O Dono do Meu Coração
Capítulo 2 — O Encontro Inesperado
por Eduardo Silva
Capítulo 2 — O Encontro Inesperado
Os dias que se seguiram foram um borrão de ansiedade e expectativa contida. Cada telefonema, cada visita inesperada, me deixava em estado de alerta. Quem seria ele? O que ele queria? As perguntas se repetiam em minha mente como um mantra torturante. Eu me afundava em livros, em música clássica, em qualquer coisa que me afastasse da realidade iminente. Minha tia Carmela, uma mulher de coração mole e pança generosa, tentava me animar com seus pratos deliciosos e fofocas sobre a alta sociedade paulistana, mas até sua bondade parecia insuficiente para dissipar a nuvem negra que me envolvia.
“Bella, você precisa se alimentar!”, exclamou ela um dia, colocando um prato fumegante de lasanha à minha frente. “Esses nervos não vão te fazer bem. Seu pai me disse que o casamento será em breve. Você precisa estar radiante!”
“Radiante para quem, tia?”, perguntei, com um suspiro. O gosto da comida parecia insípido em minha boca.
Tia Carmela suspirou, limpando as mãos em seu avental florido. “Para seu futuro marido, querida. Um homem de respeito, de poder. Seu pai não escolheria mal. Ele quer o melhor para você.”
“O melhor para ele, tia. E para a família Rossi.” A amargura em minha voz era inconfundível.
Ela se sentou à mesa, com um olhar de compaixão. “Eu sei que não é o que você imaginava, Bella. Mas às vezes, o amor… bem, o amor encontra seu caminho. E este homem, com certeza, poderá te dar tudo que você precisa. Segurança, estabilidade, um futuro… e talvez, com o tempo, até amor.”
A esperança que ela tentava plantar em mim era como uma semente em solo árido. Impossível de germinar. Eu não acreditava em amor à primeira vista, muito menos em amor em um casamento arranjado.
“E se ele for… desagradável?”, murmurei, o medo tomando conta.
“Desagradável? Bella, seu pai é um homem de palavra. Ele garantiu que seria um bom partido.” Tia Carmela pegou minha mão. “Você é forte, minha sobrinha. Vai superar isso. Tenho certeza.”
Seu otimismo, embora bem intencionado, apenas ressaltava a minha própria falta de esperança. A verdade era que eu não tinha controle sobre minha própria vida. Eu era um objeto, um prêmio a ser negociado.
Naquela mesma semana, o destino decidiu brincar comigo de uma forma inesperada. Meu pai decidiu que seria apropriado eu começar a “conhecer” os negócios da família, para que eu pudesse estar mais preparada para meu novo papel. Uma decisão que, para mim, soou como um passeio pela jaula dos leões.
Fui levada ao escritório central da Rossi Enterprises, um arranha-céu imponente no coração financeiro de São Paulo. O lugar transpirava poder e opulência. Mármore negro, obras de arte modernas e um silêncio respeitoso permeavam o ambiente. Meu pai me apresentou aos seus homens de confiança, todos com olhares sérios e rostos impassíveis. Eu me sentia um peixe fora d’água, uma flor delicada em meio a espinhos.
Enquanto meu pai discutia números e planos com seus sócios, eu me retirei para uma sala de espera mais afastada, onde me foi oferecida uma xícara de café. O aroma forte e amargo era um paliativo para a minha ansiedade. A janela oferecia uma vista espetacular da cidade, mas meus olhos estavam fixos em um ponto qualquer, minha mente perdida em um turbilhão de pensamentos.
Foi nesse momento de distração que a porta da sala se abriu, e um homem entrou. Não era um dos capangas do meu pai, nem um dos seus sócios habituais. Ele era… diferente. Alto, com ombros largos que preenchiam a porta, vestia um terno escuro impecável que, de alguma forma, parecia ainda mais elegante do que os de meu pai. Seus cabelos negros, ligeiramente desalinhados, emolduravam um rosto com traços fortes e uma mandíbula definida. Mas foram seus olhos que me prenderam. Azuis, intensos, com uma profundidade que parecia conter um universo de segredos e perigos. Um olhar que me fez sentir um arrepio, mas não de medo. Era algo mais complexo.
Ele parou por um instante, seus olhos encontrando os meus. Houve um reconhecimento silencioso, uma faísca que crepitou no ar entre nós. Ele não sorriu, mas um leve contrair de seus lábios sugeriu algo que eu não consegui decifrar.
“Perdão, senhorita. Não sabia que a sala estava ocupada.” Sua voz era profunda, com um timbre grave que me fez prender a respiração. Não era o sotaque paulistano que eu conhecia. Era algo mais… estrangeiro, mas com uma sonoridade sedutora.
“Sem problemas”, respondi, tentando manter a compostura, mas sentindo minhas bochechas corarem. “Eu estava apenas… esperando.”
