O Contrato de Diva
Capítulo 12 — O Sabor Amargo da Verdade
por Fernanda Ribeiro
Capítulo 12 — O Sabor Amargo da Verdade
A porta do escritório se fechou com um clique suave, mas o eco da saída de Dona Aurora parecia reverberar no silêncio pesado que se instalara. Ricardo e Helena se olharam, um abismo de incertezas se abrindo entre eles. A luz dourada do fim de tarde já se esvaía, dando lugar a uma penumbra que parecia engolir os contornos luxuosos do ambiente. O aroma de charuto, antes opressor, agora parecia um vestígio de uma batalha travada e não resolvida.
Ricardo passou a mão pelos cabelos, um gesto de exaustão que parecia genuíno. Seus ombros, antes tensos de desafio, agora pareciam carregados com o peso de uma decisão difícil. Helena sentiu uma pontada de compaixão misturada à sua própria apreensão. Ela era a catalisadora daquele conflito, a faísca que acendera a pólvora.
"Ricardo", ela começou, a voz embargada pela emoção contida, "eu entendo. Você não é obrigado a nada. Se você não quer este casamento, eu… eu não posso te forçar."
Ele se virou bruscamente, o olhar fixo nela, intensamente. "Não é isso, Helena. Não é que eu não queira. É que… é que eu não posso mais fingir. Não com você. Não com ela." Ele deu um passo em direção a ela, e pela primeira vez, Helena sentiu que ele a via não como parte de um contrato, mas como uma pessoa. "Minha avó… ela é uma força da natureza. Ela moldou essa empresa, moldou a família. E ela acha que pode moldar tudo e todos. Mas eu não sou mais o Ricardo de antes."
A menção a "antes" pairava no ar. Helena sabia que havia um "antes" para Ricardo, um tempo antes do escândalo, antes da pressão da avó, antes do contrato. Um tempo em que ele talvez tivesse a liberdade de escolher seu próprio caminho.
"O que ela disse sobre mim… sobre o meu passado… e sobre a necessidade de limpar a imagem da família", Helena continuou, a voz mais firme agora, recuperando um pouco do seu ímpeto de diva. "Isso é verdade, não é? Eu sou a peça que vocês precisam para desviar a atenção."
Ricardo hesitou por um momento, o olhar desviando para o contrato sobre a mesa. "Sim. Era parte do plano. Um plano que eu… eu comecei a questionar no momento em que te conheci." Ele ergueu os olhos novamente, e neles, Helena viu um vislumbre de algo que a fez prender a respiração. "Eu vi você no palco. A paixão, a entrega. Eu vi uma artista. E eu vi uma mulher que, como eu, parecia estar presa a expectativas. Eu não queria te usar, Helena. Mas a minha avó viu uma oportunidade."
"E você… você acreditou que essa era a única maneira de me ajudar?", Helena perguntou, a voz suave. "De me dar a estabilidade que você acha que eu preciso para continuar minha carreira?"
"Eu… eu achei que era a única maneira de cumprir o acordo", Ricardo admitiu, a verdade dolorosa em sua voz. "E sim, eu queria te proteger. De tudo isso. Da minha avó, da imprensa, da mácula do escândalo." Ele suspirou. "Mas eu percebi que o meu plano, o plano dela, não era sobre proteger você. Era sobre controlar tudo. E eu não posso mais viver assim."
Helena sentiu um nó na garganta. A intensidade do olhar de Ricardo, a honestidade crua em suas palavras, tudo isso a afetava de uma maneira que ela não esperava. Ela se sentia… vulnerável. E pela primeira vez, a imagem de "diva" parecia uma armadura pesada demais para carregar.
"Eu não preciso ser protegida, Ricardo", ela disse, a voz um pouco mais forte. "Eu sei me defender. E eu não quero ser uma peça em um jogo de poder. Eu quero cantar. Eu quero viver minha vida. E se isso significa que o contrato tem que ser desfeito, então que seja."
Ricardo deu um passo para trás, como se a força das palavras dela o tivesse empurrado. "Mas e se… e se não for preciso desfazê-lo?"
Helena franziu a testa. "O que você quer dizer?"
"Eu quero dizer", ele se aproximou novamente, o olhar mais intenso do que nunca, "e se nós pudéssemos encontrar um outro caminho? Um caminho onde eu não tenha que me casar com você por obrigação, mas talvez… talvez por outra razão. E onde você não seja usada como uma ferramenta. Onde nós dois possamos ter o que queremos."
O coração de Helena disparou. A proposta de Ricardo, tão inesperada, tão ousada, a deixou sem ar. Ela o olhou, tentando decifrar a sinceridade em seus olhos. Ele parecia genuinamente confuso, mas também… esperançoso.
"Eu não entendo, Ricardo", ela sussurrou. "Que outra razão seria essa?"
