Um Amor no Asfalto Quente

Capítulo 3 — As Teias do Crime e o Eco do Passado

por Rodrigo Azevedo

Capítulo 3 — As Teias do Crime e o Eco do Passado

Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções conflitantes para Isabella. O contrato com a TechSolutions, que deveria ser motivo de pura alegria, agora carregava o peso de uma chantagem cruel. Arthur Silva não havia feito ameaças explícitas, mas a implicação era clara: a segurança de sua mãe e a continuidade de seu próprio trabalho dependiam de sua cooperação.

Ela se sentia encurralada. A ideia de trair a confiança de Arthur Silva, mesmo sabendo de sua natureza sombria, a repugnava. Mas a imagem do olhar apavorado de sua mãe, Dona Lúcia, a atormentava. Ela não podia arriscar a segurança da única família que lhe restava.

Isabella começou a trabalhar na TechSolutions com uma dualidade que a consumia. Por um lado, sua paixão pelo design a impulsionava a criar trabalhos excepcionais. Ela mergulhou de cabeça nos projetos, buscando a perfeição em cada detalhe, como uma forma de se distrair da realidade sombria que a cercava. Por outro lado, a cada dia, ela se tornava mais atenta aos detalhes, mais observadora. Ela começou a notar conversas ao acaso, documentos deixados em mesas, o fluxo de informações que circulava pelo prédio. Arthur Silva queria que ela fosse seus olhos e ouvidos, e ela, por necessidade, se tornava uma espiã em seu próprio ambiente de trabalho.

Arthur Silva mantinha um contato periódico, mas sempre sutil. Mensagens encriptadas, encontros rápidos em locais discretos, sempre disfarçados de reuniões de trabalho. Ele a elogiava por seu desempenho profissional, e isso apenas tornava a situação mais insuportável. Era como ser acariciada por um predador prestes a dar o bote.

"Você está se adaptando bem, Rossi", ele disse uma vez, em um café sofisticado em Ipanema, onde se encontraram para discutir uma nova campanha publicitária. "Seu trabalho tem sido impecável. E sua discrição é notável."

Isabella tentou disfarçar seu desconforto. "Eu sou profissional, Sr. Silva. Faço o meu trabalho."

"Eu sei. E é por isso que você está aqui. Não se preocupe, você está fazendo a coisa certa. Para todos nós." Ele a encarou, e pela primeira vez, Isabella vislumbrou algo além da frieza em seus olhos azuis: um brilho de melancolia, quase imperceptível. "Você não tem ideia do que está evitando."

Ela não respondeu, apenas se concentrou em tomar um gole de seu café. Ela sabia que ele falava a verdade. Roberto Rossi, seu pai, era um homem de muitos segredos. Ele se envolvera com pessoas perigosas, e as consequências de seus atos agora recaíam sobre ela.

Em uma tarde chuvosa, enquanto organizava alguns arquivos no escritório de Arthur Silva, Isabella se deparou com uma pasta de fotografias antigas. Curiosa, ela começou a folheá-las. Eram fotos de Arthur, muito mais jovem, ao lado de um homem de feições duras, mas com um sorriso que emanava carisma. Havia também uma mulher, com cabelos escuros e um olhar vibrante, abraçada a Arthur.

Uma das fotos chamou sua atenção. Era de uma festa, e Arthur, ainda jovem, parecia feliz. Ao lado dele, estava a mulher dos cabelos escuros, e um menino, com os mesmos olhos azuis penetrantes de Arthur.

Um arrepio percorreu a espinha de Isabella. Aquele menino parecia… familiar.

Ela continuou folheando, e em uma outra foto, ainda mais antiga, viu a mesma mulher, em uma praia, sorrindo para a câmera. A legenda, escrita à mão com uma caligrafia elegante, dizia: "Nossa pequena joia, Sofia."

Sofia. O nome ecoou na mente de Isabella. Ela se lembrou de ter ouvido Dona Lúcia mencionar, em conversas antigas e sussurradas, um nome que causava dor: Sofia, a primeira esposa de Roberto Rossi, que havia morrido tragicamente anos antes de ele conhecer Dona Lúcia.

A conexão era fraca, quase inexistente, mas uma intuição poderosa a impulsionou a investigar. Quem era aquela mulher nas fotos? Por que Arthur Silva, o poderoso CEO da TechSolutions, guardava essas relíquias do passado?

