Dono do Meu Coração de Ouro
Capítulo 14 — O Jogo de Xadrez e as Cartas na Mesa
por Beatriz Mendes
Capítulo 14 — O Jogo de Xadrez e as Cartas na Mesa
O confronto na galeria deixou Helena abalada. A declaração de Rodrigo, a possessividade crua e a confissão de amor – ou o que quer que fosse aquilo – a deixaram desnorteada. Ela se sentiu invadida, encurralada. A força de sua presença, a intensidade de seu olhar, haviam quebrado as barreiras que ela pensava ter erguido.
Ao final do dia, Pedro a encontrou em seu apartamento, o ambiente impregnado de um silêncio pesado. Helena estava sentada no sofá, o olhar perdido no vazio, o corpo tenso.
“Ele esteve lá, não foi?”, perguntou Pedro, a voz cheia de preocupação.
Helena assentiu, incapaz de articular uma resposta.
“O que ele disse?”
Ela finalmente encontrou sua voz, um sussurro rouco. “Ele… ele me disse que eu sou dele. Que me ama. E que me quer. E… ele disse que é meu pai, Pedro. Na frente de todos.” As lágrimas voltaram a cair, mas desta vez, eram lágrimas de raiva e de um profundo cansaço.
Pedro sentou-se ao lado dela, o rosto sombrio. “Eu sabia que ele tentaria te pressionar. Esse homem não conhece limites. Ele quer te controlar, Helena. Ele não te ama de verdade. Ele te vê como uma posse, como mais um troféu.”
“Mas ele disse… ele disse que amava minha mãe. E que ama a mim. Como pode ser tão cruel e ainda assim… sentir algo assim?” A contradição a torturava.
“É a forma dele de amar, Helena. Uma forma distorcida e egoísta. Ele não sabe amar de outra maneira. Ele quer possuir, não compartilhar. Ele quer dominar, não se entregar.” Pedro pegou a mão dela, o toque firme e reconfortante. “Mas não se preocupe. Nós temos um plano. O advogado está pronto para gravar sua próxima conversa, se ele tentar te coagir. E a contraproposta dele… é uma prova de que ele sabe que você está em desvantagem e está se aproveitando disso.”
Helena olhou para ele, um fio de esperança renascendo em seus olhos. “Você acha que podemos vencer ele, Pedro?”
“Nós vamos tentar, Helena. E nós vamos lutar. Juntos.” Ele apertou a mão dela. “Mas você precisa estar forte. Ele vai usar todas as armas que tiver. E ele tem muitas.”
Enquanto isso, no luxuoso escritório, Rodrigo Vasconcelos observava o tabuleiro de xadrez em sua mesa. Cada peça era uma peça de seu império, cada movimento, um cálculo estratégico. Ele havia jogado suas cartas com audácia, revelando parte de sua intenção, testando a reação de Helena. E ela reagira como ele esperava: assustada, confusa, mas também com uma faísca de desafio nos olhos.
Ele recebeu um relatório sobre o encontro de Helena com o advogado. A informação o irritou. Ele não permitiria que ela tivesse uma saída fácil. Ele precisava aumentar a pressão.
Ele discou o número de seu principal executivo financeiro. “Quero que você comece a desvalorizar os investimentos que a galeria de Helena possui no mercado. Pequenas operações, discretas, mas suficientes para que a imprensa comece a falar. Quero criar um clima de instabilidade em torno dela. Que o mundo veja que o império dela está ruindo.”
O executivo hesitou. “Senhor, isso pode ter repercussões negativas para a imagem da Vasconcelos Corp.”
“Não me importa!”, rugiu Rodrigo, a voz ecoando pelo escritório. “Eu quero Helena sob meu controle. E se ela não aceitar minha proposta, ela vai perder tudo. Absolutamente tudo. E ela vai saber que fui eu. E que ela poderia ter me impedido, se tivesse sido mais esperta.”
