A Corrente Invisível

A Corrente Invisível

por Thiago Barbosa

A Corrente Invisível

Autor: Thiago Barbosa

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Capítulo 6 — O Perfume de Orquídeas e o Segredo Desenterrado

O cheiro de orquídeas, forte e quase sufocante, pairava no ar do apartamento de Helena. Era um perfume que costumava me trazer uma sensação de paz, de lar, mas agora, depois da conversa na noite anterior, parecia ter adquirido uma nuance sinistra. Cada pétala branca e delicada, cada folha verde lustrosa, parecia guardar um segredo, sussurrar uma verdade que eu ainda não conseguia decifrar completamente.

Eu observava Helena de longe, enquanto ela regava as plantas com uma delicadeza quase reverente. Seus cabelos escuros caíam em cascata sobre os ombros, emoldurando um rosto que, apesar da beleza inegável, agora carregava as marcas de uma tensão latente. Havia algo em seu olhar, uma melancolia profunda que se misturava com uma determinação silenciosa, que me dizia que a confissão da noite anterior fora apenas o começo.

"Você está quieto hoje", ela disse, sem se virar. Sua voz, melodiosa como sempre, parecia conter uma nota de cansaço.

Eu me aproximei, o carpete macio abafando meus passos. "Estou pensando", respondi, minha voz soando mais rouca do que eu pretendia. "Pensando em tudo o que você me contou."

Ela finalmente se virou, um leve sorriso brincando em seus lábios, mas seus olhos não acompanhavam o gesto. "E o que você pensa?"

Hesitei. Como traduzir o turbilhão de emoções que me consumiam? A surpresa, a dor, a confusão, e, admito, uma pontada de raiva que eu lutava para controlar. "Penso que a vida nos prega peças cruéis, Helena. E que, às vezes, as pessoas que mais amamos escondem de nós os seus maiores tormentos."

Ela suspirou, pousando o regador em um pequeno móvel de madeira envelhecida. "Não foi por maldade, Gabriel. Foi por medo."

"Medo de quê, Helena? Medo de me perder? Ou medo do que eu poderia fazer se soubesse a verdade?" A pergunta pairou no ar, carregada de uma acusação que eu não conseguia reprimir.

Ela deu um passo em minha direção, seus olhos buscando os meus. "Medo de te machucar. Medo de que essa verdade te destruísse como quase me destruiu."

A proximidade dela me desarmou. O perfume de orquídeas se intensificou, e por um instante, o mundo ao nosso redor pareceu desaparecer, restando apenas nós dois, envoltos em uma aura de dor compartilhada e incertezas.

"Mas você não escondeu a verdade de mim, Helena. Você escondeu de si mesma por muito tempo. E agora, essa verdade te assombra. E me assombra também."

Ela baixou o olhar, a vulnerabilidade em seu rosto me atingindo com força. "Eu não sei como seguir em frente, Gabriel. Sinto que estou presa em um labirinto, e a cada passo que dou, as paredes se fecham mais."

Segurei seu rosto entre minhas mãos, sentindo a maciez de sua pele, a pulsação fraca de suas veias. "Nós vamos encontrar a saída, Helena. Juntos." A promessa soou firme em meus ouvidos, um farol em meio à escuridão que nos cercava. "Mas para isso, precisamos desenterrar tudo. Precisamos entender quem é esse homem que te fez tanto mal e por que ele continua te ameaçando."

Seu corpo tremeu levemente sob meu toque. "Eu… eu não tenho certeza se consigo reviver tudo isso. É como abrir feridas antigas que nunca cicatrizaram."

"Eu estarei ao seu lado", sussurrei, minha voz embargada. "Não importa o quão doloroso seja."

Ela assentiu, um pequeno movimento que selou um pacto silencioso entre nós. Precisávamos de mais informações. A confissão de Helena sobre o passado em Belo Horizonte, sobre o relacionamento com um homem perigoso, era uma peça crucial, mas ainda faltavam as pontas soltas. O nome dele, o motivo da perseguição, tudo isso era um véu que precisávamos rasgar.

Decidimos que o melhor seria começar pela busca de documentos, qualquer coisa que pudesse nos dar pistas sobre esse homem. Helena me levou até o escritório de seu falecido pai, um lugar que ela raramente visitava, carregado de memórias e de uma atmosfera de abandono. A luz fraca que entrava pelas persianas sujas criava longas sombras que dançavam nas estantes repletas de livros empoeirados e pastas amareladas. O cheiro de papel velho e mofo era quase tangível.

"Meu pai guardava tudo", disse Helena, sua voz ressoando no silêncio do cômodo. "Ele era muito metódico, mas também muito reservado. Não sei se ele tinha algo a ver com isso, mas… ele pode ter guardado alguma coisa."

Passamos horas vasculhando. Caixas e caixas de documentos. Contratos, contas, cartas antigas. Cada papel era uma pequena cápsula do tempo, revelando fragmentos da vida de um homem que eu conheci pouco, mas que sempre respeitei. Helena se movia com uma agilidade surpreendente, sua familiaridade com o espaço contrastando com a relutância inicial. Era como se, ao tocar nesses objetos, ela estivesse revivendo parte de sua própria história.

Encontramos algumas cartas datadas de anos atrás, escritas em um papel com um timbre discreto, mas elegante. Eram dirigidas ao pai de Helena, e falavam de "negócios urgentes" e de "pendências financeiras". O tom era de cobrança, mas também de uma estranha familiaridade. Uma das cartas mencionava explicitamente um nome: "Alexandre Almeida".

"Alexandre Almeida…", repetiu Helena, franzindo a testa. "Eu não me lembro desse nome."

"Eu também não", confessei. Olhei para o timbre da carta. "Parece ser alguém com quem seu pai tinha uma relação de longa data. E pelo tom, talvez não fosse uma relação totalmente amistosa."

Continuamos a busca, a esperança se misturando com a apreensão. Então, em uma pasta pesada, enterrada no fundo de um armário, encontramos um dossiê. Era grossa, repleta de recortes de jornal, fotos e documentos policiais. A maioria dos recortes era antiga, falava de um empresário promissor que havia desaparecido misteriosamente em São Paulo, após um escândalo financeiro. O nome em todos os artigos: Alexandre Almeida.

As fotos eram intrigantes. Um homem jovem, de sorriso confiante, os olhos penetrantes e uma aura de poder. Em algumas, ele aparecia ao lado de figuras conhecidas no mundo dos negócios, em outras, em eventos sociais. Mas o que chamou nossa atenção foi um recorte de jornal de Belo Horizonte, de cerca de quinze anos atrás. A manchete era pequena, quase perdida na página, mas o conteúdo era chocante. Falava de um incidente em um clube noturno, onde um homem teria agredido uma jovem. A descrição da jovem era vaga, mas o detalhe que nos fez prender a respiração foi o nome do agressor: Alexandre Almeida.

Helena pegou o recorte, suas mãos tremendo. "Não pode ser…", ela sussurrou, seus olhos fixos na imagem borrada do jornal. "Esse homem… eu o reconheço."

O ar no escritório pareceu ficar mais denso. O silêncio se tornou ensurdecedor. A corrente invisível que nos ligava a esse passado sombrio estava começando a se materializar, e o nome de Alexandre Almeida, antes apenas uma sombra, agora ganhava contornos assustadoramente reais. O perfume de orquídeas, antes um símbolo de paz, agora parecia carregar o odor pungente da verdade desenterrada, uma verdade que prometia ser tão bela quanto perigosa.

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