O Dono do Meu Coração

Eduardo Silva

por Eduardo Silva

Eduardo Silva O Dono do Meu Coração

Capítulo 1 — A Sombra que me Cerca

O ar de São Paulo, naquela noite, pesava como um manto úmido e opressor sobre os meus ombros. Não era apenas o calor sufocante de um final de primavera que se arrastava, mas um pressentimento gélido, um arrepio que percorria minha espinha e me deixava em alerta constante. De dentro do apartamento luxuoso, mas que nunca pareceu meu, observava as luzes da cidade cintilarem como promessas vazias. A melodia melancólica de um violino ecoava em meus ouvidos, um som que, em outro tempo, me traria paz, mas que agora parecia um lamento fúnebre.

Meu nome é Isabella Rossi. Ou melhor, era. Hoje, sou apenas uma peça no intrincado jogo de poder que meu pai, o temido Don Enrico Rossi, comanda com mão de ferro. O nome Rossi era sussurrado com reverência e medo nos cantos mais escuros desta metrópole. Um império construído sobre alicerces de ouro, sangue e segredos. E eu, a única filha, a joia da coroa, estava destinada a ser a moeda de troca no mais importante dos negócios.

“Bella, está aí?”, a voz rouca de meu pai rompeu o silêncio, carregada de uma autoridade inquestionável. Ele surgiu no batente da porta, imponente em seu terno escuro, os olhos penetrantes que pareciam ler minha alma. Havia uma dureza em seu olhar, uma aspereza que eu conhecia desde sempre, mas que hoje parecia amplificada.

Respirei fundo, forçando um sorriso que não alcançava meus olhos. “Pai. Só estava aproveitando a vista.”

Ele se aproximou, o perfume amadeirado e caro que o acompanhava pairando no ar. Seus dedos robustos, adornados com um anel discreto, mas de valor inestimável, pousaram em meu ombro. O toque era forte, possessivo. “A vista é boa, mas existem assuntos mais importantes a serem discutidos, não acha?”

Engoli em seco. Sabia o que viria. As conversas sobre meu futuro, sobre casamentos arranjados, sobre alianças que consolidariam o poder da família Rossi, eram um eco constante em minha vida. Mas desta vez, o tom de meu pai era diferente. Havia uma urgência, uma gravidade que me fez sentir um nó no estômago.

“Sim, pai. Sempre há.” Tentei soar casual, mas minha voz falhou um pouco.

Ele me conduziu até um dos sofás de couro, macio e frio. Sentou-se à minha frente, o olhar fixo no meu. “Como sabe, Bella, a família Rossi sempre esteve no topo. E para se manter lá, alianças são necessárias. Negócios são fechados, promessas são feitas.”

Meu coração começou a bater descompassado. O que ele estava prestes a me dizer era algo que eu temia, mas que, em algum lugar profundo, já sabia que chegaria. “Eu sei, pai.”

“E você, minha filha, é a aliança mais valiosa que eu poderia oferecer.” Ele fez uma pausa, observando minha reação. “Um casamento arranjado. Algo que garantirá a paz entre duas famílias poderosas. Um acordo que selará o futuro da nossa organização.”

As palavras dele ecoaram no silêncio, pesadas como pedras. Um casamento arranjado. A ideia me atingiu com a força de um soco. Anos de reclusão, de educação restrita, de uma vida protegida, mas controlada, tudo culminava naquele momento. Eu, Isabella Rossi, seria vendida. Aos olhos de muitos, era uma honra, uma posição de poder. Para mim, era uma sentença.

“Com quem?”, perguntei, a voz quase inaudível.

Ele esboçou um sorriso fino, quase imperceptível. “Com alguém que você já conhece, de certa forma. Alguém que, tenho certeza, lhe trará segurança e prosperidade. E trará ainda mais força para nós.”

Aquela resposta vaga era pior do que qualquer nome. Quem seria esse homem? Um velho e poderoso chefe de outra família? Um empresário influente com conexões obscuras? As possibilidades eram assustadoras.

“Pai, eu não…” Comecei, mas ele me interrompeu com um gesto.

“Não se preocupe com os detalhes, Bella. Tudo já está decidido. O noivo é um homem respeitável. Forte. Poderoso. E, mais importante, ele manterá você em segurança. Mais segura do que eu jamais pude.” Ele pegou minha mão, apertando-a com firmeza. “Esta é uma honra, minha filha. Uma honra que poucas mulheres da sua posição recebem.”

Eu não sentia honra. Sentia o aperto de uma gaiola se fechando. Olhei para as luzes da cidade novamente, buscando um escape que não existia. Cada brilho, cada rua movimentada, representava um mundo do qual eu estava sendo afastada, para ser entregue a um destino desconhecido.

“Quando?”, perguntei, resignada.

“Em três meses. Tempo suficiente para os preparativos. O nome dele será revelado em breve. Você terá tempo para se acostumar com a ideia.”

Três meses. Três meses para me despedir da vida que eu conhecia, mesmo que limitada. Três meses para encarar o homem que seria meu marido, meu senhor, meu futuro. A imagem de um rosto desconhecido me assombrava, um rosto que seria estampado em minhas pesadas correntes.

“Entendo, pai.” A resignação em minha voz era palpável. Ele assentiu, satisfeito com minha aparente aceitação.

“Bom. Eu sabia que você entenderia. Você é uma Rossi, afinal.” Ele se levantou, ajeitando o terno. “Agora, desça para o jantar. Sua tia Carmela preparou um banquete.”

Ele saiu, deixando-me sozinha com meus pensamentos sombrios. O apartamento, antes um refúgio, agora parecia uma prisão dourada. As paredes de mármore, os quadros caros, tudo parecia zombar de minha falta de liberdade. O violino continuava sua melodia triste, um reflexo perfeito do estado de minha alma.

A noite avançava, mas o sono não vinha. Minha mente girava em torno do desconhecido. Quem seria o homem que se tornaria o dono do meu coração, ou melhor, da minha vida? Ele seria cruel? Brutal? Ou haveria uma chance, por menor que fosse, de que esse casamento pudesse me trazer algo diferente da escravidão?

Enquanto as horas se arrastavam, uma certeza sombria se instalava em meu peito: minha vida, como eu a conhecia, estava prestes a acabar. E o homem que viria para levá-la, para ser o ‘dono’ dela, era uma sombra pairando sobre meu futuro, uma sombra que eu não podia ver, mas que sentia com cada batida acelerada do meu coração. A cidade lá fora, com suas luzes e promessas, parecia tão distante, tão inacessível. Eu estava presa, em meu próprio palácio de cristal, esperando a chegada do meu captor.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%