O Jogo do Poder e do Desejo
Capítulo 5 — A Fenda na Armadura e o Jogo do Ciúme
por Larissa Gomes
Capítulo 5 — A Fenda na Armadura e o Jogo do Ciúme
Os dias se arrastavam em uma rotina de poder e controle para Ricardo Almeida. A aquisição da Lumina estava quase concluída, um triunfo que, em outras circunstâncias, o encheria de satisfação. Mas, ultimamente, a vitória parecia vazia. A imagem de Sofia, radiante em sua galeria, com suas cores vibrantes e sua aura de paixão, se sobrepunha a qualquer gráfico de lucro. Ele se pegava traçando mentalmente o caminho de volta àquela noite, àquele momento em que a fenda em sua armadura pareceu se alargar.
Ele tentava se convencer de que a visita à galeria fora um lapso, um momento de fraqueza. Ele não precisava de cores, de emoções. Ele precisava de resultados, de controle. E, no entanto, a lembrança do olhar de Sofia, da sua convicção em sua capacidade de mudança, o assombrava.
Naquele dia, enquanto revisava os últimos detalhes da Lumina, Helena Vargas, sua fiel vice-presidente, entrou em seu escritório. Sua expressão era de preocupação.
"Sr. Almeida", ela começou, hesitante. "Tenho notícias sobre a Lumina. Algo que pode complicar a aquisição."
Ricardo ergueu o olhar, a irritação substituindo a melancolia. "Complicações? Eu não lido com complicações, Helena. Eu as resolvo."
"A Lumina descobriu uma nova patente, Sr. Almeida. Algo que eles mantiveram em segredo absoluto. É uma tecnologia revolucionária na área de energia limpa. Se isso se tornar público antes de fecharmos o acordo, o valor da empresa vai disparar. E podemos perder o controle."
Ricardo se recostou na cadeira, um leve sorriso irônico brincando em seus lábios. "Secreta, você diz? Parece que alguém em minha equipe não foi tão eficiente quanto eu esperava." Ele encarou Helena. "Quero todos os detalhes. E quero saber quem falhou em descobrir isso antes. Não tolero incompetência."
Enquanto Ricardo mergulhava no turbilhão da aquisição, Sofia se dedicava à sua arte. Ela sentia que havia feito um progresso com Ricardo, que a exposição fora um passo importante. Mas ela sabia que o caminho era longo. Ela sabia que ele estava lutando contra fantasmas, contra o próprio passado.
Um dia, enquanto ela estava em seu ateliê, seu celular tocou. Era um número desconhecido.
"Sofia Mendes?", uma voz masculina, fria e calculista, perguntou.
"Sim. Quem fala?", ela respondeu, um pressentimento crescendo em seu peito.
"Meu nome é Daniel Costa. Trabalho para o Sr. Ricardo Almeida."
Sofia gelou. Ricardo. Por que ele a estaria contatando através de um intermediário?
"Eu tenho uma proposta a fazer", continuou Costa. "O Sr. Almeida está disposto a aumentar o valor do fundo fiduciário. Significativamente. Em troca de… bem, em troca de sua discrição. E de um afastamento. Ele não deseja mais esse… envolvimento."
Sofia ficou em silêncio por um momento, processando as palavras. A proposta era clara: dinheiro pela sua ausência. Era exatamente o que ela esperava dele, mas, ainda assim, doía.
"Discrição em relação a quê, Sr. Costa?", ela perguntou, sua voz firme. "Em relação ao fato de que o pai dele me teve como filha? Em relação ao fato de que ele tem uma irmã que ele se recusa a conhecer?"
"Em relação a tudo o que possa perturbar a vida e a imagem do Sr. Almeida", Costa respondeu, sem rodeios. "Ele é um homem de negócios, Srta. Mendes. E ele não tem tempo para sentimentalismos. A oferta é generosa. Você pode ter uma vida confortável, sem ter que lidar com as complicações de um passado que não lhe pertence."
"Agradeço a oferta, Sr. Costa", Sofia disse, sua voz ganhando uma firmeza gélida. "Mas eu não estou à venda. E o passado, Sr. Almeida, é algo que todos carregamos. Seja ele confortável ou não."
Ela desligou o telefone, sentindo uma onda de decepção. Ricardo estava se escondendo, como sempre. Ele estava usando dinheiro para tentar comprar sua paz, para varrer a verdade para debaixo do tapete. Mas ela não iria se curvar. Ela sabia que ele estava lutando contra a Lumina, que havia uma nova patente em jogo. E ela tinha uma ideia.
Naquela noite, Ricardo estava em um evento de gala, um daqueles onde a alta sociedade se reunia para exibir seus trajes e suas fortunas. Ele estava entediado, observando a multidão com seu habitual distanciamento, quando viu uma figura familiar. Sofia. Ela estava deslumbrante em um vestido dourado, sua beleza natural realçada pela ocasião. Ela conversava animadamente com um homem alto e charmoso, que parecia completamente rendido à sua atenção.
