer, o salmão seco em sua garganta. "Nada de mais. O trânsito estava complicado por causa da chuva. A cidade parece um caos às vezes." Ela tentava desviar o assunto, criar uma distração.
Ricardo deu um sorriso irônico. "A cidade é um caos, Helena. E as pessoas, também. Elas escondem muitas coisas."
O estômago de Helena se revirou. Ele estava falando sobre ela? Ou sobre si mesmo? A ambiguidade era torturante. Ela o observou, tentando ler em seu rosto algo que revelasse seus pensamentos. Mas Ricardo era um mestre em disfarçar suas emoções, em manter uma fachada de controle.
"Você parece pensativo hoje, Ricardo", Helena comentou, tentando manter o tom leve.
"Apenas refletindo sobre o negócio. Há muita gente desonesta por aí", ele respondeu, a voz baixa.
Helena sentiu um calafrio. A fraude. Ele estava se referindo à fraude? Ou era apenas uma coincidência? Ela tentou se lembrar do que Rafael dissera sobre os homens que cometem tais atos. Eles costumam projetar suas próprias culpas nos outros.
"O que te faz pensar isso?", Helena perguntou, sua curiosidade genuína, disfarçada de interesse casual.
Ricardo suspirou, pousando os talheres. "Uma proposta que recebi hoje. Um parceiro querendo me envolver em algo... arriscado. Negócios que não são transparentes." Ele a encarou, um brilho fugaz em seus olhos. "Eu disse a ele que não tenho interesse em transações duvidosas. Que prefiro trabalhar com honestidade."
Helena sentiu um nó na garganta. Ele estava mentindo. Ou estava testando-a? Era uma armadilha? Ela não podia revelar que sabia de seus esquemas. Não ainda.
"Isso é bom, Ricardo", Helena disse, sua voz tensa. "Honestidade é o melhor caminho. Sempre."
Ricardo a observou por um longo momento, como se estivesse procurando por uma falha em sua resposta. "Sim. Sempre." Ele voltou a pegar os talheres. "Você parece um pouco pálida, Helena. Está se sentindo bem?"
"Estou bem. Apenas cansada." Ela tentou se concentrar no risoto, mas o sabor desaparecera completamente. O jantar se arrastava em um silêncio constrangedor, pontuado apenas pelos sons dos talheres e pela respiração de ambos.
Helena sentia-se como uma equilibrista em uma corda bamba. De um lado, a verdade sobre Ricardo e sua fraude. Do outro, o risco de ser descoberta. A cada palavra trocada, ela sentia a teia de mentiras se apertando ao seu redor.
Quando o jantar terminou, Helena se levantou para recolher os pratos. Ricardo a segurou pelo braço, um gesto brusco que a fez sobressaltar.
"Helena", ele disse, sua voz baixa e rouca. "Há algo que você não está me contando."
O sangue gelou em suas veias. Ela o olhou nos olhos, tentando manter a calma. "O quê? Do que você está falando?"
"Você está diferente. Distante. Nervosa. Como se estivesse escondendo algo." Ele apertou levemente seu braço. "O que aconteceu hoje?"
Helena se libertou dele, seu coração disparado. "Nada, Ricardo. Eu já disse. Eu estou apenas cansada. E preocupada com você. Com o estresse do seu trabalho."
Ricardo a encarou por mais um instante, um misto de raiva e desconfiança em seu olhar. Então, ele a soltou. "Se houver algo, você deveria me contar. Somos um casal, não somos?"
A pergunta ecoou no silêncio, carregada de um sarcasmo amargo. "Somos?", Helena se perguntou em pensamento. A corrente invisível parecia se apertar em torno de seu pescoço. Ela sabia que ele suspeitava de algo, mas não tinha provas. E ela, agora, possuía provas irrefutáveis de suas transgressões.
Mais tarde, naquela noite, enquanto Ricardo dormia profundamente, Helena se dirigiu ao seu quarto, o pendrive em mãos. Ela precisava enviar as informações para Rafael. O jantar silencioso, as palavras ambíguas de Ricardo, a sombra da suspeita em seus olhos – tudo isso a impulsionava a agir. A corrente invisível era forte, mas a verdade, agora, era uma arma poderosa em suas mãos. E ela estava pronta para usá-la.