Vício em Teu Beijo
Capítulo 17 — Os Segredos da Fortaleza e a Tela de Mentiras
por Mateus Cardoso
Capítulo 17 — Os Segredos da Fortaleza e a Tela de Mentiras
O chalé, antes um refúgio precário, agora se tornara o quartel-general improvisado da resistência de Isabella e Leonardo. A tempestade lá fora havia cedido lugar a um céu nublado e pesado, mas a atmosfera dentro da pequena construção era carregada de uma tensão palpável. Os dias passavam em um borrão de planejamento febril, mapas espalhados sobre a mesa de madeira rústica, conversas sussurradas e a constante vigilância. Isabella, com uma determinação recém-descoberta, mergulhava nos detalhes, nos esquemas, nas fraquezas do império que um dia chamou de lar. A traição de seu pai e de Marco a empurrara para um precipício, mas ela não cairia. Ela se ergueria.
“Marco tem estado mais recluso nas últimas semanas”, Leonardo disse, sua voz um murmúrio concentrado enquanto estudava um relatório. Ele havia retornado brevemente à cidade para coletar informações, um risco calculado que o deixara apreensivo, mas que se mostrara frutífero. “Ele parece focado em consolidar o poder, especialmente nas docas. Há boatos de novas cargas chegando, de origem duvidosa. E as negociações com a família Santoro estão mais intensas do que nunca.”
Isabella franziu a testa, a imagem de Marco, com seu sorriso falso e olhos traiçoeiros, surgindo em sua mente. Ele era o epítome da ambição desmedida, sedento por mais, sempre mais. “E meu pai?”, ela perguntou, a voz tingida de amargura. “Ele está supervisionando tudo de perto?”
“Vittorio está atuando como sempre: nas sombras, orquestrando. Mas ele parece mais… interessado em manter as aparências. A mudança na diretoria da’empresa de fachada foi um golpe de mestre. Ninguém suspeita que tudo ainda está sob o controle dele.” Leonardo ergueu os olhos, encontrando os dela. “Ele sabe que você sabe. Mas ele acredita que você está rendida. Que você não tem mais para onde ir.”
Um sorriso fino e perigoso curvou os lábios de Isabella. “Ele está subestimando a força do desespero. E a força da verdade. Precisamos de mais provas, Leo. Provas que não possam ser ignoradas. Algo que force o desmoronamento daquela tela de mentiras que eles construíram.”
Leonardo assentiu. “Eu tenho pensado nisso. A Fortaleza é o coração do poder de Vittorio. Se pudermos encontrar algo lá dentro, algo que exponha suas operações ilegais, seus acordos sujos… seria um golpe devastador.”
A Fortaleza. O nome evocava imagens de opulência e poder, mas também de segredos sombrios e decisões cruéis. Era ali que Vittorio recebia seus aliados, onde planejava suas estratégias, onde mantinha o controle sobre tudo e todos. Entrar lá seria uma missão suicida, mas Isabella sabia que era necessário.
“Eu cresci com medo da Fortaleza”, ela confessou, a voz baixa. “Meu pai sempre me dizia para não questionar, para não olhar demais. Mas agora… agora eu preciso entrar. Eu preciso ver com meus próprios olhos o que ele esconde.”
Leonardo a observou com uma mistura de admiração e preocupação. “Você tem certeza? É perigoso demais, Isabella. Se eles te pegarem lá dentro…”
“Eu não tenho medo de meu pai”, ela o interrompeu, a voz firme. “Eu tive medo dele por toda a minha vida. Mas agora, esse medo se transformou em algo mais. Em raiva. Em uma necessidade de expor a verdade. Se houver um cofre, um escritório secreto, algo que comprove as transações ilegais… é lá que devemos procurar.”
Leonardo suspirou, mas a resistência em sua voz era mínima. Ele sabia que não poderia impedi-la. “Eu te levarei. Mas você terá que ser discreta, obedecer a cada palavra minha. Um único erro e tudo estará perdido.”
“Eu confio em você”, ela disse, e a sinceridade em sua voz o atingiu. Havia uma confiança mútua que se aprofundava a cada dia, construída sobre os escombros da traição.
Na noite seguinte, sob o manto escuro da lua nova, Leonardo e Isabella se aproximaram da Fortaleza. As imponentes paredes de pedra e as grades de ferro pareciam guardar um tesouro de segredos sombrios. Leonardo, com sua expertise em infiltração, desativou os sistemas de segurança com uma precisão impressionante, cada movimento calculado, cada passo silencioso. Isabella o seguia de perto, o coração batendo forte contra o peito, cada ruído externo amplificado em seus ouvidos.