Ele deu alguns passos à frente, com uma confiança natural que me hipnotizou. Parecia que o ar ao redor dele emanava uma energia poderosa, um magnetismo inegável.
“Eu sou Dante,” ele disse, estendendo a mão. Um gesto simples, mas que, para mim, pareceu carregar um peso incomum. Hesitei por um momento, antes de aceitar. Sua mão era firme, quente. O toque, mesmo que breve, enviou uma onda de calor pelo meu corpo.
“Isabella.”
Seus olhos azuis percorreram meu rosto, fixando-se nos meus por um instante a mais do que seria socialmente aceitável. Havia algo ali, uma faísca de interesse genuíno, talvez até de curiosidade. Algo que me fez sentir… vista. Não como a filha do Don Rossi, a peça de troca, mas como Isabella.
“Uma bela noite para se estar em São Paulo, não é, Isabella?”, ele comentou, com um leve sorriso que agora se formava em seus lábios.
“Poderia ser, se não estivéssemos em pleno escritório da Rossi Enterprises,” respondi, com um toque de sarcasmo.
Ele riu, um som baixo e rouco que me pegou desprevenida. “Verdade. Um ambiente… peculiar.” Ele olhou em volta, como se avaliasse o lugar. “Mas, às vezes, os encontros mais interessantes acontecem nos lugares mais inesperados.”
Sentia meu coração bater mais rápido. A presença dele era avassaladora, mas não de uma forma ameaçadora. Era excitante. Intrigante.
“E quem é você, Dante, para se encontrar nos escritórios da Rossi Enterprises?”, perguntei, a curiosidade vencendo a minha cautela habitual.
Um brilho perigoso cruzou seus olhos. “Eu… faço negócios. Com o Don Rossi.” A última frase foi dita com uma entonação que sugeria um conhecimento mais profundo, algo além do comercial.
Um arrepio percorreu minha espinha. Negócios com meu pai… Aquele olhar, aquela aura… Ele não era um empresário comum. Ele era como meu pai, ou talvez… algo mais. Algo sombrio e poderoso.
Nesse momento, meu pai abriu a porta da sala de reuniões. “Bella! Já terminou seu café? Precisamos ir.” Ele parou ao ver Dante. Seus olhos se arregalaram ligeiramente, um lampejo de surpresa, seguido por um disfarce rápido. “Ah, Dante. Não esperava te ver por aqui tão cedo.”
Dante sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Enrico. Apenas vim resolver alguns assuntos pendentes. E tive a sorte de encontrar sua adorável filha.”
A forma como ele disse “adorável filha” me fez sentir um incômodo estranho. Havia uma possessividade implícita, um tom que me fez pensar se ele sabia quem eu era, ou se simplesmente me via como uma extensão do meu pai.
Meu pai, perceptivelmente tenso, colocou a mão em meu ombro. “Dante, esta é minha filha, Isabella. Isabella, este é Dante. Um parceiro de negócios… importante.”
Dante estendeu a mão novamente, desta vez para meu pai. “Enrico. Sempre um prazer fazer negócios com você. E com sua família.” O aperto de mãos foi firme, mas havia uma tensão palpável entre os dois homens.
Observei a interação com uma estranha fascinação. Dante, com seu olhar penetrante e sua postura confiante, parecia desafiar meu pai de uma forma sutil, mas inegável. Ele não se curvava à autoridade do Don Rossi como os outros. Havia uma igualdade ali, ou talvez até uma superioridade velada.
“Bem, tenho que ir, Enrico. Mas nos veremos em breve. Tenho certeza.” Dante lançou um último olhar para mim, um olhar que me fez sentir como se ele pudesse ver através de minhas defesas. “Prazer em conhecê-la, Isabella. Espero que nossos caminhos se cruzem novamente.”
Ele se virou e saiu da sala, deixando um rastro de mistério e uma sensação estranha em meu peito. Meu pai me puxou para fora da sala, o aperto em meu ombro mais forte do que o normal.
“Vamos, Bella. Não fique aí parada.”
“Pai, quem é ele?”, perguntei, ainda sob o efeito do encontro.
Meu pai hesitou, o olhar perdido em algum ponto distante. “Alguém… complicado. Alguém que você não precisa se preocupar.”
Mas eu já me preocupava. Dante, com seus olhos azuis e sua presença enigmática, havia se gravado em minha mente. Ele era a sombra que eu temia, mas também a faísca de algo novo, algo que me tirou da monotonia sombria da minha vida. E a forma como ele disse “adorável filha”, o olhar que ele me lançou… Tudo me fez pensar se, por um acaso cruel do destino, Dante poderia ser o homem que meu pai planejava para mim. A ideia era ao mesmo tempo aterrorizante e… excitante.