Paixão de Luto e Sangue
Paixão de Luto e Sangue
por Eduardo Silva
Paixão de Luto e Sangue
Autor: Eduardo Silva
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Capítulo 21 — A Sombra do Passado Assombra o Presente
O crepúsculo tingia o céu do Rio de Janeiro com tons alaranjados e arroxeados, um espetáculo que, em outros tempos, traria paz a Isabella. Mas a paz era um luxo que ela não podia mais se permitir. O cheiro de maresia misturava-se à fumaça persistente dos carros e à fragrância adocicada das flores tropicais em seu jardim, um coquetel olfativo que a sufocava. Sentada na varanda de sua mansão em Santa Teresa, com uma taça de vinho tinto intocada na mão, Isabella revivia os fantasmas que a perseguiam. O rosto de Marco, o homem que amara com a intensidade de uma supernova, aparecia em sua mente com uma clareza dolorosa. Cada lembrança era uma facada, um lembrete cruel do abismo que se abriu entre eles.
A traição. Essa palavra ecoava em sua alma como um mantra sombrio. Como pudera ele, Marco, o homem que lhe jurara amor eterno, ser o responsável pela morte de seu pai? A verdade, quando desenterrada, fora mais brutal do que qualquer ficção. A máfia. Um mundo de sombras, sangue e poder que ela sempre tentara evitar, mas que, ironicamente, se tornara o palco de sua desgraça. A investigação de Isabella, movida por uma sede de justiça que beirava a obsessão, a levara a caminhos perigosos. Ela descobrira que o pai, o respeitável empresário Antônio Valente, levava uma vida dupla, envolvido em negócios ilícitos com a organização criminosa conhecida como "A Lâmina Negra". E Marco, seu Marco, era um dos braços mais letais dessa organização.
Um arrepio gelado percorreu sua espinha. A casa, antes um refúgio de amor e cumplicidade, agora parecia um mausoléu, assombrada pelo eco de risadas que não existiam mais e pela presença invisível de um traidor. Ela se levantou, o vestido de seda escura deslizando suavemente sobre suas pernas, e caminhou até a beira da piscina, observando o reflexo distorcido de seu rosto na água escura. As olheiras profundas denunciavam as noites em claro, a angústia a corroendo por dentro. A dor da perda do pai era imensa, mas a dor da traição de Marco era um veneno que se espalhava por suas veias, corrompendo cada célula de seu ser.
"Você precisa ser forte, Isabella", murmurou para si mesma, sua voz embargada. "Ele não vai te quebrar."
A porta de vidro que dava para a sala se abriu e o som suave de passos a fez se virar. Era Rafael, seu fiel guarda-costas e, mais recentemente, o único porto seguro em meio à tempestade. Seus olhos escuros, geralmente expressivos, carregavam uma preocupação que ela não conseguia mais disfarçar. Ele parou a uma distância respeitosa, como sempre fazia, mas sua presença era um bálsamo reconfortante.
"Senhorita Isabella", disse ele, sua voz grave e calma. "O jantar está servido."
Isabella apenas acenou com a cabeça, incapaz de formar palavras. Rafael sabia de tudo. Soubera desde o momento em que ela o contratara, após descobrir as primeiras pistas que ligavam Marco à morte de seu pai. Ele a ajudara em sua investigação, fornecendo informações cruciais, arriscando sua própria vida para protegê-la. A lealdade dele era um contraste gritante com a traição que ela havia sofrido.
"Eu não tenho fome, Rafael", respondeu ela, voltando a encarar a piscina.
Rafael se aproximou, seu olhar fixo em seu rosto. "Você precisa se alimentar, senhorita. A força que o senhor Antônio lhe legou precisa de um corpo forte para se sustentar."
As palavras dele a atingiram em cheio. O senhor Antônio. Um homem bom, um pai amoroso, um empresário visionário. A imagem dele, tão viva em sua memória, a fez engolir em seco. Ela não podia falhar. Não podia deixar que a dor a consumisse por completo.
"Talvez você tenha razão", disse ela, finalmente pegando a taça de vinho e levando-a aos lábios. O líquido amargo parecia corresponder ao seu estado de espírito. "Eu vou descer."
Enquanto caminhava em direção à sala de jantar, a sensação de estar sendo observada a assaltou. Um instinto primitivo, forjado na sobrevivência, a fez parar e olhar ao redor. A mansão parecia silenciosa, mas um silêncio carregado de perigo. As sombras se estendiam, escuras e ameaçadoras, e por um instante, ela jurou ter visto um movimento furtivo no jardim.
"Tem alguém aí?", perguntou ela, sua voz um sussurro tenso.
Rafael se colocou à sua frente, seus olhos percorrendo os arredores com a agilidade de um predador. "Não, senhorita. Está tudo calmo."
Mas Isabella sabia que a calma era apenas uma ilusão. A Lâmina Negra estava lá fora, em algum lugar, e eles sabiam que ela estava perto de desmascará-los. E Marco, o homem que ela amara, o homem que a traíra, era o elo mais perigoso nessa corrente. A noite era longa, e a ameaça, mais palpável do que nunca. Ela sabia que a luta estava apenas começando. O luto a consumia, mas a sede de justiça a impulsionava. E em meio a tudo isso, a lembrança do amor que sentira por Marco era a ferida mais profunda, a que mais ardia.