O Dono do Meu Coração
Capítulo 3 — A Revelação e o Impasse
por Eduardo Silva
Capítulo 3 — A Revelação e o Impasse
A revelação foi servida com o jantar, tão fria e indigesta quanto as palavras que a precederam. Meu pai, após um silêncio carregado durante a refeição, finalmente quebrou o suspense. A cada garfada na comida que tia Carmela preparava com tanto carinho, eu me sentia cada vez mais apreensiva. O olhar de meu pai, quando finalmente o encontrei, era de uma determinação inabalável.
“Bella,” ele começou, a voz grave ecoando na sala de jantar silenciosa, interrompida apenas pelo tilintar de talheres. “O homem com quem você vai se casar… é Dante.”
O garfo em minha mão parou a meio caminho da boca. A lasanha, antes um conforto, agora parecia uma montanha insuportável. Minha respiração falhou. Dante. O homem misterioso, com os olhos azuis penetrantes e o sorriso perigoso, o homem que eu acabara de conhecer e que já havia despertado em mim uma tempestade de emoções contraditórias.
“O quê?”, fui capaz de balbuciar, a voz trêmula. A ideia era tão absurda que parecia um pesadelo.
Meu pai assentiu lentamente, como se confirmasse a pior das minhas suspeitas. “Sim, Bella. Dante. Um homem de grande influência, um parceiro fundamental para a família Rossi. Um casamento entre vocês solidificará uma aliança poderosa. Uma aliança que trará segurança e prosperidade sem precedentes.”
Tia Carmela soltou um suspiro de espanto, mas não disse nada, seus olhos arregalados fixos em mim. Eu me sentia tonta. Dante. O homem que parecia carregar o peso do mundo em seus ombros, que emanava um perigo latente, seria meu marido.
“Mas… pai, eu acabei de conhecê-lo!”, protestei, a voz ganhando um tom de desespero. “Ele é um estranho!”
“Ele não é um estranho para mim, Bella. E logo não será um estranho para você.” A firmeza na voz de meu pai não deixava espaço para negociação. Era uma sentença. “Ele é um homem respeitável. Respeitado. E, mais importante, ele é poderoso o suficiente para proteger o que é nosso. E para proteger você.”
A proteção que ele mencionava não me trazia conforto, mas sim a sensação de estar sendo entregue a um predador. A ideia de me casar com Dante, com aquele homem que parecia esconder tantas camadas de mistério e intensidade, me aterrorizava. Mas, estranhamente, também havia uma corrente elétrica de algo mais. Uma atração perigosa.
“Pai, por favor. Dê-me um tempo. Eu não posso me casar com alguém que eu acabei de conhecer!”, implorei, as lágrimas começando a se formar em meus olhos.
Ele balançou a cabeça, os olhos frios e inflexíveis. “O tempo é um luxo que não temos, Bella. A decisão está tomada. O acordo está selado. Você se casará com Dante. Em três meses.”
Três meses. A mesma data que ele havia me dado antes, mas agora com um nome, um rosto, um destino aterrador e fascinante. Senti um nó se formar em minha garganta, impedindo-me de engolir. Levantei-me abruptamente da mesa, a cadeira raspando no chão com um barulho estridente.
“Não!”, exclamei, a voz embargada. “Eu não vou!”
Meu pai levantou-se também, sua figura imponente bloqueando meu caminho. “Isabella Rossi, você não tem escolha. Você fará o que é melhor para esta família.”
A raiva e a frustração se misturaram à tristeza. “E se o que é melhor para a família for a minha infelicidade? O senhor não se importa com isso?”
Ele deu um passo à frente, seu olhar de aço me perfurando. “Eu me importo em manter esta família no topo. Eu me importo em proteger o legado. E você, minha filha, é parte desse legado. Você cumprirá seu dever.”
Sem mais nada a dizer, com o coração partido e a mente em turbilhão, saí da sala de jantar, deixando meu pai e tia Carmela em um silêncio constrangedor. Subi para o meu quarto, as lágrimas escorrendo livremente pelo meu rosto. Dante. Aquele homem que me olhou como ninguém jamais havia olhado, que me fez sentir… algo. E agora, ele seria meu. A ironia era cruel.
Nos dias seguintes, tentei de todas as formas evitar meu pai. Mergulhei em meus estudos, em meus livros, mas a figura de Dante pairava em minha mente. Seus olhos azuis, seu sorriso enigmático, a intensidade de sua presença. O que ele era? Um mafioso? Um empresário com conexões obscuras? A forma como meu pai o tratava, com uma mistura de respeito e cautela, sugeria algo que ia além de uma simples parceria comercial.
A notícia de meu noivado se espalhou rapidamente pelos círculos sociais que eu, de longe, frequentava. Sussurros, olhares curiosos, todos queriam saber sobre a filha do Don Rossi e seu futuro marido misterioso. Eu me sentia exposta, como um animal enjaulado sob os holofotes.
