Cap. 11 / 21

O Contrato de Diva

O Contrato de Diva

por Fernanda Ribeiro

O Contrato de Diva Por Fernanda Ribeiro

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Capítulo 11 — O Legado em Jogo

O aroma amadeirado e caro do charuto de Dona Aurora pairava no ar pesado do escritório. A luz dourada do fim de tarde filtrava pelas persianas venezianas, pintando listras luminosas no mogno polido da imensa mesa de reunião. Aurora de Almeida Montenegro, a matriarca implacável e fundadora da Almeida Montenegro Holdings, observava seu neto, Ricardo, com um olhar que podia derreter aço. Ao seu lado, sentada em silêncio, mas com a postura impecável que a caracterizava, estava Helena. O contrato, com sua assinatura imponente, repousava entre eles, um pacto de papel que parecia carregar o peso de gerações.

"Ricardo", a voz de Dona Aurora era um sussurro áspero, tingido pela idade e pela autoridade inquestionável, "você prometeu. A família Almeida Montenegro tem um nome a zelar. E você, meu neto, parece ter se esquecido disso."

Ricardo, com os ombros tensos e o maxilar cerrado, desviou o olhar do contrato para a avó. Seus olhos azuis, geralmente tão expressivos, estavam agora turvos de uma frustração contida. "Vovó, eu sei o que prometi. Mas as circunstâncias mudaram. As condições… não são mais as mesmas."

"Circunstâncias?", Dona Aurora riu, um som seco e sem humor. "As únicas circunstâncias que importam são a honra, o dever e o futuro desta empresa. E você está colocando tudo isso em risco por… por um capricho!"

Helena permaneceu imóvel, o coração martelando no peito. A tensão naquela sala era palpável, densa como a fumaça do charuto. Ela se sentia uma intrusa naquele drama familiar, uma peça no tabuleiro de xadrez de Dona Aurora. Mas sabia que seu destino, e o de Ricardo, estava intrinsecamente ligado àquele documento.

"Não é um capricho, Vovó", Ricardo finalmente se pronunciou, a voz baixa, mas firme. "É… é a verdade. Eu não posso continuar com isso, pelo menos não nos termos que combinamos. Não agora."

Dona Aurora bateu as unhas polidas na mesa, um som agudo que cortou o silêncio. "Você se esqueceu de quem você é, Ricardo. Você é um Almeida Montenegro. E o que um Almeida Montenegro faz é honrar sua palavra. O que essa… senhorita", ela lançou um olhar gélido para Helena, "roubou de você? Sua memória? Sua dignidade?"

Ricardo se levantou abruptamente, o ranger da cadeira ecoando na sala. Ele caminhou até a janela, olhando para a cidade que se estendia abaixo, um mar de luzes começando a acender. "Não é nada disso, Vovó. É mais complicado." Ele se virou, o rosto iluminado pela luz fraca. "Você sempre quis que eu me casasse com alguém… adequada. Alguém que pudesse me ajudar a manter a Almeida Montenegro no topo. Alguém com… status."

"E você me trouxe uma cantora de ópera com um passado… duvidoso", Dona Aurora cuspiu as palavras, como se fossem veneno. "Não me diga que você se apaixonou por ela, Ricardo. Porque se for isso, você é mais tolo do que eu jamais imaginei."

As palavras de Dona Aurora atingiram Helena como um golpe físico. Ela sentiu o rosto corar, não de vergonha, mas de uma raiva crescente. Ela não era um objeto, nem um troféu. Era uma mulher, uma artista, com seus próprios sonhos e lutas.

Ricardo fechou os olhos por um instante, como se estivesse buscando forças. "Não é um caso de paixão, Vovó. É mais complexo. Helena tem qualidades que você nunca seria capaz de ver. E o contrato… o contrato foi feito sob premissas falsas."

"Premissas falsas?", a voz de Dona Aurora se elevou. "Explique-se, meu neto. Porque até onde eu sei, as premissas eram claras: você se casa com Helena, ela assume sua vida como minha neta adotiva, e em troca, você lhe dá estabilidade e a oportunidade de continuar sua carreira. E você se beneficiaria da imagem dela, da 'diva' que ela é, para limpar a imagem suja da nossa família depois daquele escândalo."

Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O "escândalo" que Dona Aurora mencionava era a razão pela qual ela estava ali. A empresa da família de Ricardo estava envolvida em um caso de fraude que abalou o mercado financeiro, e a imagem de um futuro casamento com uma artista respeitada seria a cortina de fumaça perfeita.

"O escândalo é real, Vovó. E a necessidade de uma imagem limpa também. Mas o que não é real é a minha disposição em me casar com alguém que eu não conheço, apenas para cumprir um acordo de negócios. Helena e eu… nós não nos conhecemos. Não há sentimento. E eu não posso forçar algo assim."

"Sentimento!", Dona Aurora bufou. "Você acha que eu me casei com seu avô por sentimento? Nós construímos um império, Ricardo! O sentimento é um luxo para os fracos. Você precisa ser forte. Você precisa fazer o que é preciso para a Almeida Montenegro."

Ricardo avançou, os punhos cerrados. "E o que é preciso, Vovó, é que eu pare de agir como um peão no seu jogo de poder. Eu não sou mais o garoto que você moldou. E eu não vou sacrificar minha felicidade, nem a dela, por essa empresa. Eu não vou me casar com Helena."

A declaração pairou no ar como uma sentença. Dona Aurora o encarou, seus olhos escuros brilhando com uma fúria contida. Ela se levantou lentamente, a figura imponente e frágil ao mesmo tempo, um monumento de poder e decadência.

"Se você não vai honrar o contrato, Ricardo", ela disse, a voz perigosamente baixa, "então você vai me desonrar. E a desonra para um Almeida Montenegro é algo que não pode ser tolerado. Você escolheu. E eu espero que você esteja pronto para as consequências."

Dona Aurora saiu da sala sem dizer mais uma palavra, deixando Ricardo e Helena em um silêncio carregado de incerteza. Helena olhou para Ricardo, a confusão e a dor misturadas em seus olhos. Ele parecia tão perdido quanto ela. O legado em jogo não era apenas o da família Almeida Montenegro, mas também o futuro de suas vidas, agora entrelaçadas por um contrato que parecia prestes a se despedaçar.

"Ricardo…" Helena sussurrou, a voz embargada.

Ele se virou para ela, o rosto pálido sob a luz fraca. "Eu sinto muito, Helena. Eu… eu não sei o que fazer."

A implacável Dona Aurora tinha jogado sua última carta. E agora, eles estavam sozinhos, no meio das ruínas de um acordo, com o destino pendurado por um fio. O que seria deles? O amor, a ambição, a vingança… tudo parecia se misturar naquela sala sombria, sob o peso de um legado que teimava em se impor. A cidade lá fora, com suas luzes cintilantes, parecia um mundo distante, onde as regras eram outras. Mas ali, naquele escritório, as regras de Dona Aurora ainda ditavam o ritmo, e a batalha pelo controle da Almeida Montenegro e de suas próprias vidas estava apenas começando.

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