A Ausência que Mata

Claro, aqui estão os capítulos iniciais de "A Ausência que Mata", no estilo solicitado:

por Bruno Martins

Claro, aqui estão os capítulos iniciais de "A Ausência que Mata", no estilo solicitado:

Capítulo 1 — O Vazio na Mansão Sombria

O sol de um fim de tarde de outono se esgueirava preguiçosamente entre as nuvens cinzentas que cobriam o céu de São Paulo, lançando uma luz melancólica sobre a imponente mansão dos Alencar. Era um daqueles dias em que a própria cidade parecia suspirar, como se compartilhasse o peso de um segredo guardado há décadas. Helena Alencar, com seus quarenta e poucos anos, sentia essa melancolia em cada fibra do seu ser. Ela caminhava pelos corredores silenciosos da mansão, um lugar que um dia fora repleto de risadas e de vida, mas que agora ecoava apenas o som dos seus próprios passos e o murmúrio do vento lá fora.

A mansão, uma relíquia arquitetônica com sua fachada de pedra escura e janelas altas e estreitas, parecia absorver a pouca luz que ousava penetrar. Cada móvel antigo, cada obra de arte delicada, cada tapete persa parecia carregar a marca indelével do tempo e da memória. Helena parou diante de um retrato a óleo do seu pai, o industrialista falecido, o patriarca implacável que construíra o império Alencar com mão de ferro e coração gelado. Os olhos do homem pintado a seguiam com a mesma intensidade fria de sempre, um lembrete constante da sombra que ele projetara sobre suas vidas.

"Pai," ela sussurrou, a voz embargada pela emoção contida. "O que você faria agora?"

A pergunta pairou no ar pesado e mofado da biblioteca, um espaço que cheirava a couro velho e a pó de histórias não contadas. Helena não esperava uma resposta, claro. Mas a solidão, essa companheira cruel que se instalara em sua vida desde a morte do marido, Arthur, há cinco anos, a levava a dialogar com fantasmas.

Arthur. O nome era uma pontada de dor aguda em seu peito. Ele fora a luz em sua vida, o homem que a fizera acreditar novamente no amor depois do casamento infeliz e frio com o filho de um sócio do pai, um homem a quem ela mal conhecia e com quem mal conseguia compartilhar o mesmo teto. Arthur, o artista de alma livre e sorriso cativante, que viera para a família Alencar como um furacão de paixão e ternura, transformando a fria Helena em uma mulher capaz de amar e ser amada com uma intensidade avassaladora. E então, ele se fora. Um acidente de carro, disseram. Um trágico e inexplicável acidente.

Helena sentiu os olhos marejarem. A dor ainda era tão vívida quanto no primeiro dia. Ela se afastou do retrato, buscando refúgio em outro cômodo, o salão principal, onde um piano de cauda negro permanecia intocado, um monumento silencioso às melodias que Arthur costumava criar. Ele passava horas ali, os dedos dançando sobre as teclas, compondo peças que capturavam a essência da alma humana, suas alegrias e suas dores mais profundas. Helena fechou os olhos, tentando evocar a imagem dele, o brilho nos olhos ao compartilhar uma nova melodia, o calor do abraço que sempre a fazia sentir segura.

"Por que você me deixou, Arthur?", ela perguntou ao vazio, a voz agora um lamento abafado. "Por que você me deixou sozinha com tudo isso?"

"Tudo isso" era a mansão, o império que ela herdara, as expectativas da sociedade, as pressões veladas da família de Arthur, que nunca a consideraram digna do seu filho. E, acima de tudo, era a ausência dele, um buraco negro que sugava toda a sua alegria e vitalidade.

A porta de madeira maciça do salão se abriu lentamente, quebrando o silêncio denso. Helena se virou abruptamente, o coração disparado. Era Sofia, sua governanta de confiança, uma mulher de poucas palavras e olhar atento, que a servia há mais de vinte anos. Sofia trazia uma bandeja com chá e biscoitos, um ritual que se repetia diariamente.

"Senhora Helena", Sofia disse com a voz baixa e respeitosa, mas com um tom de preocupação que não escapava à percepção de Helena. "A senhora tem estado muito reclusa ultimamente."

Helena forçou um sorriso. "Apenas pensativa, Sofia. O silêncio da casa às vezes me inspira."

"Mas não a inspira a comer, senhora", Sofia rebateu gentilmente, os olhos fixos no rosto pálido e magro de Helena. "A senhora precisa se cuidar."

Helena assentiu, resignada. Ela sabia que Sofia estava certa. A dor da perda a consumia, e ela se afogava em memórias, negligenciando sua própria saúde. Mas como ela poderia seguir em frente quando cada canto daquela mansão gritava o nome de Arthur?

"Onde está o Miguel?", Helena perguntou, mudando de assunto. Miguel era o seu filho, um adolescente de dezesseis anos, tão parecido com Arthur que às vezes era doloroso para Helena olhá-lo. Ele era o único raio de sol em sua vida, a única razão para continuar lutando.

"Ele saiu com os amigos, senhora. Disse que ia ao cinema", respondeu Sofia, enquanto arrumava a bandeja na mesinha de centro. "O rapaz anda muito agitado ultimamente."

