A Fúria do Carrasco
Capítulo 4 — A Promessa de Lutas e Segredos
por Bruno Martins
Capítulo 4 — A Promessa de Lutas e Segredos
A porta se fechou com um baque surdo, selando o silêncio que Dante deixara para trás. Isadora permaneceu imóvel, o som da chuva agora parecendo um murmúrio distante em comparação com o estrondo que ecoava em sua mente. A caixa, com seus conteúdos sórdidos, repousava na mesa de centro como um altar macabro, cada documento uma peça de um quebra-cabeça que ela não desejava montar. A fotografia de Artur, seu jovem e ambicioso Artur, parecia zombar dela, um lembrete constante da fragilidade dos laços que ela acreditava serem indestrutíveis.
"Ele é um monstro", Isadora sussurrou para si mesma, a voz rouca, carregada de uma dor profunda. A imagem de seu marido, o homem com quem compartilhou anos de sua vida, desmoronava em sua mente, substituída pela figura de um criminoso, um assassino. A confissão de Dante, sobre a dívida de sangue, sobre a vingança, não era algo que ela pudesse simplesmente descartar. Havia uma verdade cruel em seus olhos, uma convicção que desarmava qualquer tentativa de negação.
Ela se sentou pesadamente em um dos sofás de couro, sentindo o frio da pele penetrar em seu vestido. Seus pensamentos giravam em torno de seus filhos, Lucas e Clara. A ideia de que o nome de seu pai pudesse ser manchado por crimes tão graves era insuportável. Eles estavam longe, protegidos da realidade sombria que agora a assombrava, mas por quanto tempo? Se Dante conseguisse o que queria, o escândalo seria inevitável.
A imagem do casarão, a opulência decadente, de repente pareceu opressiva, uma jaula dourada construída sobre alicerces de corrupção. Artur havia criado um império, mas à custa de quê? De vidas, de almas. E agora, a conta havia chegado.
Isadora olhou para a caixa novamente. Dante a havia acusado de saber onde encontrar mais provas, de conhecer os segredos de Artur. A casa de campo, o cofre… A revelação a chocou, mas uma parte dela, a parte que sempre sentiu que algo estava errado, que Artur escondia algo mais profundo, agora se abria para a possibilidade. Artur, em sua arrogância, poderia ter acreditado que a estava protegendo, ou talvez, apenas a manipulando para seus próprios fins.
"O que você fez, Artur?", ela murmurou, as lágrimas começando a rolar por seu rosto. Eram lágrimas de tristeza, de raiva, de desespero. Lágrimas de uma mulher que descobrira que a vida que levou era uma farsa.
De repente, um pensamento surgiu em sua mente, um vislumbre de esperança no meio da escuridão. O Dr. Ramiro Bastos. Seu advogado. Ele havia administrado os negócios de Artur por anos, e certamente sabia de muita coisa. Talvez ele pudesse oferecer alguma orientação, alguma saída.
Com as mãos ainda trêmulas, Isadora pegou o pesado telefone de discagem da mesa ao lado. Ela discou o número de Ramiro, o coração batendo acelerado a cada toque.
"Alô?", a voz sonolenta de Ramiro atendeu. Era tarde, muito tarde.
"Ramiro, sou eu, Isadora", ela disse, sua voz tensa. "Preciso falar com você urgentemente."
Houve uma pausa, e então a voz de Ramiro ganhou um tom de preocupação. "Dona Isadora? Aconteceu alguma coisa? São quase duas da manhã."
"Algo aconteceu", Isadora confirmou, a urgência em sua voz crescendo. "Alguém veio aqui esta noite. Um homem… ele disse que Artur lhe devia… dívidas de sangue. E ele quer provas."
O silêncio que se seguiu do outro lado da linha foi mais longo desta vez. Isadora podia quase sentir a mente de Ramiro trabalhando, tentando processar a informação. Ele conhecia Artur, conhecia seus negócios. Ele sabia que a história de Isadora, por mais chocante que fosse, poderia ter um fundo de verdade.
"Dívidas de sangue?", Ramiro finalmente disse, sua voz agora mais alerta. "Isso soa… grave. Quem era esse homem?"
"Ele se chamava Dante. E ele disse que Artur o arruinou, que ele veio para se vingar." Isadora sentiu um calafrio. A palavra "vingança" parecia pairar no ar, pesada e ameaçadora.
"Dante…", Ramiro murmurou, como se estivesse tentando se lembrar de algo. "Artur nunca mencionou nenhum Dante. Mas ele tinha muitos segredos, Dona Isadora. Segredos que eu mesmo tentei desvendar por anos, sem sucesso."
"Ele disse que Artur tinha uma casa de campo, um cofre com mais provas", Isadora continuou, a esperança de encontrar uma solução crescendo dentro dela. "Eu não sei onde fica, Ramiro. Mas preciso encontrar. Preciso entender o que Artur fez."
"Dona Isadora, eu… eu não sei o que dizer. Isso é muito sério. Dante… se ele é quem você diz, ele não é alguém para se brincar." A voz de Ramiro era grave, carregada de preocupação. "Artur sempre foi imprudente em seus negócios, mas nunca pensei que chegasse a este ponto. Assassinatos… isso é… devastador."
"Eu preciso de sua ajuda, Ramiro", Isadora implorou. "Eu não posso fazer isso sozinha. Eu preciso encontrar essas provas. Eu preciso… eu preciso fazer justiça. Pelo menos para limpar o nome dos meus filhos."
Houve outra pausa, mais profunda desta vez. Isadora sentiu a esperança diminuir. Talvez Ramiro fosse apenas um advogado, um homem de negócios. Talvez ele não quisesse se envolver em algo tão perigoso.
"Dona Isadora", Ramiro disse finalmente, sua voz firme e decidida. "Eu trabalhei com seu marido por muitos anos. E apesar de tudo, eu o respeitava. Se ele realmente cometeu esses crimes, ele precisa ser exposto. E se você está disposta a enfrentar essa verdade, eu estarei ao seu lado. Eu não posso prometer que será fácil. Mas eu farei o que estiver ao meu alcance para ajudá-la a encontrar essa casa de campo, esse cofre. E a verdade."
Um suspiro de alívio escapou dos lábios de Isadora. Ela não estava sozinha. Havia alguém que estava disposto a ajudá-la a desvendar o emaranhado de mentiras que Artur havia criado.
"Obrigada, Ramiro", ela disse, a voz embargada. "Muito obrigada."
"Agora, Dona Isadora, descanse. Amanhã cedo, começaremos a investigar. Mas tome cuidado. Esse Dante… ele parece ser um homem perigoso. E se ele estiver procurando por essas provas, ele não vai desistir facilmente."
A ligação foi encerrada, mas a promessa de luta e os segredos de Artur Valente pairavam no ar. Isadora sentiu um misto de medo e determinação. Ela não sabia o que o futuro lhe reservava, mas estava disposta a enfrentar o que viesse. A fúria do carrasco havia chegado, e ela, Isadora Valente, não seria apenas uma vítima passiva. Ela se tornaria a investigadora, a detentora da verdade, a mulher que desvendaria os segredos mais sombrios de seu próprio marido. A chuva lá fora podia continuar a cair, mas dentro do casarão, uma nova tempestade estava prestes a se formar. A tempestade da verdade.