Amor em Tempos de Ouro e Silicone

Capítulo 17 — O Fio da Meada em Vila Madalena

por Fernanda Ribeiro

Capítulo 17 — O Fio da Meada em Vila Madalena

O sol da manhã, tímido e hesitante, tentava romper as nuvens pesadas que ainda cobriam o céu de São Paulo. O ar ainda carregava o cheiro úmido da chuva da noite anterior, mas a cidade já pulsava em seu ritmo frenético. Isabella, por outro lado, sentia-se presa em uma névoa de tristeza e confusão. A noite passada havia sido um turbilhão de emoções, e a cobertura luxuosa de Leonardo agora parecia um pesadelo distante, um lugar onde os sonhos haviam se estilhaçado.

Ela decidiu que não podia ficar parada, afogada em sua dor. Precisava de ar, de movimento, de algo que a tirasse daquele torpor. O bairro boêmio de Vila Madalena, com suas ruas charmosas, seus grafites vibrantes e seus cafés acolhedores, parecia o refúgio perfeito. Era ali que ela, em seus primeiros anos em São Paulo, costumava buscar inspiração, longe do brilho frio do mundo corporativo.

Enquanto caminhava sem rumo pelas ladeiras de paralelepípedos, observando os artistas que montavam suas bancas, os músicos que ensaiavam em varandas escondidas, Isabella sentia um leve alívio. A autenticidade daquele lugar contrastava violentamente com a falsidade que ela havia descoberto na vida de Leonardo.

Ela parou em frente a uma pequena galeria de arte, atraída por uma pintura abstrata que capturava sua atenção. O artista, um senhor grisalho com olhos que brilhavam de sabedoria, a observou com um sorriso gentil.

"Interessante, não é?", ele disse, percebendo o olhar fixo de Isabella na tela. "Cores que se chocam, mas que criam uma harmonia inesperada."

"É... exatamente isso", Isabella respondeu, um leve traço de melancolia em sua voz. "Às vezes, as coisas mais belas nascem de conflitos."

O artista a encarou, percebendo a profundidade em suas palavras. Ele parecia ter a capacidade de ler as almas das pessoas. "A arte, assim como a vida, é feita de contrastes, minha jovem. De luz e sombra, de alegria e dor. O importante é não se deixar dominar pela sombra."

Isabella se permitiu um pequeno sorriso. Havia algo naquele homem, naquela galeria, naquele momento, que a fazia sentir que talvez houvesse um fio de esperança a ser encontrado.

Enquanto folheava um livro de arte, um nome chamou sua atenção em uma nota de rodapé: "Helena Bittencourt – Artista Plástica, Renomada por suas obras abstratas com forte carga emocional." Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Helena, a mulher que roubara seu noivo, era uma artista? Ela nunca imaginara isso.

Ela perguntou ao galerista sobre Helena. Ele falou dela com admiração, descrevendo-a como uma mulher talentosa, porém reservada e um tanto melancólica. Isabella absorvia cada palavra, tentando construir um novo retrato da mulher que até então só conhecia como rival.

"Ela tem um estúdio aqui perto", o galerista acrescentou, vendo o interesse genuíno de Isabella. "Um lugar mais recluso, onde ela se dedica à sua arte. Recebe poucos visitantes."

Uma ideia começou a se formar na mente de Isabella. Se Helena era uma artista, talvez seu estúdio fosse um lugar onde a verdade pudesse ser encontrada, um espaço desprovido das aparências que dominavam o mundo de Leonardo. Talvez ali, entre telas e tintas, ela pudesse confrontar Helena e, quem sabe, entender o que havia levado tudo aquilo a acontecer.

Ela agradeceu ao galerista e, com um misto de apreensão e determinação, dirigiu-se ao endereço indicado. O estúdio de Helena era uma antiga casa de vila, escondida em uma rua arborizada, com uma fachada discreta e um portão de ferro forjado. O silêncio que emanava do lugar era quase palpável.

Isabella respirou fundo e tocou a campainha. O som ecoou, e por um longo momento, nada aconteceu. Ela estava prestes a desistir quando a porta se abriu lentamente, revelando Helena. Sem a maquiagem pesada e os vestidos de grife que Isabella a vira usar no baile, Helena parecia diferente. Seus olhos, ainda profundos e um tanto melancólicos, carregavam uma vulnerabilidade que Isabella não esperava.

"Isabella", Helena disse, surpresa, mas sem demonstrar hostilidade. Sua voz era suave, quase sussurrante.

"Eu preciso falar com você, Helena", Isabella disse, a voz firme, mas com um tremor contido. "Sobre Leonardo. Sobre nós."

Helena a encarou por um longo instante, um olhar indecifrável. Ela parecia ponderar. Finalmente, com um suspiro, ela se afastou, abrindo espaço para Isabella entrar.

O estúdio era um reflexo da alma de Helena. Telas de todos os tamanhos cobriam as paredes, algumas vibrantes e cheias de cor, outras em tons mais sombrios e introspectivos. O cheiro de tinta a óleo e terebintina pairava no ar. Havia uma atmosfera de solidão e criatividade, um santuário pessoal.

"Pode sentar", Helena ofereceu, indicando um sofá antigo.

Isabella se sentou, sentindo o peso da situação. Ela olhou para Helena, que agora se servia de um copo d'água.

"Eu não entendo", Isabella começou, a voz embargada pela emoção. "Por que você fez isso? Por que mentir? Por que se reaproximar de Leonardo dessa forma?"

Helena fechou os olhos por um momento, como se reunisse forças. "Eu sei que você está magoada, Isabella. E você tem todos os motivos para estar. Mas a história é mais complexa do que parece."

"Complexa?", Isabella repetiu, a voz ganhando força. "Complexa é a minha dor de ter sido enganada. Complexa é a minha confiança em Leonardo ter sido quebrada. O que pode ser mais complexo do que isso?"

"Leonardo é o pai do meu filho", Helena disse, a voz embargada. Isabella a encarou, chocada. "Um filho que ele não sabe que existe. Ou melhor, não sabia até eu voltar."

A revelação atingiu Isabella como um soco no estômago. Um filho? Leonardo tinha um filho com Helena que ela desconhecia? A trama se tornava ainda mais intrincada e dolorosa.

"Como assim? Um filho?", Isabella perguntou, sentindo o chão sumir sob seus pés.

"Quando eu descobri que estava grávida, Leonardo já estava... distante. Nosso casamento já estava em crise. Ele me deixou, não quis assumir a responsabilidade. Eu sofri muito, sozinha. Fui embora, tentei recomeçar minha vida. Mas a arte sempre esteve comigo. E meu filho... ele é tudo para mim." Helena olhava para uma tela em branco, os olhos marejados. "Eu voltei para São Paulo depois de anos. Precisava de ajuda. E eu sabia que Leonardo, com toda a sua fortuna, poderia me dar uma vida digna para o nosso filho. Mas eu também... eu também não conseguia deixar de sentir algo por ele. E ver você ao lado dele... me fez querer lutar por ele. Por nós."

A confissão de Helena era chocante. Isabella não sabia mais em quem acreditar, o que era verdade e o que era apenas uma teia de manipulações. A complexidade da situação a deixava atordoada. O fio da meada, que ela pensava ter encontrado, parecia se emaranhar ainda mais.

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