Nas Teias do Poder e do Amor
Capítulo 22 — A Sombra de Ricardo
por Beatriz Mendes
Capítulo 22 — A Sombra de Ricardo
O ar na sala de reuniões parecia ter se tornado rarefeito, denso com a acusação velada de Enzo. Mariana sentiu o rosto esquentar, não de vergonha, mas de indignação misturada com um medo crescente. A confiança que ela depositara em Enzo era a fundação de seu mundo, e agora, essa fundação tremia sob os abalos sísmicos de uma sabotagem corporativa e a desconfiança de seu amado.
"Você não pode estar falando sério, Enzo", ela disse, a voz firme, apesar do turbilhão interno. "Você sabe que eu jamais faria algo assim. Sabe que estou com você, não contra você."
Os olhos de Enzo eram frios, calculistas. Ele andava pela sala, o passo largo, a postura tensa. "Eu sei o que você me disse, Mariana. Mas a evidência… a evidência aponta para algo diferente. A informação vazada sobre a proposta da Galiant, os detalhes técnicos, as projeções financeiras… tudo isso veio de arquivos que você acessou recentemente. Arquivos que continham os planos estratégicos da divisão de tecnologia."
Mariana sentiu um nó na garganta. Era verdade que ela havia acessado aqueles arquivos. Para entender melhor os negócios de Enzo, para se sentir mais parte de seu mundo. Mas jamais com a intenção de prejudicá-lo. "Eu acessei os arquivos para me inteirar, Enzo! Para entender o que você faz, para aprender. Não para trair você!"
"E por que, então, as informações vazadas são tão precisas, Mariana? Por que elas foram suficientes para a Galiant preparar uma contraproposta que nos coloca em desvantagem?" A voz dele era um barítono perigoso, cada palavra pesando como uma sentença.
Ela se aproximou dele, os olhos implorando por compreensão. "Enzo, por favor. Pense. Quem mais teria acesso a esses arquivos? Quem mais se beneficiaria com isso?"
Ele parou de andar e a encarou. "É aí que as coisas ficam interessantes, Mariana. As pistas nos levam a um nome. Um nome que, de alguma forma, está ligado a você. Ricardo Alencar."
O nome de Ricardo foi como um choque elétrico. Mariana cambaleou para trás, sentindo o chão sumir sob seus pés. Ricardo. O irmão de Helena. O homem que aparecera na noite anterior com um aviso obscuro. Era ele o autor da sabotagem? Ou ele estava tentando manipulá-la?
"Ricardo?", ela repetiu, a voz um fio de ar. "Não… isso é impossível."
"Impossível?", Enzo riu, um som seco e amargo. "Para mim, nada é impossível quando se trata de poder e ambição. E você, Mariana, de alguma forma, está no centro de tudo isso. Você foi a ponte que ligou Ricardo à minha empresa. Ou pior… você foi a fonte."
As palavras o atingiram com uma força brutal. Ele a via como uma traidora, uma ferramenta nas mãos de outra pessoa. A ironia era cruel. O homem que ela amava, o homem que ela tentava proteger com todas as suas forças, agora a via como a inimiga.
"Eu não sei o que Ricardo te disse, Enzo", ela disse, lutando para manter a compostura. "Mas ele esteve comigo ontem à noite. E ele me deu um aviso. Um aviso sobre perigo, sobre aparências que enganam." Ela se lembrou do envelope em sua bolsa. Tirou-o com as mãos trêmulas e o estendeu para Enzo. "Eu não abri. Mas acho que você deveria ver."
Enzo pegou o envelope com relutância. Seus dedos longos o abriram com precisão cirúrgica. Dentro, havia um pequeno pen drive e um bilhete. Ele pegou o bilhete e leu em voz alta: "'Enzo, a verdade é uma arma de dois gumes. Use-a com sabedoria. Ricardo.'"
Ele então conectou o pen drive ao seu laptop, que estava sobre a mesa de reuniões. Seus olhos percorreram o conteúdo, a cada segundo a expressão em seu rosto se tornando mais sombria. Arquivos, e-mails, registros de transações… todos pareciam detalhar uma conspiração para desestabilizar a empresa de Enzo, envolvendo figuras obscuras no mundo financeiro. E, em alguns dos e-mails, havia menções a Mariana, como se ela fosse uma peça chave para os planos.
"Isso… isso explica muita coisa", Enzo murmurou, o olhar perdido na tela. "Ricardo não está apenas tentando me derrubar. Ele está tentando usar você para isso. Ele sabia que você teria acesso a essas informações. Ele apostou na sua… proximidade comigo."
Mariana sentiu uma onda de alívio misturada com horror. Ela não era a traidora. Ricardo era o manipulador. Mas o alívio durou pouco. A constatação de que Ricardo a havia usado, a perspectiva de ter sido uma ferramenta em seus planos, era tão devastadora quanto a acusação de Enzo.
"Ele me usou", ela sussurrou, a voz embargada. "Ele me usou, Enzo. Ele sabia que eu confiaria nele, que eu confiaria em você para resolver as coisas. E ele usou essa confiança contra nós."
Enzo fechou o laptop abruptamente, o som ecoando na sala. Ele se virou para Mariana, e pela primeira vez naquele dia, ela viu um vislumbre do Enzo que amava. Havia dor em seus olhos, mas também determinação.
"Nós vamos descobrir o que ele quer, Mariana. E nós vamos parar ele. Juntos." Ele estendeu a mão, e ela a pegou, o toque dele transmitindo uma energia que a fez sentir um pouco mais forte. "Mas você precisa entender. O mundo em que estamos, o mundo dos negócios, é um campo minado. A confiança é um luxo que nem sempre podemos nos dar. E a lealdade… a lealdade é testada a cada momento."
Ele a puxou para perto, o abraço apertado, quase desesperado. "Eu pensei que você… eu não podia suportar a ideia de você me traindo, Mariana."
Ela enterrou o rosto em seu peito, sentindo o batimento forte de seu coração. "Eu nunca te trairia, Enzo. Nunca."
Enquanto os braços de Enzo a envolviam, Mariana sentiu o peso de mais uma verdade: Ricardo não era apenas o irmão de Helena. Ele era uma ameaça. E o jogo que eles estavam jogando havia se tornado ainda mais perigoso, com as teias do poder se entrelaçando de formas cada vez mais sombrias, e a lealdade sendo a moeda mais valiosa e, ao mesmo tempo, a mais frágil de todas. A sombra de Ricardo pairava sobre eles, e o eco de suas ações ressoava com a força de uma tempestade iminente.