O Contrato de Diva
Capítulo 14 — Sombras do Passado e Fogo do Presente
por Fernanda Ribeiro
Capítulo 14 — Sombras do Passado e Fogo do Presente
O luxo do apartamento de Helena era um convite à tranquilidade, um refúgio contra as tempestades que assolavam suas vidas. No entanto, naquela manhã, a paz era uma ilusão distante. O café esfriava na xícara intocada, e o ar parecia pesado com as palavras não ditas, com os sentimentos recém-descobertos que ameaçavam desmoronar o frágil equilíbrio que haviam construído. A noite anterior, com sua intensidade inesperada, havia cruzado uma linha. A encenação de um amor fictício havia se transformado em um incêndio real, cujas chamas agora ameaçavam consumi-los.
Ricardo ainda a segurava em seus braços, o calor de seu corpo um contraste reconfortante com o frio da incerteza que ela sentia. "Eu… eu não sei o que aconteceu", ele murmurou novamente, a voz rouca, o olhar perdido. Era a confissão de um homem confrontado com algo que ele não esperava, algo que desafiava sua própria compreensão de si mesmo.
Helena se aconchegou em seu abraço, a cabeça recostada em seu peito, ouvindo a batida forte e regular de seu coração. Era real. O que eles sentiram, o que fizeram, era real. E isso era aterrorizante e excitante ao mesmo tempo. "Eu também não sei, Ricardo", ela respondeu, a voz um sussurro. "Mas o que faremos agora?"
A pergunta pairou no ar, carregada com o peso do futuro. A encenação, que deveria ser uma ferramenta para enganar Dona Aurora e a sociedade, agora se tornava um campo minado de emoções genuínas. A sedução forjada havia se tornado um fogo real, e as chamas ameaçavam consumi-los.
Ricardo a apertou um pouco mais. "Nós continuamos", ele disse, a voz firme, mas com um tom de resignação. "Mas agora… agora é diferente."
Diferente. Helena sabia que ele estava certo. A linha entre a ficção e a realidade havia se esvaído. A armadilha que eles haviam montado para capturar a aprovação de Dona Aurora agora os prendia em suas próprias teias de desejo e afeto.
"Diferente como?", Helena perguntou, erguendo a cabeça para encará-lo. O brilho em seus olhos azuis era uma mistura de conflito e uma fascinação crescente.
Ricardo hesitou, o olhar percorrendo o rosto dela. "Não sei exatamente. Mas eu não consigo mais fingir que você é apenas parte de um contrato, Helena. Eu não consigo mais ver você apenas como a moeda de troca para aplacar a minha avó." Ele deu um leve sorriso, um sorriso que não alcançava totalmente seus olhos, mas que era um começo. "Você… você me confunde. E eu não gosto de ser confundido."
Um riso suave escapou dos lábios de Helena, um riso que ela tentou reprimir. "Você me confunde também, Ricardo. Eu não sei mais onde termina a atuação e onde começa… o que quer que isso seja."
O celular de Ricardo tocou, quebrando a intimidade do momento. Ele pegou o aparelho, o rosto endurecendo ao ver o nome na tela. "É a minha avó."
Helena sentiu um calafrio. A sombra de Dona Aurora pairava sobre eles, mesmo nos momentos mais íntimos.
"O que ela quer?", Helena perguntou, a voz tensa.
Ricardo atendeu o telefone, a voz mais profissional agora, mas com uma leveza que sugeria que ele estava se acostumando com a mascarada. "Alô, Vovó. Sim, tudo ótimo. Helena e eu estamos… aproveitando nosso dia. O que? Um jantar de negócios? Com quem? Os Siqueira? Claro. Estaremos lá."
Ele desligou o telefone, o rosto sério. "Era a minha avó. Ela quer que nós jantemos com os Siqueira esta noite. Um jantar de negócios para selar a parceria que o escândalo quase arruinou. Ela quer que nós compareçamos como o casal perfeito. A imprensa estará lá, é claro."
O estômago de Helena revirou. Mais uma vez, eles seriam expostos, forçados a representar um papel diante de olhos observadores. "Eu… eu não sei se consigo, Ricardo. Eu me sinto… exposta. Como se tudo o que é meu estivesse sendo jogado para o público."
Ricardo se levantou, caminhando até a janela, a vista da cidade ensolarada parecendo cruelmente alheia à sua situação. "Eu sei. Mas nós prometemos. E eu não vou deixar minha avó, nem os Siqueira, perceberem que há alguma rachadura em nossa fachada." Ele se virou, o olhar fixo em Helena. "Você consegue, Helena. Você é uma diva. Você nasceu para isso."
As palavras dele, embora motivadas pela necessidade, trouxeram um estranho conforto. Ela era uma diva. E, talvez, ela pudesse usar essa força para navegar por essa tempestade. "Eu consigo", Helena respondeu, a voz firme. "Mas você tem que me prometer, Ricardo. Que depois disso tudo, vamos encontrar uma saída. Uma saída real. Para nós dois."
Ricardo assentiu. "Eu prometo. Mas hoje… hoje nós temos que ser impecáveis."
A noite chegou, trazendo consigo a opulência dos salões de evento. O Hotel Fasano, um ícone de sofisticação paulistana, abrigava o jantar. Helena escolheu um vestido deslumbrante, um tom de esmeralda que realçava seus olhos e sua pele pálida. Ricardo, em um impecável smoking, parecia a personificação do poder e da elegância.
