A Ausência que Mata
Capítulo 2 — O Fantasma do Passado
por Bruno Martins
Capítulo 2 — O Fantasma do Passado
A porta do quarto de Miguel permaneceu fechada, um símbolo mudo da barreira que se erguia entre mãe e filho. Helena permaneceu ali por longos minutos, a mão ainda pousada na madeira fria, o eco das palavras duras de Miguel ressoando em seus ouvidos. "O meu pai se foi, mãe. E não há nada que você possa fazer para mudar isso." A frieza em sua voz, o olhar que ela nunca vira antes, a deixaram em estado de choque. Era como se uma parte do filho que ela conhecia e amava tivesse desaparecido, substituída por um estranho enigmático.
Retraída, ela voltou para a biblioteca, o santuário de seu pai, onde as paredes de livros pareciam guardar mais respostas do que as pessoas em sua vida. Sentou-se em uma poltrona de couro desgastado, o chá esquecido sobre a mesinha. A mansão, com sua grandiosidade e história, parecia mais sombria e opressora do que nunca. Cada sombra parecia dançar com os segredos não revelados, cada rangido do assoalho parecia um sussurro de advertência.
Helena pegou um antigo álbum de fotografias que estava sobre a mesa. As páginas amareladas revelavam um tempo antes da dor, um tempo em que Arthur estava vivo, em que Miguel era apenas um garotinho risonho, e em que a própria Helena se via refletida em um espelho de felicidade. Ela folheou as páginas, o coração apertado. Havia fotos de Arthur e ela em viagens, abraçados em frente a paisagens deslumbrantes. Havia Miguel, de mãos dadas com o pai, os dois sorrindo para a câmera. E havia o seu pai, o industrialista implacável, em algumas fotos, sempre com uma expressão séria, quase severa.
Mas havia uma foto que sempre a perturbava, uma que ela raramente olhava. Era uma foto do seu casamento, o evento que selara o seu destino infeliz com o filho do sócio de seu pai. Ela, jovem e radiante, mas com um olhar de apreensão nos olhos. Ao seu lado, um homem com um sorriso forçado, o olhar vazio. E mais atrás, o seu pai, ao lado de um outro homem, mais velho, com feições duras e um olhar que Helena nunca esqueceria: o olhar de Elias Vasconcelos, o rival de negócios de seu pai, um homem conhecido por sua astúcia implacável e por sua ambição desmedida.
Elias Vasconcelos. O nome era sinônimo de um capítulo obscuro na história da família Alencar. Havia boatos de uma rivalidade feroz entre ele e seu pai, uma disputa por poder e dinheiro que se estendera por anos. O casamento de Helena fora, de certa forma, uma tentativa de selar a paz entre os dois impérios, uma união forçada que a aprisionara em um pesadelo.
De repente, uma lembrança incômoda a assaltou. Elias Vasconcelos. Seria possível que ele tivesse alguma ligação com as visitas misteriosas de Miguel? Era um pensamento distante, quase absurdo. Elias era um homem de negócios, um homem de poder, não de atividades clandestinas com adolescentes. Mas a mente, quando assolada pela dor e pela incerteza, tende a buscar conexões onde elas podem não existir.
"Sofia", Helena chamou em voz alta, sua voz soando um pouco trêmula.
A governanta apareceu na porta, seus olhos atentos e curiosos. "Sim, senhora?"
"Você… você se lembra de Elias Vasconcelos?", Helena perguntou, sentindo um arrepio na espinha.
Sofia estreitou os olhos, como se vasculhasse memórias antigas. "Elias Vasconcelos… Sim, senhora. O rival do seu pai. O que teve aquela disputa acirrada anos atrás." Ela fez uma pausa. "Por que a senhora pergunta sobre ele?"
Helena hesitou, não sabendo como formular a pergunta. "Você sabe se ele tem algum… parentesco com alguém que Miguel possa conhecer?"
Sofia parecia confusa. "Parentesco? Não sei dizer, senhora. O Sr. Vasconcelos sempre foi uma figura… distante. Um homem de negócios sombrio." Ela se aproximou um pouco. "Mas por que essa pergunta, senhora Helena?"
"Miguel anda recebendo visitas. Pessoas que não conheço. E ele se recusa a falar sobre isso", Helena confessou, a angústia em sua voz evidente. "Eu me preocupo. Ele anda tão diferente."
Sofia suspirou, um som quase imperceptível. "Desde a morte do Sr. Arthur, o menino tem carregado um fardo pesado. A perda de um pai é algo devastador para um jovem. E a senhora… a senhora também tem estado fragilizada."
