Vício em Teu Beijo
Capítulo 7 — A Armadilha Se Fecha
por Mateus Cardoso
Capítulo 7 — A Armadilha Se Fecha
A madrugada em São Paulo era um espetáculo de contrastes. As luzes dos arranha-céus ainda piscavam, desafiando a escuridão, enquanto nas ruas menos iluminadas, a cidade respirava um silêncio carregado de segredos. No apartamento luxuoso de Leonardo De Luca, o sol ainda não havia nascido, mas a mente de Leo já fervilhava. Ele estava de pé ao lado da janela, observando o movimento lento da cidade, a xícara de café amargo em suas mãos parecendo tão sombria quanto seus pensamentos.
Isabella dormia tranquilamente em seus braços, um anjo em meio à tempestade que ele representava. O perfume suave de seus cabelos invadia suas narinas, um contraste gritante com o cheiro metálico de pólvora que muitas vezes o acompanhava. Ele sentia uma necessidade avassaladora de protegê-la, de arrancá-la daquele mundo perigoso que o envolvia. Mas sabia que era tarde demais. A teia se apertava, e ela, sem saber, já estava emaranhada.
Ele beijou o topo de sua cabeça com ternura. O amor que sentia por ela era uma anomalia em sua existência, um raio de sol que quebrava a monotonia da violência e da traição. Ele a via como a única saída, a única chance de redenção. Mas essa redenção viria com um preço, um preço que ele sabia que teria que pagar com sangue.
Leonardo suspirou, o peso da decisão de amanhã esmagando-o. O encontro com Vasconcelos. O clímax de uma guerra fria que se arrastava por meses. Era hora de acabar com tudo, de erradicar a ameaça que ele representava, não apenas para seu império, mas para Isabella.
"Leo?", a voz sonolenta de Isabella o tirou de seus devaneios. Ela se mexeu em seus braços, os olhos ainda fechados.
"Shhh, durma, meu amor", ele sussurrou, apertando-a um pouco mais.
Ela se virou, o rosto enterrado em seu peito. "Você está tenso. Algo aconteceu?"
Leo hesitou. Contar a ela sobre seus planos seria colocá-la em perigo ainda maior. Mas mentir para ela, para a mulher que ele estava começando a amar, parecia uma traição.
"Amanhã é um dia importante", ele disse, escolhendo as palavras com cuidado. "Teremos que tomar algumas decisões difíceis."
Isabella levantou a cabeça, o olhar perspicaz de sempre. Ela o encarou, procurando respostas em seus olhos. "Que decisões? Você está falando do seu negócio, não é? Do seu pai, da sua família."
Leo assentiu lentamente. "Sim. Algo tem que ser feito. Vasconcelos se tornou um problema muito grande."
Um arrepio percorreu a espinha de Isabella. Ela sabia que a rivalidade entre seu pai e os De Luca era profunda, um ódio antigo que parecia impossível de ser superado. Mas ela nunca imaginou que chegaria a esse ponto.
"Meu pai...", ela murmurou, a voz embargada.
Leo apertou sua mão. "Eu sei, Isa. É complicado. Mas eu preciso resolver isso. Por nós."
Ele a puxou para um abraço apertado, como se quisesse protegê-la do mundo e, ao mesmo tempo, se proteger dela. O cheiro dela, a suavidade de sua pele, eram um bálsamo para sua alma atormentada. Mas ele não podia se dar ao luxo de vacilar.
Enquanto isso, nas sombras do galpão abandonado na zona portuária, a tensão era palpável. Toninho Rossi e sua equipe estavam posicionados, cada homem em seu lugar estratégico. O silêncio era quebrado apenas pelo som distante das ondas batendo contra os cais e pelo farfalhar das gaivotas. Toninho observava tudo com a calma fria de um predador.
Ele verificou seu rádio. "Status?"
"Tudo pronto, Toninho. Posicionados. Aguardando sua ordem." A voz do seu homem de confiança, Marco, soou clara e firme.
Toninho assentiu. Ele sabia que essa noite seria decisiva. Vasconcelos, confiante em sua própria astúcia, estava caindo em uma armadilha cuidadosamente elaborada. O plano de Leo era audacioso, quase suicida, mas Toninho confiava cegamente em seu líder.
"Leo está aqui?", perguntou Toninho.
"Ele está chegando. Com o pessoal de apoio. Mantendo uma distância segura até o momento certo."
Toninho deu um leve sorriso. Leo era um mestre em estratégia, mas também um homem impulsivo quando se tratava de proteger o que amava. Isabella Vasconcelos era o ponto fraco dele, e o ponto forte dele.
