O Preço do Amor de Luxo
Capítulo 19 — A Armadilha e o Desespero de um Canto de Sereia
por Larissa Gomes
Capítulo 19 — A Armadilha e o Desespero de um Canto de Sereia
A madrugada avançava, e o silêncio da metrópole era quebrado apenas pelo som distante das sirenes e pelo latido de um cachorro solitário. Helena não conseguia dormir. As revelações sobre Arthur Silva e o segredo de sua mãe a assombravam como espectros indesejados. A imagem de sua mãe, a quem ela tanto idolatrava, agora manchada por um amor oculto e uma possível cumplicidade em um passado sombrio, a perturbava profundamente.
Miguel, sentindo sua inquietação, mandou uma mensagem: "Não consigo dormir. Precisa de algo?"
Helena respondeu imediatamente: "Você também não consegue, né? Queria que tudo isso fosse um pesadelo."
Pouco depois, um toque suave na porta a surpreendeu. Era Miguel, com um ramo de jasmim no braço e um olhar de profunda preocupação. Ele entrou, o cheiro das flores preenchendo o ambiente.
"Não podia te deixar sozinha com seus pensamentos. E eu tenho algo que pode ajudar." Ele tirou de dentro do paletó um celular mais antigo, sem identificação de chip. "Um dos meus contatos, alguém que trabalhou para Ricardo em seus primeiros anos, me deu isso. Disse que Ricardo costumava usar telefones descartáveis para assuntos delicados. Este aqui foi rastreado e apreendido em uma antiga batida policial que nunca veio a público. Ele pode ter informações cruciais."
Helena pegou o celular com as mãos trêmulas. Era como segurar um pedaço do passado sombrio de Ricardo. "E você acha que tem algo nele?"
"É uma possibilidade. Ele usava esses telefones para se comunicar com pessoas que não queria que fossem rastreadas. Pode haver registros de conversas, números, talvez até mensagens. Mas para acessá-los, precisamos de um especialista. Alguém que não deixe rastros."
"O jornalista que te ajudei antes. Ele conhece um hacker excelente. Talvez possamos pedir ajuda a ele."
"É uma boa ideia. Mas precisamos fazer isso com extremo sigilo. Se Ricardo souber que temos este telefone, ele vai fazer de tudo para recuperá-lo."
Enquanto o sol nascia, pintando o céu de tons de esperança, Helena e Miguel se dirigiram ao local discreto onde o jornalista, Carlos, os aguardava. Carlos, um homem de meia-idade com um olhar perspicaz, recebeu o celular com um misto de curiosidade e receio.
"Um presente de um admirador secreto, não é?" ele brincou, tentando aliviar a tensão.
"Algo assim, Carlos. Precisamos que você e seu contato o examinem. Precisamos de tudo que estiver lá dentro." Helena explicou a urgência.
Carlos assentiu, compreendendo a gravidade da situação. "Farei o meu melhor. Mas lembrem-se, o mundo de Ricardo Montenegro é perigoso. E quem se aproxima demais pode se queimar."
De volta ao apartamento, Helena não conseguia parar de pensar em Arthur Silva. A paixão de sua mãe por ele, a forma como Ricardo o destruiu... Tudo se encaixava em um padrão de crueldade e manipulação. Ela decidiu que precisava ir até a antiga casa de Arthur Silva. Talvez lá, entre os pertences esquecidos, encontrasse alguma pista sobre seu paradeiro, ou sobre o que realmente aconteceu.
Miguel tentou dissuadi-la. "Helena, é muito arriscado. Se Ricardo souber que você está investigando o passado de Arthur, ele pode te ver como uma ameaça direta."
"Eu sei, Miguel. Mas não posso mais viver com essa dúvida. Preciso saber a verdade. Por minha mãe, por mim. E talvez, apenas talvez, por Arthur Silva." Ela o olhou, a determinação brilhando em seus olhos. "Você vem comigo?"
Miguel suspirou, sabendo que não conseguiria fazê-la desistir. "Claro que sim. Sempre."