Agitação. Helena compreendia. Miguel sentia a ausência do pai tanto quanto ela, talvez até mais, pois era um adolescente em formação, precisando da figura paterna para guiá-lo. Helena tentava preencher esse vazio, mas a dor a tornava uma mãe distante, perdida em seu próprio luto.

"Ele está diferente desde a semana passada, não é?", Helena comentou, enquanto pegava uma xícara de chá. "Você notou algo?"

Sofia hesitou por um instante, seus olhos densos carregados de uma incerteza incomum. "Ele anda… mais sério, senhora. E um pouco mais retraído."

"Retraído?", Helena franziu a testa. Miguel sempre fora um garoto sociável e alegre, um reflexo de Arthur. "E tem mais alguma coisa?"

Sofia olhou para o chão, como se buscasse as palavras certas. "Ele tem recebido… visitas. Pessoas que a senhora não conhece. Ele entra no escritório dele e fecha a porta. Não quer que ninguém saiba."

O estômago de Helena se revirou. Visitas desconhecidas? Miguel não falava nada a respeito. O que o seu filho, o reflexo de Arthur, estaria escondendo? Uma sensação de apreensão, algo sombrio e persistente, começou a se instalar nela. Era como se a mansão, com seus corredores sombrios e segredos empoeirados, estivesse prestes a revelar uma nova camada de mistério, uma que envolvia diretamente o seu filho e a memória do homem que ela amava.

"Pessoas desconhecidas?", Helena repetiu, a voz tensa. "Ele não me disse nada. E quem são essas pessoas, Sofia?"

"Não sei, senhora", Sofia respondeu, a voz baixa. "Ele as recebe quando a senhora está em seus aposentos, ou quando sai. Ele é muito discreto."

Helena pousou a xícara de chá. A tranquilidade que ela buscava na mansão parecia cada vez mais distante. A agitação de Miguel, as visitas secretas… tudo isso soava como um alarme. Era como se uma teia de aranha invisível estivesse se formando ao redor de sua família, prendendo-a em uma teia de incertezas e medos.

"Eu preciso falar com ele", Helena decidiu, levantando-se com uma determinação recém-descoberta. A dor do luto ainda estava presente, mas uma nova urgência começava a eclipsá-la: a necessidade de proteger seu filho.

"Senhora, talvez seja melhor dar um tempo a ele", Sofia sugeriu, mas Helena já estava a caminho do corredor que levava aos aposentos de Miguel.

O quarto de Miguel era um refúgio de adolescente, cheio de pôsteres de bandas de rock, livros espalhados e uma desordem organizada que contrastava com a formalidade do resto da mansão. Helena bateu na porta fechada.

"Miguel? Filho, podemos conversar?"

Nenhuma resposta.

"Miguel, abre a porta, por favor. É importante."

O silêncio continuou. Helena sentiu uma pontada de frustração. Ela tentou a maçaneta. Trancada. O coração dela afundou. Miguel, trancando a porta para ela?

"Miguel, o que está acontecendo?", ela chamou, a voz agora um pouco mais alta, tingida de apreensão. "Quem são aquelas pessoas?"

A porta se abriu de repente, revelando Miguel em pé, os olhos verdes, idênticos aos de Arthur, um misto de desafio e angústia. Ele usava uma camiseta preta de uma banda que Helena não reconhecia e parecia mais velho do que os seus dezesseis anos.

"Mãe, eu não quero falar sobre isso agora", ele disse, tentando fechar a porta novamente.

Helena segurou a porta com firmeza, impedindo que ele a fechasse. "Miguel, eu sou a sua mãe. Você não pode se trancar no seu quarto e receber visitas sem me contar nada. Quem são elas?"

Os olhos de Miguel se fixaram nos dela, e Helena viu algo ali que a assustou: uma escuridão que ela não via antes, uma sombra que parecia refletir a frieza de seu falecido sogro.

"Não são da sua conta, mãe", ele respondeu, a voz surpreendentemente dura. "Eles são meus amigos."

"Amigos que você esconde?", Helena insistiu, o desespero tomando conta. "Filho, você sabe que pode me contar qualquer coisa. Principalmente depois do que aconteceu com o seu pai. Se algo estiver te incomodando, por favor, fale comigo."

Miguel deu um passo para trás, como se as palavras dela o atingissem. Um lampejo de dor cruzou seu rosto, mas foi rapidamente substituído por um endurecimento.

"O meu pai se foi, mãe. E não há nada que você possa fazer para mudar isso", ele disse, e então, com um movimento rápido, ele se virou e entrou no quarto, fechando a porta novamente, desta vez com um clique decisivo.

Helena ficou parada no corredor, o coração pesado como uma pedra. A mansão, que antes era apenas um símbolo de sua solidão e dor, agora parecia um labirinto de segredos, e o seu próprio filho, a única luz em sua vida, estava se tornando parte de um mistério que ela não conseguia compreender. A ausência de Arthur era um fardo pesado, mas a ausência de confiança e a presença de segredos em seu próprio filho eram algo que a ameaçava ainda mais profundamente. Algo estava errado. Muito errado. E Helena sentia que as sombras que sempre pairaram sobre a mansão Alencar estavam prestes a se aprofundar, engolindo tudo em seu caminho.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%