Enquanto desciam a escadaria principal, os flashes das câmeras explodiram como fogos de artifício. Os olhares se voltaram para eles, um misto de admiração e curiosidade. Helena manteve a postura, um sorriso radiante no rosto, enquanto Ricardo a conduzia com um ar de possessividade que não passou despercebido.
Os Siqueira, um casal que emanava uma aura de riqueza e influência, os receberam com sorrisos polidos. A conversa fluiu, e Ricardo, com sua inteligência afiada, conduziu os negócios com maestria. Helena, por sua vez, encantava a todos com sua inteligência e seu charme, adicionando um toque de leveza e sofisticação à reunião.
Mas enquanto todos conversavam sobre cifras e parcerias, Helena sentia os olhares de Ricardo sobre ela. Não eram olhares de negócios, nem olhares de encenação. Eram olhares intensos, que a desnudavam, que a faziam sentir como se fossem os únicos ali. Em meio ao burburinho, seus olhos se encontraram, e por um instante, o mundo pareceu parar. Um desejo genuíno, um fogo que ardia em suas entranhas, atravessou a barreira da encenação.
De repente, uma figura familiar surgiu das sombras. Era Juliana, uma antiga colega de Helena, agora uma jornalista de fofoca conhecida por sua crueldade. Juliana se aproximou com um sorriso malicioso, o gravador em mãos.
"Helena, querida! Que surpresa te ver aqui, tão feliz ao lado do futuro marido", Juliana disse, a voz carregada de sarcasmo. "Ouvi dizer que o casamento está marcado para breve. Alguma data, talvez? Ou será que o herdeiro Almeida Montenegro está com pressa para apagar os rastros de um certo escândalo?"
O sangue de Helena gelou. A sombra do passado havia chegado para assombrá-los. Ricardo se colocou instintivamente entre Helena e Juliana, o corpo rígido de raiva.
"Juliana, acho que você está confundindo as coisas", Ricardo disse, a voz perigosamente calma. "Helena é minha noiva. E o nosso futuro não diz respeito a você."
"Ah, mas diz sim, Ricardo!", Juliana rebateu, o sorriso aumentando. "Principalmente quando se trata de um contrato de casamento que envolve a reputação da sua família. Dizem que ela até tentou se suicidar há alguns anos, não foi? Uma diva em crise. Será que ela está pronta para lidar com a pressão de ser uma Almeida Montenegro?"
As palavras de Juliana atingiram Helena como pedras. As memórias de seu passado turbulento, da época em que ela quase se perdeu na escuridão, vieram à tona. Ela sentiu as pernas fraquejarem. A encenação, o fogo do presente, tudo se misturava com as sombras do passado, ameaçando engoli-la.
Ricardo a segurou firmemente, o olhar fixo em Juliana com uma fúria contida. "Saia daqui, Juliana. Agora. Ou eu tomarei medidas legais para garantir que você nunca mais publique uma palavra sobre nós."
Juliana deu uma risada debochada. "Oh, que ameaça! Veremos quem tem mais poder aqui." Ela se afastou, mas não sem antes lançar um último olhar cínico para Helena. "Até breve, querida. E cuidado com as sombras."
O incidente deixou um rastro de constrangimento e raiva. Os convidados cochichavam, os olhares curiosos se voltavam para eles. Helena sentiu o rosto corar, uma mistura de vergonha e fúria.
Ricardo a puxou para um canto mais reservado do salão. "Você está bem?", ele perguntou, a preocupação genuína em sua voz.
Helena assentiu, respirando fundo. "Eu… eu estou bem. Obrigada."
Ricardo a envolveu em seus braços, um abraço protetor que a fez sentir segura em meio à tempestade. "Eu não vou deixar ninguém te machucar, Helena. Nem Juliana, nem minha avó, nem ninguém."
Naquele abraço, em meio às sombras do passado e ao fogo do presente, Helena sentiu a força do homem ao seu lado. Ele não era apenas um parceiro de encenação, mas alguém que estava disposto a lutar por ela.
O jantar continuou, mas a atmosfera havia mudado. A fachada de perfeição havia sido abalada, e a tensão era palpável. No entanto, algo mais havia surgido. Naquele momento de vulnerabilidade, na frente de todos, Ricardo havia demonstrado um lado protetor e genuíno. E Helena, em resposta, sentiu uma conexão mais profunda se formar entre eles.
Mais tarde, de volta ao apartamento de Helena, o silêncio era pesado. A adrenalina do evento havia diminuído, deixando para trás a melancolia e a incerteza.
"Eu odeio que ela tenha falado sobre isso", Helena sussurrou, a voz embargada. "Sobre… o passado."
Ricardo se aproximou, pegando as mãos dela. "Eu sei. Mas você superou isso. E agora você está aqui, mais forte do que nunca. E você tem a mim."
Helena olhou para ele, e pela primeira vez, viu não o herdeiro rico, nem o noivo encenado, mas um homem que estava ali por ela. "Eu… eu não sei o que seria de mim sem você, Ricardo", ela confessou, a voz trêmula.
Ele sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. "E eu não sei o que seria de mim sem você, Helena. Talvez essa encenação… talvez ela tenha nos levado a algo mais real do que imaginávamos."
Naquela noite, o fogo do presente parecia ter queimado as últimas cinzas da encenação. As sombras do passado haviam servido apenas para fortalecer a conexão que florescia entre eles. E Helena, pela primeira vez, sentiu que talvez, apenas talvez, houvesse esperança em meio a toda aquela confusão.