Os dias seguintes foram de investigação silenciosa. Isabella usava seus acessos no sistema da TechSolutions, buscando informações sobre o histórico pessoal de Arthur Silva. Ela encontrou registros breves, escassos. Nascido no Rio de Janeiro, sem menção a familiares. A história oficial era a de um homem que ascendeu do nada, um self-made man implacável.

Mas a persistência de Isabella a levou a outros caminhos. Usando seus contatos no submundo da internet, onde o anonimato era rei, ela começou a vasculhar registros antigos, notícias esquecidas, arquivos públicos. E então, ela encontrou.

Um pequeno artigo em um jornal local, datado de mais de vinte anos atrás. Uma reportagem sobre um trágico acidente de carro em uma estrada da serra fluminense. A matéria citava uma família: Roberto Rossi, sua esposa Sofia, e o pequeno Arthur, de apenas dez anos, que havia sobrevivido milagrosamente. Sofia e Roberto, no entanto, não resistiram.

O mundo de Isabella desabou. Arthur Silva era filho de Roberto Rossi. O homem que a estava chantageando era seu meio-irmão. O passado que ela tentava esquecer, o passado que a perseguia, estava intrinsecamente ligado ao homem que agora controlava seu presente.

A revelação era chocante. Roberto Rossi, o pai que ela idealizara como um homem bom, apesar de seus erros, havia escondido uma família inteira. Ele a teve com Dona Lúcia enquanto ainda era casado com Sofia. E agora, o filho mais velho dele a estava usando para seus próprios fins.

Isabella se sentiu traída em um nível profundo. Aquela paixão avassaladora que começava a brotar em seu peito, aquela atração magnética que sentia por Arthur, tudo aquilo parecia uma farsa. Era uma relação construída sobre mentiras e manipulação.

Ela confrontou Arthur Silva novamente, desta vez em seu escritório, a tensão no ar palpável. Ele a recebeu com a usual compostura, mas Isabella já não se sentia mais intimidada. A raiva e a decepção a impulsionavam.

"Eu sei quem você é, Arthur", ela disse, a voz tremendo ligeiramente, mas firme. "Eu sei sobre Sofia. Eu sei sobre o acidente. E eu sei que você é meu meio-irmão."

Arthur Silva a encarou, seus olhos azuis fixos nos dela. A serenidade em seu rosto se desfez, dando lugar a uma expressão de surpresa e… dor?

Ele permaneceu em silêncio por um longo momento, e o peso da revelação pairou entre eles. Finalmente, ele suspirou, um suspiro profundo que parecia carregar o peso de anos de sofrimento.

"Eu não queria que você descobrisse assim, Isabella", ele disse, a voz rouca. "Eu estava tentando proteger você. E eu."

"Proteger? Você estava me usando! Você me chantageou!" Isabella explodiu, a dor reprimida finalmente vindo à tona. "Você sabia o tempo todo! E você me deixou acreditar que era apenas um cliente qualquer, que eu era apenas uma designer freelancer!"

"Eu não sabia que você era a filha de Roberto", ele confessou, a voz baixa. "Descobri isso depois que você começou a trabalhar para mim. Aquela informação que sua mãe me deu… me fez ligar os pontos. Mas a sua habilidade… a sua arte… era exatamente o que eu precisava. E a situação com as dívidas do seu pai… era real. Pessoas perigosas estavam atrás dele, Isabella. Pessoas que não hesitam em fazer mal a quem amam."

Ele se aproximou dela, seus olhos transmitindo uma sinceridade que Isabella lutou para acreditar. "Eu não estou te usando, Isabella. Estou tentando te manter segura. E a sua mãe. Roberto deixou um legado de problemas, e eu estou tentando limpar a bagunça dele. Uma bagunça que, pelo visto, ele deixou para trás com duas famílias."

A verdade era complexa, dolorosa. Arthur não era o monstro que ela imaginava, mas também não era o herói. Ele era um homem moldado pela dor, pela perda e pela necessidade de sobreviver em um mundo implacável. E ela, Isabella, era apenas mais uma peça em seu intrincado jogo de sobrevivência.

O asfalto quente do Rio parecia agora um campo minado. As teias do crime, que ela pensava que a cercavam apenas por causa de seu pai, agora se estendiam até o homem por quem ela começava a sentir algo mais profundo. O eco do passado ressoava em seus ouvidos, lembrando-a de que, no mundo de Arthur Silva, a linha entre o amor e a destruição era tão tênue quanto a sombra que pairava sobre seus corações.

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