A casa de Arthur Silva ficava em um bairro afastado, um lugar outrora próspero, mas agora decadente. A propriedade estava abandonada há anos, o jardim tomado pelo mato e as janelas empoeiradas. Ao entrarem, o cheiro de mofo e poeira os recebeu. O lugar parecia congelado no tempo, como se o drama que ali aconteceu tivesse deixado uma marca indelével.
Enquanto vasculhavam os cômodos, Helena encontrou um álbum de fotografias antigo. Nele, imagens de sua mãe, jovem e sorridente, ao lado de um homem que ela não reconhecia. Era Arthur Silva. A cumplicidade e o carinho entre eles eram evidentes em cada foto. Em uma das imagens, sua mãe usava um colar com um pingente em forma de jasmim, exatamente o mesmo que Helena usava agora.
"Miguel... este colar..." Helena mostrou o colar em seu pescoço. "Minha mãe me deu. Disse que era da avó dela. Mas agora..."
Miguel pegou o colar, observando-o com atenção. "Isso é uma prova. Um elo entre o seu passado e o de Arthur. Ele não era apenas um sócio arruinado, ele era algo mais para sua mãe."
Em outra foto, sua mãe e Arthur estavam abraçados, felizes, em frente a um piano. Havia uma serenidade em seus rostos que Helena nunca vira em sua mãe, nem mesmo ao lado de seu pai. Uma onda de emoção a atingiu. O amor de sua mãe por Arthur era real, profundo.
De repente, um barulho na rua os alertou. Carros se aproximando. As luzes fortes iluminaram as janelas empoeiradas.
"Ricardo!", exclamou Miguel, puxando Helena para trás de um móvel. "Ele sabia que viríamos aqui!"
Homens armados invadiram a casa, com a mesma brutalidade fria que Helena já havia presenciado. Ricardo Montenegro apareceu, o sorriso cruel estampado no rosto.
"Ora, ora, Helena. Veio revisitar as memórias de quem você deveria ter esquecido? Que tolo você é." Ricardo riu, aproximando-se de Helena. "Você não aprendeu nada, não é? Que o passado é um lugar perigoso para se mexer."
"Você não tem o direito de me ameaçar!", Helena retrucou, a voz tremendo de raiva e medo.
"Eu tenho o direito de proteger o meu império. E você, minha querida, está se tornando um grande obstáculo." Ricardo fez um sinal para seus homens. "Peguem as provas que ela tem, e se ela resistir, o problema é de vocês."
Miguel se colocou à frente de Helena, pronto para defender. "Não toque nela, Ricardo!"
Um confronto violento se seguiu. Tiros ecoaram pela casa abandonada, quebrando o silêncio do passado. Helena, em meio ao caos, viu Ricardo se aproximar dela, com a intenção de tomar as fotos e qualquer outro documento que ela pudesse ter. Em um ato de desespero, ela o empurrou, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse em direção a um buraco no chão, uma antiga adega que não estava coberta.
Ricardo gritou enquanto caía na escuridão. Os homens de Ricardo, surpresos, hesitaram por um momento. Miguel aproveitou a oportunidade. "Helena, vamos! Agora!"
Eles correram para fora da casa, os sons do confronto e os gritos de Ricardo ecoando atrás deles. Ao saírem, viram um carro preto partindo em alta velocidade, um sinal de que talvez Ricardo tivesse sido resgatado, ou talvez fosse uma armadilha.
Dentro do carro, enquanto se afastavam da casa abandonada, Helena olhou para Miguel, o coração disparado. Ela havia enfrentado Ricardo, havia descoberto segredos que a abalavam, e havia, de alguma forma, sobrevivido. Mas a sensação de perigo iminente não a deixava. O jogo de sombras havia se intensificado, e ela sabia que Ricardo, ou quem quer que estivesse por trás dele, não a deixaria em paz tão facilmente. O canto de sereia do passado havia sido sedutor, mas a armadilha era mortal.