Vício em Teu Beijo
Capítulo 2 — O Primeiro Encontro Sob o Olhar da Máfia
por Mateus Cardoso
Capítulo 2 — O Primeiro Encontro Sob o Olhar da Máfia
O dia do "encontro" chegou, um eufemismo para o evento orquestrado que selaria o futuro de duas famílias. A mansão Rossi estava em polvorosa, uma dança frenética de garçons impecáveis, flores exóticas e o burburinho de convidados escolhidos a dedo. O salão principal, um espetáculo de opulência, brilhava sob a luz de lustres de cristal, mas para mim, cada brilho parecia zombar da escuridão que se instalara em meu coração.
Eu, Isabella Rossi, estava em meu quarto, sendo vestida por minha governanta, Dona Clara, uma mulher cujo rosto enrugado carregava a sabedoria de anos de serviço e lealdade. Ela ajeitava os últimos detalhes do meu vestido de seda cor de marfim, um modelo elegante que, apesar de sua beleza, parecia uma armadura.
"Você está deslumbrante, minha menina", disse Dona Clara, sua voz suave e reconfortante. Ela era a única em quem eu confiava plenamente, um farol de gentileza em um mar de aspirações e intrigas.
"Obrigada, Dona Clara", respondi, tentando transmitir um pouco de confiança. Mas meus olhos traíam a ansiedade. Hoje eu conheceria Marco Santoro. O homem que se tornaria meu marido.
Ao descer as escadas, senti todos os olhares se voltarem para mim. O salão inteiro se silenciou por um instante, um momento de reconhecimento, de julgamento silencioso. Meu pai estava ao meu lado, seu braço firme em minha cintura, um gesto protetor que não dissipava o frio que me percorria. Ele sorriu para os convidados, um sorriso que não chegava aos olhos.
E então, ele entrou.
Marco Santoro.
Ele era exatamente como eu imaginara, e ainda assim, completamente diferente. Alto, com ombros largos que preenchiam a porta, sua presença era magnética. Vestia um terno escuro que parecia ter sido feito sob medida, cada detalhe impecável. Seus cabelos escuros eram cortados de forma clássica, e seu rosto era de uma beleza austera, quase cruel. Mas eram os olhos que prendiam. De um azul profundo, quase preto na penumbra do salão, eles eram intensos, penetrantes, e pareciam ver através de tudo. Um sorriso mínimo brincava em seus lábios, um sorriso que não transmitia calor, mas sim um calculismo perigoso.
Ele se aproximou, acompanhado por seus pais, figuras imponentes e temíveis por si só. A tensão no ar era palpável. Meu pai apertou minha mão levemente, um sinal para que eu mantivesse a compostura.
Quando ele finalmente chegou a nós, seus olhos encontraram os meus. Foi um choque. Havia uma faísca, uma eletricidade estranha que parecia conectar nossos olhares. Por um segundo, o salão inteiro desapareceu.
"Isabella", disse ele, sua voz um barítono grave, rouco, que fez um arrepio percorrer minha espinha. Era uma voz que prometia perigo e sedução.
"Marco", respondi, minha voz surpreendentemente firme. Mantenha a compostura, Isabella.
Meu pai fez as apresentações formais, as palavras soando vazias em meio à avalanche de emoções que eu sentia. Os pais de Marco, Don Antonio Santoro e sua esposa, a elegante Dona Sofia, nos observavam com olhos analíticos.
"Ela é linda, Vittorio", disse Don Antonio, um homem com uma presença intimidadora, apesar de sua idade.
"Obrigado, Antonio", respondeu meu pai, um sorriso forçado em seus lábios. "E Marco... ele tem o temperamento do pai."
Houve um silêncio carregado. Os pais dos noivos conversavam, suas palavras um murmúrio de negócios e alianças, enquanto nós, os principais interessados, estávamos ali, em silêncio.
Marco se virou para mim, seus olhos azuis profundos fixos nos meus. Ele estendeu a mão. Hesitei por um instante, o toque de um homem como ele sendo um risco, mas a etiqueta exigia. Segurei sua mão. Era quente, firme, e a pele era macia.
"É um prazer conhecê-la, Isabella", disse ele, seus lábios se curvando em um sorriso quase imperceptível.
"Igualmente, Marco", respondi, tentando manter um tom neutro.
Nossos olhares se sustentaram por um momento mais longo do que o socialmente aceitável. Senti uma estranha atração, uma força gravitacional que me puxava para ele, apesar do medo. Havia uma intensidade em seu olhar que me deixava sem fôlego.
O resto da noite foi um borrão de interações forçadas. Fomos apresentados como um casal, nossos pais discutindo os detalhes do casamento com sorrisos diplomáticos. Marco permaneceu ao meu lado, sua presença uma constante, um lembrete da minha nova realidade. Ele falava pouco, mas quando o fazia, suas palavras eram precisas e carregadas de significado. Ele me observava com uma atenção que me fazia sentir exposta, como se ele pudesse ler todos os meus pensamentos.
Em um momento, enquanto eu me afastava para pegar uma taça de champagne, ele me seguiu.
"Você parece... pensativa", disse ele, sua voz baixa, apenas para mim.
"Estou apenas absorvendo tudo", respondi, tentando soar casual.
Ele inclinou a cabeça, seu olhar ainda mais intenso. "O que você absorveu, Isabella?"
Um arrepio percorreu minha espinha. "Que este é um momento importante para nossas famílias."
Um sorriso irônico surgiu em seus lábios. "E para você?"
A pergunta me pegou de surpresa. Ele não se importava com os sentimentos de uma noiva arranjada? "Eu também", respondi, minha voz um pouco mais suave.
Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro de seu perfume, uma fragrância amadeirada e picante, era sedutor. Meu coração disparou.
"Você tem olhos bonitos, Isabella", disse ele, sua voz um sussurro. "Eles guardam segredos."
Senti meu rosto corar. "E você, Marco, tem um olhar que pode intimidar exércitos."
Um riso baixo escapou de seus lábios. "Talvez eu precise intimidar alguém para ter a atenção da minha noiva."
O flerte era perigoso, inesperado. Senti uma mistura de medo e excitação.
"Eu estou aqui, não estou?", respondi, tentando soar desafiadora.
Ele se aproximou ainda mais, seu hálito quente em meu rosto. "Sim, você está. Mas eu me pergunto se você realmente quer estar."
A verdade era que eu não sabia. Eu estava presa, mas uma parte de mim, a parte que eu mantinha escondida, estava curiosa. Curiosa sobre o homem por trás da máscara.
Meus pais nos chamaram, o momento íntimo interrompido. Marco se afastou, o olhar de volta à sua máscara impenetrável.
Ao final da noite, Marco me acompanhou até a porta. Em um gesto inesperado, ele pegou minha mão e a levou aos lábios, depositando um beijo delicado em meus dedos.
"Até breve, Isabella", disse ele, seus olhos azuis profundos fixos nos meus. Havia uma promessa ali, algo que me deixou inquieta.
Observei-o partir, sua silhueta desaparecendo na escuridão da noite. A mansão parecia mais silenciosa agora, o burburinho dos convidados cessado. Eu estava sozinha com meus pensamentos, com a imagem do olhar de Marco gravada em minha mente. O primeiro encontro havia sido um jogo de poder, de olhares calculistas e palavras sussurradas. Mas, por baixo de tudo, havia uma corrente subterrânea, uma atração perigosa que me deixava apreensiva e, confesso, ligeiramente excitada. O vício em seu beijo ainda não havia começado, mas eu sentia que algo estava prestes a despertar.
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