Ricardo sentiu uma pontada inesperada de ciúme. Ele não sabia quem era o homem, mas a forma como ele olhava para Sofia, a forma como ela sorria para ele, o incomodou profundamente. Ele se aproximou deles, sua presença imponente interrompendo a conversa.
"Sofia", ele disse, seu tom de voz cortante. "Que surpresa agradável. Não sabia que você frequentava esse tipo de evento."
Sofia se virou, seus olhos verdes encontrando os azuis dele. Um sorriso desafiador brincou em seus lábios. "Ricardo. E você, sempre aparecendo quando menos se espera. Este é Lucas. Lucas, este é Ricardo Almeida. Um… conhecido."
O homem ao lado de Sofia, Lucas, estendeu a mão para Ricardo. "Lucas Monteiro. Prazer em conhecê-lo. Sofia tem me falado muito sobre você."
Ricardo apertou a mão de Lucas com força, um aperto de domínio. "Tenho certeza que sim. Sofia e eu temos um… passado interessante."
Lucas sorriu, sem se intimidar. "Eu imagino. Ela é uma mulher fascinante. E muito talentosa." Ele olhou para Sofia com admiração. "Você viu o trabalho dela? É incrível."
Ricardo sentiu o ciúme aumentar. Ele não estava acostumado a dividir a atenção, muito menos a atenção de uma mulher que, de alguma forma, o intrigava. "Eu conheço o trabalho dela", ele disse, sua voz baixa e ameaçadora. "E conheço as suas verdadeiras intenções."
Sofia deu um passo à frente, sua expressão séria. "Minhas intenções são claras, Ricardo. Eu estou aqui para honrar a memória do nosso pai. E você deveria fazer o mesmo."
Ricardo ignorou a fala dela e se voltou para Lucas. "Sr. Monteiro, Sofia é… uma pessoa com necessidades financeiras. Ela é facilmente influenciada."
Lucas olhou para Ricardo, um brilho de inteligência em seus olhos. "Ah, é? E quem diria. Ela me parece uma mulher muito segura de si."
"Aparências enganam", Ricardo retrucou, seu olhar fixo em Sofia. Ele sabia que estava jogando um jogo perigoso, mas a necessidade de afastá-la de Lucas, de reivindicá-la de alguma forma, era mais forte. "Sofia, eu queria conversar com você. A sós."
Sofia olhou para Lucas, depois para Ricardo. Ela sabia que ele estava provocando, que ele estava sentindo ciúmes. E, por mais que quisesse resistir, ela sentia uma pontada de satisfação em vê-lo assim, tão fora de controle.
"Acho que já tivemos nossa conversa, Ricardo", ela disse, sua voz suave, mas firme. "Lucas é um amigo. E ele está interessado em apoiar meu trabalho. Algo que você se recusa a fazer."
O ciúme de Ricardo atingiu o pico. Ele se aproximou de Sofia, sua voz baixa e intensa. "Eu posso te dar tudo o que você quer, Sofia. Tudo. Mas você precisa escolher. Escolher a mim. E deixar esse jogo para trás."
Sofia o encarou, seus olhos verdes brilhando com uma mistura de raiva e desejo. "Você acha que eu estou brincando, Ricardo? Você acha que isso é um jogo para mim?"
"Não sei o que é para você", ele disse, sua mão roçando o rosto dela. "Mas sei que você me perturba. E sei que não quero te ver com outro homem."
Lucas observava a cena com um sorriso discreto. Ele percebeu a tensão entre eles, a paixão reprimida.
"Parece que há mais entre vocês do que uma simples amizade", Lucas comentou, com um tom divertido.
Ricardo o encarou, seus olhos azuis cheios de ameaça. "Isso não é da sua conta, Sr. Monteiro."
Sofia afastou a mão de Ricardo. "Você não tem o direito de ditar com quem eu devo falar, Ricardo. Você não é nada meu. E eu não sou nada sua."
As palavras a atingiram como um golpe. Ricardo a encarou, a raiva em seus olhos se misturando com uma dor profunda. Ele havia revelado sua fraqueza, seu ciúme, e ela o havia rejeitado.
"Você vai se arrepender disso, Sofia", ele disse, sua voz fria como gelo. "Você não sabe com quem está brincando."
Ele se virou e saiu, deixando Sofia e Lucas sozinhos. Sofia sentiu um aperto no peito. Ela sabia que havia cruzado uma linha, que havia ferido Ricardo. Mas, no fundo, uma parte dela se sentia satisfeita. Ela o havia visto, por um instante, sem a armadura. E isso era um começo.