O Jogo do Poder e do Desejo
Capítulo 3 — O Confronto das Heranças e a Tentação Velada
por Larissa Gomes
Capítulo 3 — O Confronto das Heranças e a Tentação Velada
A galeria de arte parecia ter se transformado em um campo de batalha silencioso para Ricardo e Sofia. O toque inesperado em sua mão, a forma como ele a afastara de Vasconcelos, tudo indicava que a indiferença que ele tanto alardeava não era tão completa quanto ele gostaria. Sofia sentia a tensão dele, a luta interna que ele travava.
"Eu não estou aqui para me associar a você, Sr. Almeida", Sofia disse, a voz firme, mas com um tom de desafio. "Estou aqui por causa do que seu pai nos deixou. E eu espero que você cumpra com a sua parte. Não por mim, mas por ele."
Ricardo soltou a mão dela, um movimento brusco que quebrou a conexão tênue que se formara. "Meu pai deixou um monte de problemas para trás. E eu não sou um homem de caridade. Ele me fez assinar um papel, Srta. Mendes. Um papel. E nada mais. O fundo fiduciário existe, e eu o administro como o meu pai determinou. Se você quer o dinheiro, basta me informar quais são suas necessidades, e o departamento financeiro cuidará disso."
A frieza em sua voz era como um golpe. Sofia sentiu uma pontada de frustração. Ela sabia que seria difícil, mas a forma como ele a tratava, como se fosse apenas um incômodo financeiro, era desrespeitosa.
"Não é apenas sobre dinheiro, Sr. Almeida", ela disse, seus olhos verdes faiscando. "É sobre honrar a memória de um homem. Um homem que, apesar de seus erros, amou você e me amou. E ele queria que vocês dois tivessem algum tipo de conexão. Algo que você se recusa a dar."
Ricardo soltou uma risada seca. "Conexão? A única conexão que eu tenho com meu pai é a de um filho que foi abandonado e que teve que lutar para construir seu próprio império. Ele não me deu nada além de uma herança de responsabilidades e um exemplo do que eu nunca quis ser." Ele a encarou, seus olhos azuis como lascas de gelo. "E agora ele me deixou mais uma responsabilidade. Você."
"Eu não sou uma responsabilidade", Sofia retrucou, sua voz ganhando força. "Eu sou a prova de que seu pai teve uma vida além do que você conheceu. E eu estou aqui para garantir que essa parte dele não seja esquecida. Ou apagada."
Um murmúrio de interesse começou a surgir entre os convidados próximos, que percebiam a tensão crescente entre eles. Ricardo, percebendo que estavam atraindo atenção indesejada, agarrou o braço de Sofia e a puxou para um corredor mais afastado.
"Você não tem ideia do que está falando, Srta. Mendes", ele disse, sua voz perigosamente baixa. "Meu pai era um homem complicado. E as suas 'memórias' dele não são a história completa."
"E qual seria a 'história completa', Sr. Almeida?", Sofia perguntou, sem medo. "Aquela que você convenientemente ignora? Aquela que o fez tão frio e implacável?"
Ricardo a empurrou contra a parede, sua proximidade fazendo o coração de Sofia acelerar. Ele estava furioso, mas havia algo mais em seus olhos, algo de desespero, talvez. "A história completa, Srta. Mendes, é que meu pai era um homem que fugia de suas responsabilidades. Ele me abandonou. Ele traiu minha mãe. E ele me deixou com as consequências de seus atos. E agora você aparece, com seus ideais românticos, querendo me ensinar sobre honra e memória. Você não sabe nada sobre a dor que ele causou."
"Eu sei que ele se arrependeu", Sofia disse, sua voz mais suave, tentando acalmá-lo. "Ele falava de você. Ele se preocupava com você. Ele me implorou para que eu tivesse paciência com você. Ele disse que você tinha um bom coração, escondido sob todas essas camadas de poder."
Ricardo a encarou, um misto de incredulidade e raiva em seu rosto. "Um bom coração? Meu pai disse isso? Ele estava delirando, Srta. Mendes. Ou talvez apenas tentando manipular você, assim como manipulou todos ao seu redor."
"Ele disse que você era diferente dele. Que você seria capaz de aprender com os erros dele. Ele esperava que você fosse um homem melhor." Sofia deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. A atração era palpável, um campo de força invisível que os cercava. "E eu acredito nele. Eu vejo algo em você, Ricardo. Algo além do homem de negócios implacável. Eu vejo o filho que foi ferido. E eu quero ajudar."
Ricardo a observou, sua respiração acelerada. A ousadia dela o desarmava. A sinceridade em seus olhos verdes o perturbava. Ele não estava acostumado a esse tipo de vulnerabilidade, nem a esse tipo de intimidade inesperada. Ele se viu tentado a baixar a guarda, a se permitir sentir algo diferente de raiva.
"Você não pode me ajudar, Srta. Mendes", ele disse, sua voz rouca. "Ninguém pode."
"Então por que você se afastou de mim? Por que a sua reação foi tão forte quando eu mencionei meu pai?", Sofia persistiu, sua mão tocando suavemente seu peito, bem onde seu coração batia forte. "Você ainda sente algo por ele. E você se sente culpado."
Ricardo fechou os olhos por um instante, como se tentasse afastar a verdade que ela revelava. Ele não era culpado. Ele era… ressentido. Mas talvez, em algum nível profundo, ele também sentisse a falta daquele pai que ele nunca teve.
"Não confunda ressentimento com culpa, Srta. Mendes", ele disse, abrindo os olhos novamente, seu olhar intenso. "E não confunda atração com sentimentos. Você é uma distração. E eu não preciso de distrações."
Ele se afastou dela bruscamente, quebrando o contato. "Eu vou cumprir com as obrigações financeiras do fundo. Mas não espere mais nada de mim. Eu não tenho irmãs. E meu pai está morto para mim."
Ele se virou para sair, mas Sofia segurou seu braço. "Ricardo...", ela disse, usando o nome dele pela primeira vez. "Você está se escondendo de si mesmo. E você está se escondendo de mim. Mas eu não vou desistir."
Ricardo se virou para ela, o olhar fixo em seus olhos. A ousadia dela, sua persistência, começavam a mexer com algo dentro dele. Ele era um homem que conquistava o que queria, que quebrava barreiras. E, de alguma forma, aquela mulher, com sua beleza simples e sua alma vibrante, estava se tornando um desafio que ele não conseguia ignorar.
"Você está brincando com fogo, Sofia", ele disse, seu olhar percorrendo seu rosto, demorando-se em seus lábios. "E você pode se queimar."
"Talvez", ela respondeu, um sorriso desafiador em seus lábios. "Mas talvez você também se queime. E talvez seja exatamente isso que nós dois precisamos."
Naquele momento, a tensão entre eles era quase insuportável. O poder de Ricardo, a determinação de Sofia. As heranças divididas, as promessas quebradas, os corações feridos. E a tentação velada, a atração perigosa que os puxava um para o outro, como imãs. Ricardo sabia que não podia sucumbir. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu a urgência de se perder em algo além de seus negócios, de se permitir sentir algo que não fosse o controle. E Sofia Mendes, com sua coragem e sua compaixão, estava abrindo uma fresta naquela fortaleza de gelo.