Eles se moveram pelos corredores opulentos, as obras de arte nas paredes observando-os em silêncio, testemunhas mudas da hipocrisia daquele lugar. Leonardo a guiou por um labirinto de corredores e escadas secretas, até chegarem a uma porta discreta, disfarçada como parte da estante de livros na biblioteca particular de Vittorio.
“Aqui”, Leonardo sussurrou, acionando um mecanismo oculto. A estante se moveu lentamente, revelando uma passagem escura. “O escritório particular dele. É aqui que estão os segredos.”
O escritório era opulento, mas sombrio. Móveis de mogno escuro, um cheiro de couro e charutos pairando no ar, e uma sensação de poder autoritário que parecia impregnar as paredes. Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era o covil do lobo.
Leonardo começou a vasculhar a mesa de Vittorio, abrindo gavetas com cuidado, examinando papéis com uma atenção minuciosa. Isabella, por sua vez, se concentrou em um cofre embutido na parede atrás de uma pintura a óleo. Ela sabia que Vittorio guardava seus tesouros mais valiosos, e suas operações mais secretas, ali.
“Tem um sistema de reconhecimento de retina”, Isabella murmurou, analisando a pequena câmera. “Eu não sei se consigo burlar isso.”
Leonardo se aproximou, seus olhos estudando o mecanismo. “Marco me contou uma vez, em um momento de descuido, sobre um backup de segurança. Algo que Vittorio usa em casos extremos. Precisa de uma chave física, mas está guardado em um local inesperado.”
“Onde?”, Isabella perguntou, a urgência em sua voz crescendo.
“Ele disse que estava… na caixa de música favorita de sua mãe. Aquela que Vittorio nunca tocou depois que ela morreu.”
A menção da mãe de Isabella, uma figura quase mítica em sua infância, trouxe um aperto no peito. Ela se lembrava vagamente de uma caixa de música antiga, com um bailarino delicado. Onde estaria agora?
“Ela ficava no quarto que era dela”, Isabella disse, a mente trabalhando rapidamente. “No andar de cima. Mas é um lugar perigoso. Meu pai a mantém intacta, como um santuário.”
Leonardo assentiu. “Vamos ter que arriscar. Você fica aqui, continue tentando o cofre. Eu vou buscar a chave.”
O tempo parecia se arrastar. Isabella se sentia exposta, cada estalo da madeira, cada rangido distante, a fazia saltar. Ela tentava se concentrar no cofre, mas sua mente vagava para a imagem de Leonardo se arriscando por ela. Finalmente, depois do que pareceram horas, ele retornou, ofegante, mas com um pequeno objeto metálico nas mãos. Uma chave antiga, com um design intrincado.
“Consegui”, ele sussurrou, o suor escorrendo por sua testa. “Estava escondida dentro do mecanismo da caixa.”
Com as mãos trêmulas, Isabella inseriu a chave no cofre. Um clique suave ecoou pelo silêncio, e a porta do cofre se abriu. Lá dentro, não havia joias ou ouro. Havia pilhas de documentos, contratos, registros financeiros detalhados, e fitas cassete antigas.
“É aqui”, Leonardo disse, pegando um dos contratos. “Contratos de lavagem de dinheiro, acordos com traficantes de armas, transferências para contas offshore… tudo está aqui. Provas irrefutáveis.”
Isabella pegou uma das fitas cassete. O rótulo escrito à mão dizia: "Conversa com Santoro - Acordo das Docas". Ela sentiu um arrepio de horror e excitação. Aquilo era o que eles precisavam.
De repente, um barulho do lado de fora. Passos apressados.
“Alguém está vindo!”, Leonardo sibilou, fechando o cofre rapidamente. Ele pegou os documentos mais importantes, guardando-os em uma pasta segura. “Temos que sair daqui, agora!”
Eles se apressaram para a passagem secreta, o som dos passos se aproximando cada vez mais. A adrenalina pulsava em suas veias. Conforme eles saíam da biblioteca, ouviram vozes familiares.
“Você tem certeza que ele estava aqui, Marco? Não gosto dessa sua intuição repentina.” Era a voz fria e calculista de Vittorio.
“Eu vi as luzes acesas quando passei pela janela, pai. Ele está aqui, com certeza.” A voz de Marco, cheia de um ódio disfarçado.
Isabella e Leonardo se entreolharam, o pânico começando a se instalar. Eles estavam encurralados. A tela de mentiras de Vittorio estava prestes a ser rasgada, mas a vingança deles quase se transformou em uma armadilha fatal. O preço da desconfiança, a busca pela verdade, os havia levado para o coração do perigo, e agora, eles precisavam encontrar uma saída, antes que a Fortaleza engolisse seus segredos e eles com eles.