Uma tarde, enquanto eu me perdia em um parque da cidade, buscando um pouco de ar fresco e paz, uma figura familiar surgiu em meu campo de visão. Dante. Ele estava parado a alguns metros de distância, observando-me com aquela expressão enigmática que me desarmava. Meu coração disparou.
Respirei fundo, tentando compor minha expressão. Ele caminhou em minha direção, seus passos firmes e confiantes, como se ele fosse o dono daquele lugar.
“Isabella,” ele disse, a voz profunda soando como uma melodia proibida. Ele parou a minha frente, a poucos centímetros de distância, e a energia que emanava dele era quase palpável. “Eu não esperava encontrá-la aqui.”
“Eu também não esperava encontrá-lo, Dante,” respondi, tentando soar calma, mas sentindo minhas mãos tremerem levemente.
Seus olhos azuis me analisaram, varrendo meu rosto com uma intensidade que me fez sentir exposta. “Seu pai me contou sobre o nosso… futuro.”
A palavra “futuro” dita por ele me causou um arrepio. Era o futuro que eu temia, mas que agora, diante dele, se tornava mais real e avassalador.
“Sim. Ele contou.”
Um sorriso tênue brincou em seus lábios. “E o que você pensa sobre isso, Isabella?”
Olhei para ele, buscando alguma resposta em seus olhos, alguma indicação de seus sentimentos. Ele parecia ser uma fortaleza impenetrável. “Eu… não sei o que pensar.”
Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. O cheiro amadeirado e picante que o acompanhava era intoxicante. “Eu também não tenho certeza se sei o que pensar.” Ele fez uma pausa, seu olhar fixo no meu. “Seu pai me disse que é uma aliança importante. Para ele. Para mim. Para você?”
A pergunta era direta, quase cruel. Ele estava me forçando a confrontar a realidade. “Eu não sei se posso fazer isso, Dante. Casar com um estranho. Alguém que não conheço.”
Ele inclinou a cabeça, pensativo. “Você me viu. Você sabe um pouco sobre mim. Eu sei um pouco sobre você. Talvez seja um começo. Seu pai me garante que você é uma boa moça, Isabella. Educada, gentil…”
“Gentil e assustada”, completei, com um toque de amargura.
Ele riu suavemente, um som que me fez um bem inesperado. “Talvez. Mas eu gosto de desafios.” Ele estendeu a mão, não para me tocar, mas para indicar a direção. “Vamos dar uma volta? Talvez possamos nos conhecer um pouco melhor antes de selarmos nosso destino para sempre.”
Hesitei. Minha mente gritava perigo, cautela. Mas meu coração, aquele órgão teimoso e traidor, sentia uma atração irreprimível por ele. Aquele homem era a personificação do perigo, e, de alguma forma, eu estava atraída por ele.
“Eu não sei se isso é uma boa ideia, Dante.”
“Talvez não seja”, ele admitiu, com um brilho nos olhos. “Mas talvez seja exatamente o que precisamos.”
E, contra todas as minhas melhores intenções, eu assenti. Caminhamos lado a lado pelo parque, o silêncio entre nós não era constrangedor, mas carregado de uma tensão subjacente. Ele falava pouco sobre si mesmo, mas suas perguntas sobre mim eram perspicazes, revelando uma inteligência aguçada e uma capacidade de observação incomum.
Ele perguntou sobre meus livros, minha música, meus sonhos. Sonhos que, até então, eu guardava em segredo. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que alguém estava realmente me ouvindo, me vendo.
“Você me parece… presa, Isabella”, ele disse, de repente, parando e virando-se para mim. Seu olhar era intenso, quase como se ele pudesse ler minha alma. “Presa em uma gaiola dourada.”
A precisão de suas palavras me atingiu como um raio. Ele sabia. De alguma forma, ele sabia. “Talvez eu esteja”, murmurei, a voz embargada.
Ele deu um passo à frente, e pela primeira vez, seus dedos tocaram meu braço, um toque leve, mas que enviou um choque pelo meu corpo. “Eu também tenho minhas próprias… obrigações. Minhas próprias correntes. Mas talvez, juntos, possamos encontrar uma maneira de nos libertar.”
A promessa em sua voz era tentadora, mas também perigosa. Ele era o Don da minha vida, o homem que meu pai escolheu para me controlar. E, ainda assim, naquele momento, ele me olhava com algo que parecia… compreensão. Um impasse que eu não sabia como resolver. Eu estava destinada a me casar com o homem que me fascinava e me aterrorizava, o homem que, talvez, pudesse ser meu salvador ou meu algoz. E eu, Isabella Rossi, não tinha o poder de escolher.