Ele desligou o telefone, um sorriso cruel desenhado em seus lábios. Ele estava jogando um jogo de xadrez perigoso, e Helena era a peça central que ele precisava capturar. Ele estava disposto a sacrificar outras peças, a criar um caos controlado, para garantir sua vitória.
No dia seguinte, Helena e Pedro se encontraram com o advogado, um homem experiente e discreto chamado Dr. Almeida. Ele explicou os procedimentos para a gravação, os detalhes legais e as possíveis consequências.
“Se Rodrigo Vasconcelos tentar te pressionar ou coagir durante a gravação, o material será valioso como prova”, explicou Dr. Almeida. “Mas lembre-se, Helena, a gravação precisa ser feita com o consentimento de uma das partes, e em alguns casos, a outra parte deve ser informada sobre a gravação. Seu advogado já está ciente disso.”
“Ele me disse que vai me encontrar novamente amanhã”, disse Helena, a voz tensa. “Na galeria. Ele quer uma resposta.”
“Ótimo”, disse Dr. Almeida, um brilho nos olhos. “Essa é a nossa chance. Esteja preparada, Helena. Mantenha a calma. E deixe que ele fale.”
No dia seguinte, a atmosfera na galeria era eletrizante. Helena estava vestida com um terninho elegante, mas a fragilidade em seu olhar era evidente. Pedro estava do lado de fora, em um carro discreto, monitorando a situação e pronto para intervir se necessário. Dr. Almeida estava escondido em uma sala anexa, com o equipamento de gravação ligado.
Rodrigo chegou pontualmente. A presença dele era avassaladora, como sempre. Ele a cumprimentou com um sorriso que não alcançava seus olhos. “Helena. Vejo que você está pronta para fazer a escolha certa.”
“Eu ainda estou considerando, Sr. Vasconcelos”, respondeu ela, tentando manter a voz firme.
“Considerando? Ou apenas ganhando tempo?”, ele rebateu, o tom mudando para algo mais frio. “Você sabe que sua situação é insustentável. As notícias sobre as suas finanças já estão começando a sair. Você quer que o mundo veja sua galeria afundar?”
Helena sentiu o estômago revirar. Ele estava cumprindo sua ameaça. Ele estava deliberadamente destruindo a reputação dela. “Você está fazendo isso de propósito, não está?”, acusou ela, a raiva começando a superar o medo.
“Eu estou apenas garantindo que você veja a realidade, Helena. A realidade de que você precisa de mim. E que eu sou a única saída.” Ele se aproximou dela, o olhar fixo no dela. “Aceite minha proposta. E tudo isso vai parar. Você terá segurança, terá um futuro. Um futuro comigo.”
“Um futuro como sua prisioneira?”, Helena o encarou, o desafio evidente. “Eu não sou sua, Sr. Vasconcelos. E nunca serei.”
Rodrigo a segurou pelo braço, a força dele inconfundível. “Você está sendo tola, Helena. Essa sua teimosia vai te custar caro. Eu estou te oferecendo o meu coração de ouro. E você o rejeita para se afogar na lama.”
“Seu coração de ouro é feito de promessas vazias e manipulação!”, ela gritou, puxando o braço. “Eu prefiro me afogar na lama com a minha dignidade intacta do que viver em seu luxo falso!”
O rosto de Rodrigo se contraiu em fúria. Ele a encarou, a intensidade de seu olhar quase palpável. “Você vai se arrepender disso, Helena. Você vai se arrepender de ter desafiado Rodrigo Vasconcelos.”
Ele a soltou, um último olhar de desprezo em seus olhos, e saiu da galeria, deixando Helena tremendo, mas com uma nova determinação em seu peito. Ela havia lutado. Ela havia se defendido. E agora, com a gravação em mãos, ela tinha uma chance. Uma pequena, mas real, chance de virar o jogo contra o homem que a queria como sua. O jogo de xadrez estava longe de terminar, mas Helena havia jogado suas cartas.