O Contrato de Diva

Capítulo 4 — O Legado e a Ferida

por Fernanda Ribeiro

Capítulo 4 — O Legado e a Ferida

A noite em que Arthur Montenegro mencionou a figura misteriosa de seu passado pairou sobre Isabela como uma névoa persistente. Ela sentia a curiosidade corroê-la, a necessidade de entender a conexão que ele vislumbrava entre ela e essa pessoa desconhecida. Ela era agora uma observadora privilegiada do mundo de Arthur, e as peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar, revelando um homem de ambições avassaladoras, mas também de feridas profundas.

Em sua editora, as coisas iam de vento em popa. Com o capital de Arthur, ela pôde contratar novos funcionários, investir em marketing e, o mais importante, publicar livros que antes eram apenas sonhos em papel. A primeira leva de lançamentos foi um sucesso, e os autores, antes desconhecidos, começavam a ganhar reconhecimento. Isabela se sentia realizada, mas a constante presença de Arthur em sua vida profissional, e a crescente intensidade em suas interações, a mantinha em um estado de alerta.

Um dia, Miguel a informou que Arthur desejava que ela o acompanhasse a uma galeria de arte no centro do Rio. "É sobre um projeto que ele está considerando", disse Miguel, com seu tom habitual de discrição.

A galeria era um espaço moderno e minimalista, com obras de artistas contemporâneos expostas em paredes brancas. Arthur a esperava em frente a uma tela vibrante, seus olhos escuros fixos na pintura. Ele vestia um terno casual, mas elegante, e emanava uma aura de autoridade que parecia envolver todo o ambiente.

"Senhorita Vasconcelos", disse ele, virando-se para ela com um leve sorriso. "Que bom que veio."

"Senhor Montenegro", respondeu Isabela, olhando para a obra. Era uma pintura abstrata, cheia de cores fortes e texturas. "É impressionante."

"Sim", concordou Arthur, aproximando-se dela. "Este artista tem um talento bruto. E uma história interessante." Ele fez uma pausa. "A história me lembra de alguém."

Isabela sentiu o coração acelerar. Era a deixa que ela esperava. "Uma história sobre o quê, senhor Montenegro?"

Arthur a olhou nos olhos, e pela primeira vez, ela viu uma sombra de dor em seu olhar. "Uma história sobre a luta pela expressão. Sobre a necessidade de criar, mesmo quando o mundo parece querer silenciá-la. Sobre uma jovem que acreditava que sua arte poderia mudar o mundo."

Ele se virou novamente para a tela, como se revivesse um momento passado. "Essa artista, chamada Aurora, desapareceu anos atrás. Ninguém soube o que aconteceu com ela. Mas sua arte... sua arte permaneceu. E eu me lembro dela. Lembro-me de como ela era apaixonada, de como ela via beleza nas coisas mais simples."

Isabela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aurora. O nome da fundação de Arthur. O nome que ela havia ouvido sussurrado em alguns círculos mais antigos.

"Aurora...", murmurou Isabela. "Eu acho que já ouvi esse nome antes."

Arthur a observou com intensidade. "Talvez você tenha ouvido falar da Fundação Aurora. Eu a criei em homenagem a ela. Mas, com o tempo, meu trabalho se tornou mais focado nos negócios. E a arte, e as histórias... ficaram em segundo plano."

Ele fez uma pausa, e a atmosfera na galeria pareceu mudar, tornando-se mais íntima, mais carregada de emoção. "Você, senhorita Vasconcelos, me lembra dela. Não apenas pela sua paixão e determinação, mas pela forma como você fala sobre as histórias. Pelo brilho em seus olhos quando você descobre um novo talento. Pelo desejo de dar voz àqueles que não a têm."

Isabela sentiu seu peito apertar. Ela estava sendo comparada a essa misteriosa Aurora. Uma artista que desapareceu, que inspirou uma fundação.

"Eu sou apenas uma editora, senhor Montenegro", disse ela, tentando manter a voz firme. "Eu não tenho o talento de uma artista."

"Talento se manifesta de diversas formas, senhorita Vasconcelos", respondeu Arthur, aproximando-se dela. O perfume amadeirado de sua colônia a envolveu, criando uma bolha de intimidade. "Você tem o talento de encontrar histórias. De nutrir talentos. De dar vida a palavras que, de outra forma, permaneceriam esquecidas."

Ele a encarou, seus olhos escuros profundos e intensos. "Aurora acreditava que cada livro, cada obra de arte, era uma janela para a alma. E você, Isabela, você é uma porta para muitas almas. E eu quero ver o que há do outro lado."

A forma como ele a chamou pelo primeiro nome a pegou de surpresa. A intimidade repentina a desarmou.

"Senhor Montenegro...", ela começou, a voz um pouco trêmula.

"Arthur", ele a corrigiu suavemente. "Por favor. Se vamos compartilhar histórias, precisamos nos tratar como pessoas, não como cifras em um contrato."

