A Ausência que Mata
Capítulo 5 — O Refúgio à Beira-Mar
por Bruno Martins
Capítulo 5 — O Refúgio à Beira-Mar
A viagem até a casa de praia foi longa e repleta de apreensão. Helena dirigia com determinação, o envelope com as instruções de Marcos seguro em seu bolso. A cada quilômetro percorrido, ela sentia um misto de alívio por se afastar da atmosfera opressora da mansão Alencar e um temor crescente do que encontraria no ateliê de Arthur. A brisa do mar, que começava a se fazer sentir, trazia um cheiro salgado e uma promessa de liberdade, mas também a recordava do fim trágico que levara Arthur para longe dela.
O ateliê era uma construção rústica, de madeira escura, com grandes janelas voltadas para o oceano. Ao chegar, Helena sentiu um aperto no peito. Era ali que Arthur criara suas obras-primas, onde compartilhara com ela momentos de pura felicidade e inspiração. Agora, o lugar parecia silencioso e desolado, um santuário invadido pela melancolia.
Ela estacionou o carro e desceu, o som das ondas quebrando na praia quebrando o silêncio. A casa estava como Arthur a deixara, um pouco empoeirada, mas impecável em sua organização. A luz dourada do fim de tarde banhava o ambiente, criando uma atmosfera etérea. Helena respirou fundo, tentando absorver a energia do lugar, a presença de Arthur que parecia pairar em cada canto.
Seguindo as instruções de Marcos, ela se dirigiu à pequena biblioteca do ateliê. As estantes de livros, repletas de obras de arte, filosofia e poesia, pareciam testemunhas silenciosas de longas horas de reflexão e criação de Arthur. Helena percorreu os títulos, os dedos roçando as lombadas desgastadas. Ela sabia que o cofre estava escondido ali, mas onde exatamente?
Ela parou diante de uma estante que parecia particularmente antiga, com livros que pareciam nunca ter sido manuseados. Era a seção de arte clássica. Ela se lembrou de Arthur falando sobre a beleza da arte renascentista, sobre a genialidade de mestres como Leonardo da Vinci e Michelangelo. Ele sempre se inspirou nos grandes, buscando replicar sua paixão e sua técnica.
Helena começou a examinar os livros, procurando por algum detalhe incomum. Um volume sobre a Mona Lisa parecia um pouco deslocado em relação aos outros. Ela o puxou para fora. Atrás dele, havia uma pequena cavidade na parede, coberta por um painel disfarçado. Era ali.
Com as mãos trêmulas, Helena introduziu a data do primeiro encontro com Arthur no pequeno teclado numérico embutido na parede. DDMMYYYY. O som de um clique suave ecoou na biblioteca. O painel se abriu, revelando um pequeno cofre embutido na parede.
Dentro do cofre, havia uma pasta de couro preta e uma pequena caixa metálica. Helena pegou a pasta primeiro. Ao abri-la, seus olhos encontraram uma série de documentos: extratos bancários detalhados, cópias de e-mails comprometedores, gravações de conversas telefônicas e fotos que documentavam as transações ilícitas de Elias Vasconcelos. Havia também um relatório forense detalhado sobre a sabotagem do carro de Arthur, confirmando a presença de substâncias que causaram a falha mecânica. A documentação era irrefutável. Arthur havia reunido provas suficientes para incriminar Elias e seu sogro, Sr. Silva.
Com o coração acelerado, Helena abriu a pequena caixa metálica. Dentro, havia um pen drive e uma pequena chave. Ela conectou o pen drive ao seu notebook, que trouxera consigo. O conteúdo era ainda mais chocante. Havia vídeos de Elias Vasconcelos tramando seus planos, conversando com figuras sombrias e dando ordens para intimidar e silenciar aqueles que se opunham a ele. Havia também gravações de conversas entre Elias e Sr. Silva, discutindo a maneira de encobrir o crime e a forma de se apossar do império Alencar.
Em um dos vídeos, Elias falava diretamente para a câmera, com um sorriso cruel no rosto. "A fraqueza de Arthur era o amor que sentia por Helena. E a ambição de Silva o tornou um peão fácil. Em breve, tudo isso será meu. Sem resquícios."
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A crueldade de Elias era aterradora. Ela tinha em suas mãos a prova definitiva da culpa dele e de Sr. Silva. A justiça para Arthur estava ao seu alcance.
De repente, um barulho lá fora a fez sobressaltar. Um carro se aproximava. Helena rapidamente fechou o notebook e guardou os documentos na pasta. O som de passos na varanda a fez entrar em pânico. Ela se escondeu atrás de uma das estantes de livros, com o coração batendo descompassado.
A porta da frente se abriu com um rangido. Uma figura masculina entrou na sala, iluminada pela fraca luz do entardecer. Era Elias Vasconcelos. Ele estava acompanhado por dois homens corpulentos e de aparência ameaçadora.
"Onde está ela?", Elias perguntou, sua voz ecoando no silêncio. "Eu sei que ela veio aqui. Arthur sempre teve um fraco por este lugar."
Helena permaneceu imóvel, tentando controlar sua respiração. Ela sabia que estava em perigo. Arthur a havia alertado.
"Senhora Alencar", Elias continuou, como se pudesse sentir sua presença. "Não adianta se esconder. Eu sei que você encontrou as provas. Mas não se preocupe. Elas nunca chegarão a lugar nenhum."
Um dos homens de Elias se aproximou da estante onde Helena se escondia. Helena fechou os olhos, rezando para que ele não a encontrasse.
"Você está mexendo com o fogo, Helena", Elias disse, sua voz ficando mais próxima. "Arthur foi um tolo. E você herdou essa tolice. A ganância cega é perigosa."
De repente, um celular tocou. Era o de Elias. Ele atendeu, a voz fria. "Sim? O que aconteceu?"
Uma voz do outro lado da linha parecia alarmada. "Senhor Vasconcelos, o garoto. Ele… ele está na mansão. Ele invadiu o escritório e está mexendo em tudo. Ele parece ter descoberto algo."
Elias praguejou. "O garoto? Droga! Eu preciso ir até lá. Ele não pode mexer nas coisas do Sr. Silva. Preparem-se. Vamos."
Elias e seus homens saíram apressadamente do ateliê, deixando Helena sozinha no silêncio tenso. Ela esperou alguns minutos, certificando-se de que eles haviam partido. Seu coração ainda estava acelerado, mas o perigo imediato havia passado.
Miguel. Elias estava indo para a mansão por causa de Miguel. Helena sentiu uma pontada de orgulho pelo filho, e um medo terrível pelo que ele poderia enfrentar. Ela sabia que precisava agir rápido. As provas estavam com ela, mas Elias não desistiria facilmente.
Helena pegou a pasta com os documentos e o pen drive. Ela precisava sair dali e encontrar um lugar seguro. A casa de praia, que antes era um refúgio, agora parecia um campo minado. Ela pegou a chave metálica que encontrara no cofre e a guardou com cuidado. Talvez ela fosse importante.
Ao sair do ateliê, Helena olhou para o vasto oceano, as ondas batendo incessantemente na praia. Arthur estava em paz ali, em seu lugar favorito. Mas a paz dele havia sido roubada. E agora, Helena sentia que sua própria vida estava em perigo. Elias Vasconcelos a caçava. E ela precisava lutar, não apenas por Arthur, mas por Miguel, e por si mesma. A ausência que a matava estava começando a se transformar em uma força motriz, impulsionando-a para um confronto inevitável com as sombras que ameaçavam consumir sua família.