De repente, as luzes dos faróis de carros irromperam na escuridão. O veículo de Vasconcelos, escoltado por alguns carros de seus capangas, estacionou em frente ao galpão. O homem desceu, confiante, a arrogância estampada em seu rosto. Ele não fazia ideia do que o aguardava.
"Ele chegou", disse Toninho em seu rádio. "Preparem-se. Sem alarde até a ordem."
Vasconcelos entrou no galpão, seguido por seus homens. O local estava escuro, empoeirado, ecoando com o som de seus passos. Ele esperava os colombianos, mas o que encontraria seria a fúria De Luca.
No carro blindado, Leo observava tudo através de seus binóculos. Ele sentia a adrenalina percorrer suas veias. Ao seu lado, Marco ajustava a mira de um rifle.
"Está na hora, Leo", disse Marco.
Leo assentiu, o olhar fixo no brilho fraco do galpão. "Vamos acabar com isso."
Toninho deu o sinal. Os homens de Leo emergiram das sombras, cercando o galpão. A surpresa foi total. Os capangas de Vasconcelos, pegos de desprevenidos, tentaram reagir, mas a ação foi rápida e letal.
Vasconcelos, percebendo a armadilha, tentou fugir, mas Leo estava à sua espera. Ele saiu do carro, a expressão fria e determinada.
"Vasconcelos", disse Leo, sua voz reverberando na noite. "Seu jogo acabou."
Vasconcelos riu, uma risada nervosa e desesperada. "De Luca! Você acha que pode me deter? Você não sabe com quem está lidando!"
"Eu sei exatamente com quem estou lidando", respondeu Leo, sacando sua arma. "Um homem que colocou em perigo a única pessoa que me importa."
A troca de tiros começou. Os homens de Leo eram mais numerosos e mais bem treinados. A resistência de Vasconcelos foi brutal, mas fútil. Ele lutou com a fúria de um animal encurralado, mas a determinação de Leo era inabalável.
No meio do caos, Isabella estava em seu apartamento, o celular em suas mãos, o coração batendo descompassado. Ela sentia algo errado, uma angústia que a consumia. Ela tentou ligar para Leo, mas ele não atendeu.
"Por favor, Leo, me atenda", ela sussurrou, a voz embargada.
De volta ao galpão, a luta chegava ao fim. Leo, com um ferimento superficial no braço, enfrentou Vasconcelos. O homem, ferido e exausto, olhava para Leo com ódio puro.
"Você é louco, De Luca! Você vai pagar por isso!"
"Eu já paguei", disse Leo, com os olhos fixos nos dele. "Agora é sua vez."
O último tiro ecoou na noite. Vasconcelos caiu, a vida esvaindo-se de seus olhos. Leo olhou para o corpo, sentindo um misto de alívio e vazio. A ameaça fora eliminada, mas o custo era imenso.
Ele se virou para Toninho, que se aproximou com um semblante sério. "Acabou, Leo. Sem baixas do nosso lado. Bem executado."
Leo assentiu, o olhar distante. "Certifique-se de que não sobrem testemunhas. Quero tudo limpo."
Enquanto Toninho dava as ordens, Leo sentiu um puxão em sua perna. Era uma mulher, uma das poucas que trabalhavam na segurança do galpão, uma informante que ele havia colocado ali. Ela estava ferida, mas determinada.
"Senhor De Luca", ela ofegou, sua voz fraca. "Vasconcelos... ele tinha um plano. Ele sabia que você poderia vir. Ele tinha... ela."
Leo a encarou, o sangue gelando em suas veias. "Ela quem?"
"A menina. Isabella. Ele planejava usá-la. Contra você. Ele a tem em algum lugar. Um refúgio seguro. Ele me fez prometer... se algo acontecesse com ele..."
A informação atingiu Leo como um raio. Ele se virou bruscamente, a adrenalina voltando com força total. Isabella. Ela estava em perigo. O plano de Vasconcelos, em sua maldade, havia previsto essa possibilidade.
"Onde?", ele exigiu, a voz rouca de desespero.
A mulher tentou falar, mas desmaiou. Toninho agiu rapidamente, chamando uma ambulância e os médicos da organização.
Leo olhou para o corpo de Vasconcelos, o triunfo se transformando em puro terror. Ele não tinha apenas lutado por seu império, mas pela vida da mulher que amava. E agora, essa vida estava ameaçada de uma forma que ele nunca imaginara. O vício em seu beijo o levara até ali, mas o medo de perdê-la o impulsionava para uma nova e perigosa batalha. A armadilha se fechara, mas não para Vasconcelos. Para todos eles.