Isabela sentiu um misto de alívio e apreensão. O profissionalismo se desfazia, dando lugar a algo mais pessoal, mais arriscado.

"Arthur", ela repetiu, a palavra soando estranha em seus lábios.

Um leve sorriso curvou seus lábios. "Isso é um começo. Agora, sobre este projeto..."

Arthur passou as próximas horas explicando seus planos para revitalizar a Fundação Aurora, focando em apoiar jovens artistas e escritores que lutavam para se destacar. Ele queria que Isabela fosse uma peça central nesse novo empreendimento, usando sua experiência em editoração para identificar talentos literários e sua paixão por histórias para inspirar novos criadores.

Enquanto ele falava, Isabela percebeu que aquele era o verdadeiro motivo pelo qual ele a havia contratado. Não era apenas o dinheiro, ou a colaboração profissional. Era a busca por um eco de Aurora em sua própria vida, uma tentativa de reacender a chama que ele havia deixado apagar.

"Eu não posso prometer que sou como Aurora", disse Isabela, após Arthur terminar sua explicação. "Mas eu posso prometer que farei o meu melhor. Que darei a ela e aos novos talentos a mesma paixão e dedicação que tenho pela minha editora."

Arthur a olhou com um brilho nos olhos. "Eu sei que você fará. E isso, Isabela, é tudo o que importa."

Nos dias seguintes, Isabela se viu cada vez mais envolvida com o renascimento da Fundação Aurora. Ela passava horas pesquisando artistas e escritores emergentes, lendo manuscritos, organizando eventos de lançamento. Arthur a apoiava em cada passo, oferecendo recursos e orientação, mas também permitindo que ela tomasse as rédeas.

Uma tarde, enquanto revisava alguns documentos antigos da fundação, Isabela encontrou uma caixa empoeirada em um armário. Dentro, havia fotos e cartas de Aurora. Ela viu o rosto de uma jovem vibrante, cheia de vida e criatividade. E encontrou uma carta escrita por Arthur para Aurora, datada de anos atrás, cheia de promessas e declarações de amor. A carta revelava a profundidade do relacionamento deles, e o impacto devastador que o desaparecimento de Aurora teve sobre Arthur.

Com o coração apertado, Isabela percebeu a verdadeira natureza da ferida de Arthur. Ele não estava apenas investindo em arte e literatura; ele estava buscando uma forma de honrar o legado de alguém que amou profundamente, e talvez, de encontrar uma paz que há muito o fugia.

Naquela noite, ela decidiu confrontá-lo. Quando Arthur entrou em seu escritório, como fazia com frequência, ela o esperava com a carta em mãos.

"Arthur", disse ela, sua voz firme. "Eu encontrei isso."

Ele olhou para a carta, seu rosto pálido. Um silêncio pesado se instalou entre eles.

"Aurora...", murmurou ele, a voz embargada. "Eu não sabia que você havia encontrado isso."

"Você a amava muito", disse Isabela, suavemente.

Arthur assentiu, seus olhos fixos na carta. "Mais do que a mim mesmo. Ela era minha luz, minha inspiração. E quando ela desapareceu... foi como se meu mundo tivesse desmoronado."

Ele olhou para Isabela, e pela primeira vez, ela viu a dor crua em seus olhos, uma dor que ele vinha escondendo por anos. "Você me lembra dela, Isabela. Não pela aparência, mas pela alma. Pela forma como você abraça a vida, mesmo quando ela te desafia. Pela sua paixão por histórias."

Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, seus dedos frios contrastando com a pele quente de Isabela. "Eu não estou procurando substituí-la. Nunca poderia. Mas talvez... talvez você possa me ajudar a encontrar um caminho de volta para a luz. E, talvez, para mim mesmo."

Isabela sentiu uma onda de compaixão por aquele homem que parecia tão invencível, mas que carregava um fardo tão pesado. Ela sabia que aquele momento era crucial. Ela tinha a escolha de se afastar, de se fechar em sua própria vida, ou de se permitir ser tocada pela dor dele, de oferecer um ombro amigo, uma escuta atenta.

Ela fechou os olhos por um instante, sentindo a força do toque dele. E quando os abriu, viu em seus olhos a esperança que ele depositava nela.

"Eu não sei se posso te salvar, Arthur", disse ela, sua voz suave, mas firme. "Mas eu posso tentar. Posso compartilhar suas histórias. Posso te ouvir. E posso te lembrar que, mesmo nas sombras mais profundas, ainda existe a possibilidade de uma nova história começar."

Arthur a puxou para perto, e naquele abraço, envolto em fragrâncias de café e perfume amadeirado, Isabela sentiu que estava entrando em um território desconhecido. Um território onde o amor, a perda e as histórias se entrelaçavam de forma indissolúvel, moldando não apenas o passado de Arthur, mas também o futuro de ambos. A ferida de Aurora estava aberta, mas talvez, apenas talvez, a paixão de Isabela pudesse ser o bálsamo que ele tanto precisava.

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