Ele sorriu levemente, um sorriso que não alcançou seus olhos, mas que era um começo. "Eu não sei ainda. Talvez… talvez seja a necessidade de se rebelar contra o controle da minha avó. Talvez seja a curiosidade. Ou talvez… talvez seja algo mais."
Algo mais. A frase ecoou na mente de Helena. O que poderia ser esse "algo mais"? Ela sabia que Ricardo a achava atraente, que a admirava como artista. E ela… ela também se sentia atraída por ele. Pela sua força, pela sua vulnerabilidade escondida, pela sua luta interna. Mas seria isso suficiente para desafiar Dona Aurora e as convenções sociais?
"Ricardo, você sabe quem é sua avó", Helena disse, a voz tingida de cautela. "Se você desafiá-la, ela não vai deixar isso passar. Ela vai retaliar. E você sabe que ela tem os meios para isso."
"Eu sei", Ricardo concordou, a seriedade retornando ao seu rosto. "Mas eu não posso mais viver com medo dela. E eu não quero te prejudicar com essa minha rebeldia. Se o contrato for desfeito, ela vai se voltar contra você. Ela vai fazer de tudo para te arruinar. Para se vingar de mim."
Helena sentiu um arrepio de medo. A ameaça de Dona Aurora era real. A matriarca era conhecida por sua crueldade e pela sua capacidade de destruir reputações. Ela sabia que não era páreo para uma mulher como Dona Aurora, pelo menos não sozinha.
"Então o que você sugere?", Helena perguntou, a voz quase inaudível.
Ricardo pegou a mão dela, um gesto surpreendente. A pele dele estava quente, e a firmeza do seu aperto transmitia uma estranha segurança. "Eu sugiro que nós continuemos com o contrato. Por enquanto. Mas com uma diferença."
Helena o olhou, a expectativa crescendo em seu peito.
"Nós vamos fingir", Ricardo disse, o olhar fixo no dela. "Nós vamos fingir que estamos comprometidos, que o casamento vai acontecer. Nós vamos nos apresentar como o casal perfeito para a minha avó, para a imprensa, para todos. E enquanto isso… enquanto isso, nós vamos tentar entender o que é esse sentimento que parece nos unir. E vamos encontrar uma maneira de sair disso ilesos. Ambos."
Helena sentiu o mundo girar. Um plano audacioso, perigoso, mas… tentador. Seria uma dança nas cordas bambas, um jogo de aparências com riscos altíssimos. Mas, por outro lado, significava não ser descartada, não ser usada como um peão descartável. Significava, talvez, a chance de descobrir o que estava florescendo entre ela e Ricardo.
"Você quer… que nós encenemos um noivado?", Helena perguntou, as palavras saindo em um sussurro.
"Exatamente", Ricardo confirmou, um brilho nos olhos que Helena não conseguia decifrar completamente. "Uma encenação. Mas com uma possibilidade real por trás. Nós vamos dar uma chance a nós mesmos, Helena. Longe dos olhos da minha avó. Longe das expectativas. E se… se algo realmente acontecer entre nós, então nós teremos uma arma contra ela. Um amor verdadeiro. Algo que nem ela poderá destruir."
Helena apertou a mão de Ricardo. O toque dele era um convite para um risco calculado, para uma aposta no desconhecido. Ela pensou em sua carreira, em seu futuro, em sua própria dignidade. Ela pensou em Ricardo, em sua luta contra a avó, em sua aparente atração por ela. E, contra todas as probabilidades, sentiu uma faísca de esperança acender em seu peito.
"Eu… eu não sei se consigo, Ricardo", ela confessou, a voz trêmula. "É um risco enorme."
"Eu sei", ele disse, o aperto em sua mão se intensificando. "Mas eu acho que é um risco que vale a pena. E eu não quero passar por isso sozinho. E você também não."
O sabor amargo da verdade, da decepção, do medo, começava a se misturar com um gosto novo e inesperado: o do perigo, da aventura e, talvez, de um romance proibido. Helena olhou nos olhos de Ricardo, e em um momento de profunda decisão, um momento que mudaria o curso de suas vidas para sempre, ela assentiu.
"Tudo bem, Ricardo", ela sussurrou, a voz firme apesar do tremor interno. "Nós vamos encenar. Mas você tem que prometer que vamos encontrar uma saída. Para nós dois."
Um sorriso genuíno finalmente iluminou o rosto de Ricardo, um sorriso que prometia desafios, mas também a possibilidade de um futuro diferente. "Eu prometo, Helena. Nós vamos encontrar uma saída. Juntos."
E ali, no crepúsculo do escritório de Dona Aurora, um novo contrato estava sendo forjado, não em papel, mas em promessas sussurradas e olhares intensos. Um contrato de amor e intriga, cujo preço era a própria liberdade.