Herdeiro Indomável, Noiva Relutante
Capítulo 9 — O Juramento Sombrio
por Beatriz Mendes
Capítulo 9 — O Juramento Sombrio
A capela particular dos Montenegro, um edifício antigo de pedra cinzenta e vitrais sombrios, estava repleta de convidados que, em sua maioria, representavam o que havia de mais influente e poderoso no mundo dos negócios e da alta sociedade. O ar estava impregnado com o aroma de lírios e o burburinho de conversas sussurradas. Sofia, em seu deslumbrante vestido de noiva, sentia-se como uma ovelha sendo levada ao matadouro. Lúcia, disfarçada de dama de honra, lançava-lhe olhares de encorajamento discretos a cada vez que passava.
O Sr. Antônio Montenegro, sentado na primeira fila, ostentava uma expressão de triunfo sombrio. Dona Helena, impecável em um vestido de seda cor de marfim, sorria para os convidados, um sorriso que não alcançava seus olhos. Rafael, no altar, parecia uma estátua de mármore, o terno escuro realçando sua figura imponente. Seus olhos encontraram os de Sofia quando ela entrou, e por um breve instante, uma corrente elétrica percorreu o ar entre eles.
O padre começou a cerimônia, sua voz solene ecoando na capela. Sofia respondia aos votos com uma voz trêmula, cada palavra parecendo um prego cravado em sua liberdade. Ela sentia o olhar de Rafael sobre ela, um olhar que a estudava, a possuía.
“Rafael Montenegro, você aceita Sofia Andrade como sua legítima esposa, para amá-la e honrá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?”
“Aceito”, respondeu Rafael, sua voz firme e ressonante, sem hesitar.
“Sofia Andrade, você aceita Rafael Montenegro como seu legítimo esposo, para amá-lo e honrá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?”
Sofia engoliu em seco. O olhar de Lúcia, em meio aos rostos desconhecidos, era um farol de esperança. Sua família, sentada em um banco mais afastado, a observava com expectativa e apreensão. Ela sabia o que estava em jogo. A segurança deles dependia dela.
“Aceito”, disse ela, a voz mais firme desta vez, um juramento sombrio que selava seu destino.
Os anéis foram trocados, selando a união. Rafael a puxou para perto, seus lábios frios tocando os dela em um beijo rápido e possessivo. A multidão aplaudiu, alheia à batalha silenciosa que se travava na alma da noiva.
A festa de casamento era um espetáculo de opulência. Mesas repletas de iguarias finas, champanhe fluindo sem parar, e uma banda tocando música clássica. Sofia, agora Sra. Sofia Montenegro, sentia-se um fantasma em seu próprio casamento. Ela circulava entre os convidados, forçando sorrisos, respondendo a cumprimentos genéricos. Seu olhar procurava constantemente por Lúcia.
Em um momento de distração, Lúcia se aproximou, deslizando um pequeno pedaço de papel na mão de Sofia enquanto a cumprimentava. Um mapa rudimentar e um bilhete: “Portão de serviço dos fundos, 23h. Estarei esperando. Coragem.”
A noite avançava, e a tensão dentro de Sofia crescia. Rafael estava quase sempre ao seu lado, um guardião atento e possessivo. Ele observava cada movimento dela, cada interação. Ele sabia que ela havia fugido antes, e não pretendia permitir que acontecesse novamente.
“Você parece inquieta, minha esposa”, disse Rafael, um leve sorriso brincando em seus lábios. Ele a abraçou pela cintura, puxando-a para perto. “Não está feliz?”
“Estou… processando tudo, Rafael”, respondeu Sofia, tentando manter a calma.
“E o que você está processando?” A pergunta veio acompanhada de um olhar penetrante que a fez sentir como se ele pudesse ler seus pensamentos.
“A mudança. Tudo isso é tão… avassalador.”
Rafael a beijou no topo da cabeça. “Você se acostumará. E, com o tempo, talvez até goste.”
À medida que as horas passavam, Sofia sentia a adrenalina aumentar. A cada minuto que se aproximava das 23h, seu coração batia mais forte. Ela precisava encontrar uma oportunidade.
