Vício em Teu Beijo
Capítulo 20 — A Teia do Poder e o Vício Que Aflige a Alma
por Mateus Cardoso
Capítulo 20 — A Teia do Poder e o Vício Que Aflige a Alma
A cidade, antes adormecida sob o jugo invisível de Vittorio, agora pulsava com uma energia tensa. A aliança entre Isabella e a família Rossi, firmada em segredo e impulsionada pela sede de justiça e vingança, começava a dar seus primeiros frutos. As provas roubadas da Fortaleza eram a arma principal, mas Antonio Rossi e seus homens eram a linha de frente, tecendo uma teia de influências e contatos que começava a sufocar as operações de Vittorio.
Isabella, agora sob a proteção dos Rossi, vivia em um apartamento discreto, longe dos olhares curiosos, mas nunca longe da luta. Ela trabalhava incansavelmente com Antonio, analisando os documentos, identificando os pontos fracos do império de seu pai, e planejando os próximos passos. O luto pela perda de Leonardo ainda era uma ferida aberta, mas a determinação em honrar seu sacrifício a impulsionava.
“Os carregamentos nas docas diminuíram drasticamente”, Antonio informou Isabella, os olhos brilhando com a satisfação da vitória iminente. Ele estava em seu escritório, a decoração ostentosa contrastando com a simplicidade do refúgio de Isabella. “Nossos homens têm interceptado algumas das remessas antes que cheguem ao destino. E as informações que você nos deu sobre as contas offshore… estamos trabalhando com nossos contatos internacionais para congelar esses fundos.”
Isabella sentiu uma ponta de alívio. “Isso é ótimo, Antonio. Mas e meu pai? Ele ainda tem muito poder. E Marco… ele está cada vez mais impaciente. Ele quer o controle, e não hesitará em eliminar quem estiver em seu caminho.”
“Vittorio está furioso”, Antonio confirmou. “Ele sabe que a teia está se fechando. Ele tem tentado usar sua influência para calar as autoridades, mas as provas são contundentes demais. E as nossas fontes nos informaram que ele está planejando um movimento desesperado. Uma reunião de emergência com os chefes das famílias aliadas. Ele quer consolidar poder, mostrar força.”
“Uma reunião secreta?”, Isabella perguntou, a mente trabalhando rapidamente. “Onde será?”
“Em uma vila isolada, no litoral. Um lugar que ele considera impenetrável. Ele planeja usar essa reunião para planejar nosso extermínio, ou para fazer um acordo com quem puder lhe oferecer ajuda. Ele está desespero, Isabella. E um homem desesperado é perigoso.”
Isabella sentiu um calafrio. Era a oportunidade perfeita. Um ataque direto ao coração do poder de Vittorio. “Precisamos estar lá. Precisamos interromper essa reunião. Mostrar a todos que ele não está mais no controle.”
Antonio concordou. “Será arriscado. Mas é a única chance que temos de acabar com isso de uma vez por todas. Eu preparei uma equipe. Mas você… você terá que estar lá. Você é o símbolo da mudança. A prova viva da fraqueza de Vittorio.”
Enquanto isso, na mansão Vittorio, a tensão era palpável. Vittorio, com a barba grisalha mais proeminente e os olhos fundos, recebia Marco em seu luxuoso escritório. A derrota era iminente, mas seu orgulho ferido o impelia a uma última e desesperada tentativa de manter o controle.
“A reunião é nossa última chance, Marco”, Vittorio disse, a voz rouca. “Precisamos mostrar aos outros que ainda somos fortes. Que podemos nos defender. E que essa garota insuportável não vai nos destruir.”
Marco, pálido e suado, assentiu. Ele se sentia acuado, a sombra do fracasso pesando sobre ele. “Eu… eu garanto que desta vez nada sairá como planejado. Vamos pegar Isabella. E Leonardo, se ele ainda estiver vivo… faremos ele se arrepender.”
“Leonardo…”, Vittorio rosnou o nome como um veneno. “Ele é um traidor. E Isabella, minha própria filha, se aliou a ele. Mas eles não sabem com quem estão lidando. Nós controlamos essa cidade há décadas. E não será uma garotinha mimada, com a ajuda de alguns desgraçados, que vão mudar isso.”
Na noite da reunião, a lua cheia banhava o litoral com uma luz fria e prateada. A vila isolada de Vittorio parecia um castelo de areia prestes a ser engolido pela maré. A equipe de Antonio Rossi, composta por homens habilidosos e leais, se infiltrou nas sombras, enquanto Isabella, vestida com um traje escuro e discreto, observava de um ponto estratégico, com uma arma em punho e o coração batendo forte.
O plano era simples: criar o caos, expor Vittorio, e capturá-lo. Mas o destino, como sempre, tinha seus próprios planos. No meio do ataque, quando a batalha estava no auge, Isabella viu uma figura familiar emergir das sombras. Era Marco. Ele havia se infiltrado, não para ajudar seu pai, mas para encontrar Isabella e ter sua própria vingança.
“Você não vai fugir de mim, Isabella!”, ele gritou, seus olhos cheios de uma fúria descontrolada. Ele empunhava uma pistola, tremendo de raiva.
Isabella se virou, surpresa e apreensiva. “Marco, pare! Isso é loucura!”
“Loucura é você achar que pode roubar o que é meu!”, ele retrucou, avançando.
Uma troca de tiros se seguiu. Isabella se defendia, tentando não ferir o homem que um dia chamou de primo, mas que se tornara um monstro. No meio do confronto, Vittorio surgiu, vendo seu filho em perigo. Ele disparou contra Isabella, mas Marco, em um ato de desespero ou talvez um último resquício de sanidade, se jogou na frente do tiro, protegendo-a.
O corpo de Marco caiu no chão, inerte. Vittorio gritou de fúria e desespero. A aliança de Isabella e dos Rossi aproveitou o momento de distração, capturando Vittorio e seus aliados restantes.
Com o império de Vittorio desmoronando, Isabella se viu diante de um novo dilema. O vício em poder, que afligia seu pai e seu primo, era uma tentação perigosa. Os Rossi a queriam como líder, como a nova força a ser respeitada. O poder estava ao seu alcance, um vício que se infiltrava em sua alma.
Ela se lembrou de Leonardo, de sua promessa de um futuro livre, de um mundo onde a justiça prevaleceria. Ela não queria o poder de seu pai. Ela não queria o vício que corrompia as almas.
“Eu não vou assumir o controle”, Isabella disse a Antonio Rossi, sua voz firme, mas carregada de tristeza. “Eu quero justiça. E quero paz. Deixarei que vocês administrem a cidade. Mas prometam-me que o farão de forma justa. Que não se tornarão o que Vittorio foi.”
Antonio, surpreendido, mas respeitoso, concordou. Ele via nela uma força diferente, uma líder que não buscava a dominação, mas a redenção.
Enquanto o sol nascia, pintando o céu com tons de esperança, Isabella olhava para o mar. A tempestade havia passado, mas as cicatrizes permaneceriam. Ela havia lutado, havia vencido, mas o preço fora alto demais. O vício em teu beijo, o amor que sentira por Leonardo, havia sido sua salvação e sua maior dor. Agora, sozinha, mas livre, ela precisava encontrar seu próprio caminho, um caminho onde o vício em poder não a consumisse, e onde a memória de Leonardo a guiasse para um futuro de luz.