Amor em Tempos de Ouro e Silicone

Capítulo 2 — O Eco dos Passos na Grafite

por Fernanda Ribeiro

Capítulo 2 — O Eco dos Passos na Grafite

Os dias que se seguiram foram um turbilhão para Leonardo. A imagem de Clara persistia em sua mente, um contraste vívido em meio aos gráficos de ações e plantas de projetos. Ele se pegava revisando mentalmente as conversas, o tom da sua voz, o brilho em seus olhos verdes. Era um incômodo delicioso, uma sensação estranha de estar vivo que ele não sentia há anos.

Ele sabia que Clara não era do seu mundo. Ela era a prova viva de que a beleza e a inteligência podiam florescer em solos menos férteis, longe dos holofotes e das buzinas da alta sociedade. Essa diferença, ao invés de afastá-lo, o atraía ainda mais. Era como se ela representasse um mundo de cores que ele havia esquecido que existia.

Naquela manhã, o escritório de Leonardo estava mais agitado do que o normal. A abertura de um novo empreendimento, um complexo de luxo na Barra da Tijuca, exigia sua atenção total. Mas, em meio a discussões sobre orçamentos e cronogramas, sua mente vagava. Ele decidiu agir. Ligou para sua secretária, a eficiente Dona Clara (um nome que, por um momento, o fez sorrir), e pediu que encontrasse o endereço da ONG "Esperança para Todos".

A ONG ficava em um bairro simples, de casas coloridas e becos estreitos, um contraste gritante com os arranha-céus de Leonardo. Ele estacionou seu carro importado na rua de paralelepípedos, sentindo-se um peixe fora d'água. A fachada do prédio era simples, com um grafite vibrante de crianças sorrindo pintado na parede. Uma placa desbotada anunciava o nome da instituição.

Ele respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada e flores silvestres misturado com o aroma distante de fritura. Era o cheiro da vida real, crua e sem filtros. Ao entrar, foi recebido por um burburinho animado. Crianças corriam, professores corrigiam tarefas, voluntários organizavam doações. O ambiente era de uma energia contagiante, um contraste com a frieza calculista de seus escritórios.

Foi então que ele a viu. Clara estava em uma sala menor, lendo para um grupo de crianças pequenas, sentadas em um tapete colorido. A voz dela era doce e envolvente, e os olhinhos das crianças estavam vidrados nas páginas do livro. Leonardo sentiu um aperto no peito, uma ternura inesperada.

Ele esperou que ela terminasse a leitura. Quando ela se levantou, com um sorriso nos lábios, seus olhos encontraram os dele. A surpresa foi evidente, seguida de um sorriso genuíno.

"Sr. Bastos! Que surpresa agradável", disse Clara, aproximando-se. "Não esperava vê-lo por aqui."

"Eu… precisava ver o progresso do nosso projeto de doação", mentiu Leonardo, sem jeito. A verdade era que ele só queria vê-la. "E também queria entender melhor o trabalho que vocês realizam."

Clara o guiou pela ONG, mostrando as salas de aula improvisadas, o pequeno refeitório onde as refeições eram preparadas com amor, o parquinho onde as crianças brincavam. Leonardo observava tudo com uma atenção renovada. Ele viu a dedicação dos voluntários, a alegria genuína no rosto das crianças, a esperança que Clara tanto falava, palpável em cada canto.

"É… impressionante", disse Leonardo, a voz rouca. Ele viu um menino com um braço engessado desenhando em um canto. "Ele está bem?"

"Um pequeno acidente de futebol", respondeu Clara, sorrindo. "Mas ele não para. A energia dessas crianças é contagiante, não é mesmo?"

"É", concordou Leonardo. Ele olhou para Clara, a forma como ela interagia com as crianças, com uma ternura que era ao mesmo tempo profissional e maternal. "Você tem um dom para isso."

"Acredito que todos temos um dom, Sr. Bastos. O importante é descobri-lo e usá-lo para o bem", disse Clara, o olhar firme.

Eles conversaram por mais tempo, sentados em um banco no pequeno pátio da ONG. Leonardo se sentiu mais à vontade do que jamais se sentira em qualquer evento de gala. Clara falava sobre seus sonhos, sobre a vontade de expandir a ONG, de alcançar mais crianças. Leonardo, por sua vez, falou sobre seus projetos, mas de uma forma diferente, menos focada nos números e mais nas histórias por trás de cada construção.

"Eu quero construir algo que dure, sabe?", disse Leonardo, surpreendendo a si mesmo. "Algo que vá além do lucro. Algo que deixe um legado de verdade."

"E essa é a beleza da sua visão, Sr. Bastos", disse Clara, um sorriso genuíno em seu rosto. "Quando o coração guia a mente, o resultado é sempre transformador."

Ao se despedir, Leonardo sentiu um nó na garganta. Ele sabia que não poderia simplesmente voltar à sua rotina de antes. Clara o havia tocado de uma forma profunda, resgatando um pedaço dele que ele pensava ter perdido para sempre.

"Eu… gostaria de te convidar para jantar", disse Leonardo, a voz um pouco trêmula. "Para continuarmos essa conversa. Sem a formalidade dos eventos."

Clara o olhou, seus olhos verdes brilhando de expectativa. Um sorriso brincou em seus lábios. "Seria um prazer, Sr. Bastos. Mas, por favor, pode me chamar de Clara."

"E você pode me chamar de Leonardo", respondeu ele, sentindo um calor familiar percorrer seu corpo.

O eco dos seus passos na grafite, ao sair da ONG, parecia mais leve. Havia algo novo em seu peito, uma esperança que começava a germinar, como uma semente plantada em solo fértil. O brilho frio do poder ainda o cercava, mas agora, ele vislumbrava um novo brilho, um que emanava da simplicidade e da genuinidade de um coração que começava a despertar.

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