Em um determinado momento, o Sr. Antônio Montenegro fez um discurso inflamado sobre o futuro da empresa e a importância da união entre as famílias Montenegro e Andrade, embora esta última fosse mais uma formalidade para justificar o casamento. Sofia aproveitou a distração para se afastar de Rafael, alegando precisar ir ao banheiro.
Ela correu para seu quarto, onde Lúcia a esperava.
“Pronta?” perguntou Lúcia, com os olhos brilhando de expectativa.
“Sim”, respondeu Sofia, a voz firme. Ela tirou o pesado véu e a coroa, trocou o vestido de noiva por um traje simples que Lúcia havia trazido, e pegou a pequena bolsa que continha o dinheiro que sua mãe lhe dera e o celular.
“O portão de serviço está vigiado, mas eu já dei um jeito de distrair o segurança. Você tem poucos minutos.”
Juntas, elas desceram pelas escadas de serviço, o coração de Sofia martelando em seu peito. O palacete parecia um labirinto escuro e silencioso, cada sombra um potencial perigo.
Chegaram ao portão de serviço. Um único segurança estava ali, distraído com um jogo em seu celular. Lúcia se aproximou dele, iniciando uma conversa animada, enquanto Sofia se esgueirava para fora, correndo em direção à escuridão da noite.
Ela correu pelos jardins, tropeçando em galhos e raízes, o medo impulsionando-a. Chegou ao local combinado, onde um carro discreto esperava. Lúcia já estava lá, ao volante.
“Rápido, Sofie!”, chamou Lúcia.
Sofia entrou no carro, ofegante, o coração parecendo querer explodir.
“Conseguimos!”, exclamou Lúcia, dando partida no motor.
Enquanto o carro se afastava, Sofia olhou para trás, para a imponente mansão Montenegro, que agora parecia um castelo de horrores. Ela sentiu uma pontada de culpa, de incerteza. Havia feito a coisa certa?
Mas então, o carro de Rafael surgiu na estrada, suas luzes potentes iluminando a noite, em perseguição a elas.
“Ele nos encontrou!”, disse Lúcia, acelerando.
A perseguição começou. Carros em alta velocidade, manobras arriscadas. Sofia sentia seu estômago revirar. Ela sabia que Rafael não desistiria.
“Eu não posso acreditar que ele nos persegue pessoalmente”, disse Sofia, chocada.
“Ele é assim. Não gosta de perder o controle”, respondeu Lúcia, concentrada na estrada.
De repente, o carro de Rafael se aproximou perigosamente, tentando forçar Lúcia a sair da estrada.
“Ele vai nos jogar para fora da estrada!”, gritou Sofia.
Lúcia, com habilidade impressionante, fez uma curva fechada, desviando do carro de Rafael. Mas, em um movimento desesperado, Rafael conseguiu se posicionar à frente delas, bloqueando a estrada.
O carro de Lúcia freou bruscamente, parando a poucos centímetros do para-choques de Rafael. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Rafael saiu do carro, o rosto uma máscara de fúria controlada. Ele caminhou até o carro de Lúcia, sua presença imponente e ameaçadora. Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Ele abriu a porta do lado de Sofia. Seus olhos escuros encontraram os dela, e neles, Sofia viu uma mistura perigosa de raiva, frustração e algo mais… algo que ela não conseguia decifrar.
“Você não vai fugir de mim, Sofia”, disse ele, sua voz baixa e perigosa. “Ninguém foge do que é meu.”
Ele a puxou para fora do carro com uma força implacável. Lúcia tentou intervir, mas foi contida por um dos homens de Rafael que surgira repentinamente.
“Você não tem o direito!”, gritou Sofia, lutando contra o aperto dele.
“Eu tenho o direito de ter o que é meu por direito”, disse Rafael, carregando-a em direção ao seu carro. “E você, Sofia Montenegro, é minha.”
Ele a jogou no banco do passageiro, fechou a porta com violência e entrou no carro, arrancando em alta velocidade. Sofia olhou para Lúcia, que a observava com os olhos cheios de lágrimas, impotente.
O regresso à mansão foi ainda mais sombrio do que a fuga. Sofia sabia que, desta vez, não haveria segundas chances. Ela havia falhado. Havia jurado a si mesma que não seria dominada, mas Rafael Montenegro, o herdeiro indomável, a havia capturado novamente. O juramento sombrio, o casamento, a tinha prendido em uma teia da qual parecia impossível escapar.