"Mas isso não justifica ele se fechar assim", Helena insistiu. "Ele disse palavras tão duras para mim. Como se ele não me conhecesse mais."
Sofia olhou para a janela, para o céu que escurecia. "Talvez ele esteja tentando lidar com isso à sua maneira, senhora. Adolescentes são… complexos. E o luto se manifesta de formas diferentes."
Helena sabia que Sofia estava tentando acalmá-la, mas a inquietação permanecia. Ela sentia que algo mais estava em jogo, algo mais sombrio do que a simples angústia de um adolescente. A imagem de Elias Vasconcelos, com seu olhar frio e calculista, pairava em sua mente.
Mais tarde naquela noite, enquanto Helena tentava encontrar o sono em sua cama espaçosa e solitária, um barulho no andar de baixo a fez acordar bruscamente. Um som abafado, como algo caindo, seguido por um silêncio pesado. Seu coração começou a bater descompassado. Será que era Miguel? Ela se levantou, vestiu um roupão e saiu do quarto, cautelosamente.
O corredor estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que entrava pelas janelas. Ela desceu as escadas devagar, cada passo um ruído na imensidão silenciosa da mansão. A origem do barulho parecia vir da sala de estar. Quando chegou à porta, ela a abriu um pouco, espiando para dentro.
A cena a deixou petrificada.
Miguel estava agachado no chão, perto de uma estante de livros. Ao seu lado, um vaso de porcelana quebrado em mil pedaços. Ele parecia estar recolhendo os cacos, os dedos manchados de sangue. Ele não a viu. Helena sentiu um nó na garganta.
"Miguel?", ela sussurrou, a voz trêmula.
Miguel se assustou, soltando um dos cacos com um tinido agudo. Ele se levantou rapidamente, o rosto pálido na penumbra.
"Mãe! O que você está fazendo aqui?", ele perguntou, a voz tensa.
"Ouvi um barulho. O que aconteceu?", Helena perguntou, aproximando-se dele com cautela. "Você se machucou?"
"Não, não foi nada", Miguel respondeu, escondendo as mãos atrás das costas. "Eu só… tropecei."
"Tropeçou?", Helena repetiu, olhando para o sangue em seus dedos. "Miguel, você está sangrando."
Miguel puxou a mão para frente, mostrando um corte superficial na palma. "É só um arranhão."
Helena o pegou pela mão, apesar de sua resistência. Ela o levou até uma poltrona e procurou por um kit de primeiros socorros. Enquanto limpava o corte e o enfaixava, ela o observou atentamente. Ele parecia agitado, seus olhos não encontravam os dela.
"Miguel, quem são aquelas pessoas?", ela perguntou novamente, a voz firme. "Por que você está escondendo as coisas de mim? O que está acontecendo nesta casa?"
Miguel retirou a mão dela, o olhar fixo em um ponto distante. "Não é nada, mãe. Você está imaginando coisas."
"Estou imaginando o quê, Miguel?", Helena insistiu, a voz aumentando de tom. "O seu comportamento estranho? As visitas secretas? O fato de você estar aqui, no meio da noite, quebrando vasos e se machucando?"
Miguel se levantou abruptamente, a frustração evidente em seu rosto. "Eu não preciso da sua supervisão constante, mãe! Eu não sou mais uma criança!"
"Você é o meu filho, Miguel! E me preocupo com você!", Helena respondeu, as lágrimas começando a se formar em seus olhos. "Desde que o seu pai se foi, você tem sido o meu único motivo para continuar. E agora você está se afastando de mim, se fechando em segredos."
Miguel a encarou por um momento, e por um instante Helena viu a dor em seus olhos, a mesma dor que ela sentia. Mas então, a máscara de frieza retornou.
"Talvez você esteja imaginando coisas porque não consegue lidar com a ausência dele", ele disse, as palavras cortantes como facas. "Você está tão presa ao passado que não vê o que está acontecendo agora."
E com isso, ele se virou e saiu da sala, deixando Helena sozinha com os cacos de porcelana, o sangue em suas mãos e a sensação avassaladora de que a ausência de Arthur não era o único fantasma que assombrava a mansão Alencar. Havia algo mais, algo que estava se infiltrando nas sombras, algo que ameaçava destruir a pouca paz que ela ainda conseguia encontrar. A frieza no olhar de Miguel, o mistério das visitas, a figura sombria de Elias Vasconcelos… tudo se misturava em um turbilhão de medo e incerteza. Ela sentia que estava à beira de descobrir um segredo terrível, um segredo que poderia mudar tudo o que ela pensava saber sobre sua família e sobre o passado. A ausência que a matava estava se tornando um prenúncio de algo ainda mais sombrio.