Amor Proibido nas Sombras
Capítulo 17 — Os Fantasmas do Passado de Davi
por Rodrigo Azevedo
Capítulo 17 — Os Fantasmas do Passado de Davi
O sol da manhã mal ousava espreitar por entre as cortinas pesadas da mansão, lançando um brilho tênue sobre os corredores silenciosos. Davi sentou-se na beirada da cama, a cabeça entre as mãos, o peso do mundo parecendo repousar sobre seus ombros. O beijo de Isabella na noite anterior, tão inesperado quanto avassalador, o havia deixado em um estado de profunda reflexão. Não era o desejo que o assombrava, mas a constatação aterradora de que seus sentimentos por ela estavam se aprofundando de uma maneira perigosa, uma maneira que desafiava todas as suas regras, todos os seus planos.
Ele havia jurado a si mesmo que manteria Isabella segura, protegida do submundo que ele habitava. Mas as últimas semanas haviam erodido essa promessa, substituindo-a por uma conexão que ele lutava para entender e controlar. O olhar dela, a sua força contida, a sua aparente fragilidade… tudo nela o atraía de uma forma que o deixava desarmado e vulnerável.
Um suspiro profundo escapou de seus lábios. Ele sabia que estava brincando com fogo. Isabella era a prometida de Marco, seu irmão de consideração, o homem que ele respeitava e, à sua maneira, amava. As consequências de seus sentimentos eram impensáveis, um abismo de traição e dor.
Um bater suave na porta o tirou de seus devaneios. Era Sofia, sua fiel assistente, uma mulher de poucas palavras e olhar perspicaz.
"Davi?", ela disse, a voz baixa e profissional. "O senhor se sente bem? Não o vi durante o café da manhã."
Davi levantou-se, tentando projetar uma imagem de compostura que não sentia. "Estou bem, Sofia. Apenas… pensando."
Sofia entrou no quarto, trazendo uma bandeja com café fresco e alguns documentos. Ela sabia que algo o perturbava, mas nunca ousaria perguntar diretamente. Seus olhos percorreram o quarto, notando a desordem incomum, a cama desfeita de forma abrupta.
"Tenho novidades sobre o carregamento de armas", ela informou, deslizando a bandeja para a mesinha lateral. "O informante confirmou o local de entrega. Parece que vamos ter que agir mais cedo do que o planejado."
Davi pegou a caneca de café, o calor reconfortante em suas mãos. A menção do carregamento de armas o trouxe de volta à realidade brutal de sua vida. Era um lembrete constante do que ele era, do que ele precisava ser.
"Onde?", ele perguntou, a voz firme, recuperando um pouco de sua autoridade.
"Na antiga fábrica de têxteis, perto do rio", Sofia respondeu, consultando uma folha. "Eles esperam o grosso da mercadoria na próxima madrugada. O Leonardo disse que quer comandar a operação pessoalmente."
Uma ruga de preocupação apareceu na testa de Davi. Leonardo era o braço direito de Marco, um homem ambicioso e impulsivo, cuja imprudência já havia causado problemas no passado.
"Leonardo…", Davi murmurou, mais para si mesmo. "Ele não pode se dar ao luxo de cometer erros agora. Não com a pressão que estamos sofrendo."
"Marco está ciente. Ele disse que supervisionará a operação, mas a ação principal será de Leonardo", Sofia explicou.
Davi assentiu, embora a perspectiva o deixasse inquieto. Ele se sentou à escrivaninha, os papéis espalhados diante dele. Enquanto Sofia terminava de organizar os documentos, Davi sentiu um impulso incontrolável de falar sobre Isabella, de buscar uma distração, de talvez encontrar um conselho que não pudesse dar a si mesmo.
"Sofia", ele começou, hesitando. "Você… você já se apaixonou por alguém que não deveria?"
Sofia parou por um instante, seus olhos encontrando os de Davi. Havia uma compreensão silenciosa em seu olhar, um reconhecimento da dor que ele sentia. Sofia também havia pago um preço alto por sua lealdade à organização, mas ela sempre manteve uma distância profissional que Davi admirava.
"Amor é um luxo que poucos de nós podemos nos permitir, Davi", ela respondeu, a voz melancólica. "E quando nos permitimos, muitas vezes ele vem com um preço alto demais. Mas… as emoções humanas são complexas. Não acho que alguém possa escolher por quem se apaixona."
As palavras dela foram um bálsamo, uma confirmação de que ele não estava sozinho em seus dilemas. Mas também trouxeram uma nova dose de angústia.
"Mas e quando essa pessoa está ligada a alguém que você jurou proteger? Alguém que considera da família?", Davi insistiu, a voz embargada.
Sofia deu um passo à frente, colocando uma mão reconfortante em seu ombro. "Davi, você é um homem bom. Mais bom do que a maioria daqueles que chamamos de 'família'. Você tem um senso de justiça que é raro neste mundo. Mas também é um homem forte. Você tomará a decisão certa, a que protege a todos que ama."
As palavras de Sofia, embora gentis, não podiam apagar os fantasmas que assombravam Davi. Ele pensou em sua mãe, assassinada quando ele era apenas um garoto, uma vítima da crueldade da máfia. Pensou em seu pai, um homem de honra que foi levado pela correnteza do crime. Ele jurou nunca se tornar como eles, mas a linha entre proteger e se tornar o que ele temia era tênue e perigosa.
"O Leonardo… ele é muito perigoso quando está no comando", Davi disse, voltando ao assunto das armas. "Precisamos ter certeza de que não haverá nenhuma surpresa."
"Marco confia nele", Sofia observou, um leve tom de desaprovação em sua voz.
"Marco confia em muitas pessoas que não merecem essa confiança", Davi retrucou, com um toque de amargura. A menção de Marco o lembrou da dinâmica complexa entre eles, uma admiração manchada pela rivalidade e pelo segredo.
Ele se levantou e caminhou até a janela, observando a cidade acordar sob a luz fraca. O futuro era incerto, cheio de perigos iminentes, tanto externos quanto internos. A paixão que sentia por Isabella era um desses perigos, uma fraqueza que poderia ser explorada, uma tentação que poderia destruí-lo.
"Sofia, quero que você investigue o Leonardo mais a fundo", Davi ordenou, a voz firme e decidida. "Quero saber de todos os seus movimentos, de todos os seus contatos. Não podemos nos dar ao luxo de ser pegos de surpresa."
"Sim, Davi", Sofia respondeu, já pegando seu tablet.
Davi voltou a se sentar, o peso de suas responsabilidades mais aparente do que nunca. Ele sabia que precisava agir com cautela, que precisava proteger Isabella, mesmo que isso significasse mantê-la à distância. Mas o beijo roubado na madrugada, o toque de seus lábios, a intensidade em seus olhos… tudo isso se recusava a ser esquecido. Os fantasmas do passado de Davi o assombravam, mas a presença de Isabella em sua vida criava novos espectros, mais sedutores e perigosos do que qualquer outro. Ele estava preso em um labirinto de emoções e obrigações, e a saída parecia cada vez mais distante.
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